Fui ontem ao lançamento do Contra a Literatice e Afins do João Gonçalves (aqui) que se poderia recensear como uma espécie de anti-vírus literário traçado com a mesma arte de esgrima desenhada no seu blogue.
Com este petit rien aqui deixado sem "laços de embrulhar", em alternativa a um desejado cumprimento que não me foi possível efectuar por sobreposição de compromissos (deixando assim por assinar o exemplar que de lá trouxe), saúdo-o a partir deste sitío felicitando-o com um grande bem-haja.
Era um petiz, a pequena criança do tempo de algumas histórias aqui já contadas. Na verdade a idade em que o pequeno rapaz queria ser santo. Os domingos passava-os com uma prima viúva, ainda com 50 anos mal feitos, com quem durante longos anos na sua sala, sentado, num maiple (dizia-lhe, com certa distinção, corrigindo-lhe o trivial termo sofá) onde os pés ainda não tocavam no chão, assistia às matinés cinematográficas da RTP recheadas daqueles filmes dos anos 40, 50 e 60. Sem recordar-lhes os nomes em concreto, fascinado, recorda-lhes porém um rosto raiando beleza em torno de uns míticos e deslumbrantes olhos cor-de-violeta que vinham ocupar esse pequeno ecrã. De facto, Liz Taylor. A prima viúva dizia sempre:
- Já teve 7 maridos!
- Tantos, prima??? - respondia
- Sim, filho, 7 maridos... e está sempre a voltar para o mesmo!
Assim era, assim foi! (aqui) Fica dessa época a memória de Rhapsody, o primeiro que lhe lembro, em torno das aventuras e desventuras com o violinista Paul Bronte que até em Lisbôa (aqui) deu um concerto.
Portugal não precisa de falsa eloquência nem de falsos profetas de punhos rendilhados e de falas mansas. Precisa de um trolha, CARALHO! Um trolha que meta as mãos na massa.
Chamava-se João Manuel Serra e era conhecido como o "senhor do adeus" e já não está entre nós. Melindrado por este por mural pressenti estar perante um cenotáfio, o memorial de quem naquele local passou tantas horas saudando quem por ali passava para afastar a solidão. Podia ser qualquer um de nós - sim, nós aqueles que se devotam a passar horas no mundo virtual comunicando com um mundo mudo e mouco alegando não se estar como já se se encontra: hermeticamente sós e refugiados no isolamento do mundo acenando àqueles que por nela passam .
Sobre o mar-da-palha, pelas vidraças do que do Estúdio 19 se deixa alcançar, uma bola cor-de-fogo vi nascer com tal esplendor que não tardei a chamar a atenção do meu interlocutor, que, no ar, conjugando palavras que se difundiam por este elemento, tal como as minhas ali reunidas num dueto conversado, se emolduravam pelas largas janelas diante o espectáculo visual que ali se punha ao som daquele que de além-atlântico nos chegava.
Nascia assim a Lua. Lucia, demente, esvaia-se em loucura por entre malabarismos vocais, escalas e gorjeios balbuciando os bei momenti que a lembrança à voz lhe trazia. A Lua crescia. Lucia, ante o seu termo, cadencia as suas últimas notas que a lucidez lhe permite pela medida do seu criador. Empalidecendo o mundo com seus raios ondulantes o finto astro níveo nocturno mostrou-se por fim soberano coroando-se com o aigú com que esta mortal de glória se encheu.
Lucia jaz louca. Silenciada descansa na mente dos que a escutaram, a doce e repousante tumba de afectos, sepultura de perpétua lembrança, até que o sipario se abra de novo e por entre aplausos a sua trágica história se venha a contar. A Lua, caprichosa da sua vaidade, só daqui por uns anos se voltará a mostrar como ontem aos olhos do mundo se deixou ver. Talhada pelo tempo que passa exibe-se ainda de esplendor pelo firmamento enfeitiçando aqueles que no seu brilho sucumbem.
Quiz gritar mas faltou-lhe a voz para chegar tão longe. Não era de grito a distância mas surdo mostrou-se -lhe o caminho. Imóvel permaneceu. Contado o pulsar que lhe percorria a cabeça e que lhe levava o coração a tão alto sítio, como se dele fosse explodir vaporizando-se pelo espaço sem nele deixar nódoa, deixou-se estar. Pestanejou. As conversas mudas eram também surdas e sem graça tudo lhe sorria de enfado exclamando: é a vida! Em silêncio falou com os seus mudos dedos... por fim exclamou: ó rapaz!... sem delongas, o mundo falou-lhe rompendo-lhe a surdez das suas moucas orelhas: são 7 €! Ainda olhou a tv, mas esta não lhe deu "cavaco". Levantou-se e saiu à rua. Andando achou-se em discussões existências com uma alheira que lhe deu conversa a tarde inteira.
Eram cabeçudos e carros galhardos; confetis e serpentinas; bolas de serradura voando e pistolas de água esguichando; homens enfeitando-se de mulheres ou mulheres que não sabem o que são fingindo animais ou incertas certezas; crianças mal-trajadas de princesas ou heróis de seda roscof. Gela agora o frio. Terminam as danças e desfazem-se as rodas; os velhos recolhem-se e riem rapazes galgando as sombras. Desertas as ruas fecham-se janelas e apagam-se luzes diante o silêncio da meia-noite de um já esquecido Entrudo. Em graça e triunfo, até que o alvor transpareça, desfila ainda Rei Momo pelos ares exclamando:
Arraial, Arraial, Arrail ao novo Senhor de Portugal! .
Armida, ultrajada, traída pelo seu dileto amante, irada, esbaforindo encómios entre gritos dilacerados pela dor do abandono, entre uivos e maldições, voa no seu carro alado de dragões fumegantes, prenúncio de maior desgraça, a ecológica, metamorfose do errar humano, das verborreias que nos nossos luzentes dias encobrem e enublam de negro o mundo de enganos e confusões. Se a sua arte, a pagã magia que a Circe ou Medeia fez fama, não lhe foi forte, que dizer do rol de expectativas apregoadas na verdade catolicizada pelas classes que governam e submetem e vergam a alegria à dura cruz das leis escravizadas pelo poder e cobiça do argent e da mania em querer, diz-se mandar... onde não há ouro ou prata há alquimistas, fazedores, sombras de má indole, parasitas e traidores e ainda portadores de desgraças suavizadas por tormentos: aquelas que se agarram, dilaceram e destroem.
O tempo passa sem se fazer notar. Sem um qualquer consentimento, um may i come in, avança-nos irreflectidamente para o "tempo" fechando-nos ao mundo e aos sonhos que para trás ficam sem tempo de convívio existido. Desapossando-nos, talhando-nos ei-lo levando a doçura da nossa já existência. Ei-lo arrefecendo-nos os mais sentidos momentos, glórias e conquistas. Ei-lo amarelecendo-nos as lembranças guardadas no pensamento... É condição do nosso contrato vitae. É condição sine qua non existencial: caminhar, trilhar este caminho empurrado andando em frente para um futuro despojado e enegrecido por interrogações até que o seu termo nos envolva, nos guarde e nos proteja de tanta falta de graça.