Fica aqui a nota que fui e que ouvi em presença este momento histórico de cultura portuguesa. Fui com grande expectativa que fui e vim de lá cheio com a beleza desta ópera de Alfredo Keil. Recomenda-se! Vá, caro leitor, é mesmo imperdível já que nesta forma portuguesa de ser só daqui por uns 100 anos voltará a ser reposta. Repete dia 1, 3 e 5 de Outubro.
Comparar dois amantes separados por uma razão que não seja o amor e que não definhem mutuamente no termo da sua história como os jovens amantes de Verona é como dar a estes dois infelizes imortais uma alternativa desinteressante em desmazelo do terrífico encanto que originalmente encerram. É como dizer que encarnado não é o mesmo que vermelho, é como entrar na FNAC e dar "puns" como se não houvesse amanhã esperando que cheire a rosas ou então como fazer redundantemente sexo anal esperando desse acto gerar uma longa prole. Enfim, a natureza das coisas não dá para mudar mesmo quando a sociedade evolui. Não está nem nunca esteve nas nossas mãos.
Maria Callas morreu por amor e isso não a tornou numa Julieta como muitos gostariam, afinal foi apenas uma mulher rejeitada. Porém, a minha avó materna no dia em que o seu amado esposo partiu, uma vez que estavam separados pela doença, deixou-se envenenar pelo desgosto até sucumbir na expectativa do reencontro nesses lugares do além. A história é tristemente bonita mas sem a juventude dos protagonistas como poderá ela inscrever-se no panteão dos amantes de beleza eterna?
Por isso, caro leitor, não sou partidário das comparações já que elas reduzem e empobrecem a riqueza de uma história banalizando-a só pela vaidade da imortalidade ou da fama. Romance ou vida real, Branca e Ben-Afan assim como Pedro e Inês são meros amantes separados por causas que não o amor e não ascendem nunca a esse paraíso, tal como a neo-fabulação dos amantes de Verona sobe égide americana não atinge a perfeição uma vez que Maria segue a sua vida e dela mais nada sabemos. Em súmula, chamemos os bois pelos nomes e não por afinidades! .
Logo à noite D. Branca esmiuçada musicalmente em São Carlos!
Há quem acredite ainda em contos infantis e histórias de um tal viandante lendário vestido de encarnado. A realidade é sempre uma história de saloios ingénuos e saloios aldrabões tentando manter a ordem.
Em 1661 Catarina de Bragança partia para as ilhas britânicas onde iria desposar-se presencialmente numa cerimónia privada sob o rito católico com Carlos II de Inglaterra antes da oficialização matrimonial com pompa e circunstância sob a égide anglicana. No regaço da sua saia levou Bombaim, o chá, a marmelada, a faiança, os talheres - entre outros tantos assuntos que fazem as glórias da terra dos royais ingleses -, e uma capella de músicos portugueses que executavam no âmbito da sua corte composições de maestros portugueses e católicos no acompanhamento musical dos rituais religiosos e dos seus espartanos entretenimentos mundanos.
Stabat Mater dolorosa... e o público também assistindo dolorosamente ao Coro do Teatro Nacional de São Carlos executando com muito pouco nível a duas mignardises verdianas. Pior do que falência vocal evidente, misericordiosamente compreensível pelo avançado estado de desgaste de muitas das vozes sem renovação, expostas anos a fio à dureza multiplicidade de repertórios, o hedonismo e a má prestação individual na contribuição do todo e do belo imperava transformando esses minutos num largo desconcerto. Definitivamente, uma vez que já ouvi este corpo coral,com estas mesmas pessoas num registo de excelência, lamentavelmente este Coro desceu a um nível abaixo da mediocridade e do aceitável ainda que com bons profissionais empenhados na preparação do seu trabalho. Te Deum laudamus... pela chegada ao final da primeira parte do concerto sem surpresas no desempenho vocal do Coro, salvando-se a prestação da Orquestra.
Após o intervalo, Martin André, poupando o público e a Sr. Ministra ali presentes ao enfado, sem complacências, dirigindo Tchaikovsky mostrou-se agora impiedoso no seu gesto e com pulso férreo em 40 minutos bem suados cativou no público grande emoção e uma rara ovação que fez esquecer o que de menos bom nesta noite se fez ouvir.
No tempo que o Escudo era dinheiro e os Contos eram a alegria e a felicidade de muitas carteiras, no princípio dos idos anos 80 do século passado, o meu saudoso avô, que era entre muitas coisas negociante de vinhos, recebia na sua adega compradores de vinho. Clientes certos ou sugeridos por afinidade de relações vinham de diversos pontos da região, da Costa de Lisboa e da Costa de Prata - usando termos da época -, já que de Leiria a Lisboa ou da Sarvinhos aos Vinhos de Colares tinha diversas relações comerciais. Dependendo do volume do negócio ou da simpatia o meu avô oferecia um petisco aos seus compradores: chouriços de sangue assados em aguardente vinica, provenientes da sua indústria de salsicharia e da sua caldeira de destilação.
Um dia recebeu um certo comprador que se fazia acompanhar de uma certa pasta preta (uma pasta de fecho eclair idêntica a tantas outras como uma que o meu avô tinha e que era exactamente igual). Cheios os garrafões de 5 litros e paga a compra achava-se a hora de sobre os tonéis da adega deitaram-se chouriços a arder num prato de loiça até ao point de tal se tornar a esperada apetecível iguaria. Manjar de adegas celebrando negócios, caro leitor, com copos de vinho a acompanhar enchendo-se repetidamente levando todos a um certa boa disposição que o meu avô gostava de cultivar, cativando assim os seus clientes e assegurando o seu regresso daí a meses. Exposto todo ritual, voltemos a concentrarmo-nos no tal comprador: enlevado com os copos e distraído com o carregamento dos seus múltiplos garrafões, despediu-se e deixou sobre um dos tonéis a tal pasta preta, e tal como a deixou assim ficou.
O tempo passou e cerca de um ano depois regressou à nossa casa o tal homem. Com grande trato mostrando grande aflição e cuidado, sem grandes revelações, perguntou se se lembravam dele pois tinha estado na adega há cerca de um ano a comprar vinho. Respostas afirmativas, perguntou se tinham achado uma pasta preta fazendo a sua descrição. O meu avô, sem nunca se ter apercebido deste acontecimento, disse-lhe que não, que efectivamente nunca ali tinha visto nada. Sem insistências, resignado e certo da sua perca o homem despediu-se cortesmente. Nesta altura passou no quintal o meu pai que lhe perguntou:
Pai: O que queria este homem?
Avô: Veio aqui perguntar se tinhamos encontrado uma pasta preta que diz que deixou na adega pr'aí há um ano.
Pai: Uma pasta?! Nunca lá vi nada, só mesmo a pasta do pai que tem estado sempre lá!
Avô (sem hesitações): Vai lá buscá-la!
Pai (já regressado): Tome!
Avô (pegando na pasta): Esta não é a minha pasta!!!... Corre à rua depressa, e chama-me o homem!
Bem ordenado, bem feito. Chegado à rua o meu pai faz alto ao homem que no seu carro já a trabalhar se preparava para arrancar. Uma vez no quintal:
Avô: Temos aqui a sua pasta. Se não fosse o meu filho nem sabia que aí estava!
Homem (rejubilando): Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo... Não sei como lhes agradecer. Há um ano que desesperadamente a procurava sem sucesso. Não imagina o alívio que é encontra-la, procurei-a por todo lado e já a dava como perdida (abrindo-a) pois nela tenho guardados 200 Contos!
A viagem de Bento XVI ao Reino-Unido e toda a onda de crescente indignação, contestação e protesto mundial que fomenta a grave crise que Igreja actualmente vive em conjunto com recta e destemida postura de Ratzinger, face ameaças terroristas e outros perigos de grandeza, sugere cada vez mais a lembrança das palavras do já revelado e interpretado Terceiro Segredo de Fátima, a tal mensagem deixada pela Virgem a três crianças de compreensão limitada, naquela passagem que diz o seguinte:
"/.../ um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros ..."
No mundo há várias estirpes de homens. Há aqueles que quando se levantam bebem logo vinho para matar o bicho; há aqueles que quando se levantam bebem leite, chá ou café; há aqueles que quando se levantam simplesmente bebem água; e há aqueles que se levantam porque acordaram mal-dispostos à conta de tarteletes comidas pela noite dentro!
Não devia ter mais de 12 ou 13 anos quando ouvi falar pela primeira vez da Callas durante a exbição na RTP da série Onassis: The Richest Man in the World (para quem não se lembra Raúl Julia era Onasiss e Jane Seymour Callas).
Na época, enquanto criança ávida e curiosa, assisti à sequela na íntegra e de entre os muitos excertos que recordo o que mais me causou impacto foi o da ida à ópera. Athina e Onassis, em Paris, assistem a uma das miticas récitas da Medea da Callas, que se vê assim introduzida na série. A mana, que tal como eu assistia religiosamente a este programa, já sabedora de algumas coisas, reconhecendo de quem se tratava, exclamou: é a Maria Callas!!!
Onassis: The Richest Man in the World
Anos depois, com Las 3 Divas, ganhei o meu primeiro disco no qual figurava a Callas. Cativado, deixando-me seduzir e envolver por esse encantamento fui descobrindo o poder do som que essa portentosa voz emitia. La Sonnambula de Bellini, do Grosses Haus di Colonia em 1957, comprada na desaparecida Strauss do Saldanha, foi a primeira ópera completa deste soprano que adquiri e que hoje se vê acompanhada por uma acumulada e variada colecção dos seus registos de árias, concertos e óperas.
Em 2005, peregrinei por alguns dos locais míticos das suas apresentações e depois de uma visita ao Scala, deambulando por Milão, encontrei num alfarrabista um eco histórico dos seus espectáculos nesta cidade: um programa de sala de Lucia di Lammermmoor e um outro de Medea, ambos da estação lírica de 1953-54.
Termino o dia escrevendo este post procurando o conforto na audição de um dos seus discos, Andrea Chenier (Scala, 1955 com Mario del Monaco e Aldo Protti), que escolhido ao acaso agora vou ouvindo assinalando esta memória que me é tão cara. . .
Annina: Como está ela, doutor? Dottore: A tisica não lhe dará mais que umas horas!
La Traviata, III acto
G. Verdi/Francesco Maria Piave
Com pompa e circunstância anunciou-se hoje em São Carlos, em conferência de imprensa, a nova temporada lírica nacional num momento presidido pelo actual Director do Teatro, o maestro Martin André, ajudado pela presença da Ministra da Cultura, a conhecida pianista Sr. Gabriela Canavilhas, e pelos Prf.. Jorge Salavisa e o Sr. César Viana, representantes da administração da OPART, e uma mão cheia de curiosos e insdiscretos que a quiseram escutar. Assegura-se assim que Lisboa, não obstante o caos financeiro lançado pelo Sr. Damman, não será privada de uma temporada de ópera. Afinal, de esperanças no ar e cheio de novidades, revitalizado, o teatro de ópera ainda vive na sua sobrevivência. .
Descortinando o cozinhado do novo director entre ajudas, mais valias e conselhos de antigos e esquecidos recursos, conseguiu-se o milagre da multiplicação das produções a apresentar sem que isso signifique uma gorda temporada. Aliás, e sem ilusões, será magra, light e sem sal desprovida de stars pecando pelos experimentalismos que nela se irão realizar com a presença de cantores, encenadores e compositores portugueses em grande número sem que isso signifique brilhantismo e que será sobretudo sinónimo de imaturidade, inconsciência e hedonismo. É necessário observar, caro leitor, que a ópera enquanto teatro e espectáculo não tem os mesmos timings do teatro declamado, do musical, da revista do parque mayer e muito menos dessas perfomances que por aí se vendem e se comem como espectáculos de luxo à conta do barulho das luzes; e que o público pagante não se pode compadecer de favoritismos e facilitismos. Antes pouco e inesquecível, com o melhor dos dois mundos, do que muito e sem graça... Assim, à esboçada temporada do anterior director, que não assegurava mais do que 3 ou 4 óperas, de certo com a qualidade duvidosa que nos andava a brindar, aparecem agora 10. Serão elas:
Dona Brancado Keil (que vergonhosamente sofreu as maiores misérias quando do seu cancelamento. Factos coroados, como se sabe, por suspeitas difamações, processos jurídicos e motivos de afastamentos/despedimentos); . Cavalleria Rusticana, de P. Mascagni, em versão de concerto;
Hansel und Gretel de E. Humperdinck, assegurado pelo Estúdio de Ópera deste Teatro;
Gianni Schicchi de G. Puccini, no formato de ópera encenada e em versão de concerto comentado, pela conhecida apresentadora de programas de televisão a Sr. Barbara Guimarães;
Blue Monday de G. Gershiwn, a partilhar a mesma noite de Gianni Schicchi;
Banksters de Nuno Côrte-Real, com libreto de Vasco Graça Moura, em estreia mundial;
Il Capello di paglia di Firenze de Nino Rota, o conhecido autor das bandas sonoras de L.Visconti e F. Fellini;
Carmen de G. Bizet.
Será de salientar: o regresso de uma ópera de Alfredo Keil, Giacomo Puccini e de Leos Janacek há muito ausentes e carentes de audição; e a presença de Marco Vinco, Carlos Guilherme, José Fardilha e de Jorge Vaz de Carvalho como os melhores valores vocais a serem apresentados.
Nos concertos sinfónicos e corais sinfónicos, melhor estruturados, os grandes ausentes são os compositores portugueses de maior valor que continuam votados à discriminação. Onde ouvir Vianna da Motta, Freitas Branco, Frederico de Freitas ou Jolly Braga Santos? Só mesmo na Fnac, ao adquirir um disco de uma qualquer gravação datada e ausente da melhor qualidade.
O concerto inaugural, que decorrerá como festa de gala, será já no próximo dia 25 de Setembro com início marcado ás 19h30m e com acontecimentos musicais alargados às arcadas, à varanda e ao salão nobre do teatro precedendo o único momento verdiano de toda a temporada.
O Rigoletto, caro leitor, é daquelas óperas que qualquer pessoa se não for do outro mundo, portanto desconhecedora da cultura deste planeta, que se diz que não conhece ou ignora engana-se. Engana-se de certo pois La Donna é Mobile é uma das melodias mais conhecidas em todo mundo. Uma pérola, uma imagem sonora de marca da cultura musical sobretudo por aquela designada por ópera.
Desde hoje que estamos a ser brindados na RTP2, em transmissões cedidas pela RAI para 148 países, com um raro momento cultural de grande nível. Quem soube, pode hoje assistir às 19:30 à transmissão directa e ao vivo do Rigoletto de Verdi a partir de Mântua,cantado e representado cenários naturais históricos como algumas das salas do Palácio dos Gonzaga, ruas e outros locais ainda a ver, isto porque a transmissão é descontinuada, ou seja para realçar a acção o seguimento cronológico dos factos nos seus diferentes horários faz com esta concretização se passe na hora do dia de acordo com cada cena. Assim, o decurso de um dia e meio do tempo de toda a acção é descrito pelo crepúsculo e noite correspondentes ao I e II acto (hoje transmitidos nesse horário - 19:30); o principio da tarde amanhã no palácio ducal correspondente ao III acto, no Domingo, às 13h; e a noite na taberna e junto ao rio correspondentes ao IV acto, no Domingo, às 22:30.
Estas transmissões, criando interactividade espaço-temporal, contam no elenco com Placido Domingo no papel de Rigoletto, que agora no final da sua carreira e pela sua importância dá-se ao luxo de interpretações, com excelência, dos grandes papeis baritonais, somando com Simão Boccanegra a segunda incursão neste âmbito.
Resta salientar, as interpretações brilhantes, dirigidas pelo maestro Zubin Metha, do soprano Julia Novikova no papel de Gilda; do tenor Vittorio Grigolo no papel do Duque de Mantua; e de Gianfranco Montresor em Monterone - que aliás já se apresentou em São Carlos no papel de Leporello na estreia mundial de Il Dissoluto Assolto de Corghi/Saramago.
Amanhã, Domingo, ás 13h e às 22h30, já que vergonhosamente nenhum meio de informação on-line, ping your blog, não noticiam este acontecimento.
N.B. - A famosa ária La Donna é mobile canta-se pouco depois das 22h30m. Bem sei que não é futebol, o hino do Benfica ou a Maria José Valério, caro leitor, mas ao menos por esta ária vale a pena.
Pois bem caro leitor o prometido é devido e venho completar a narração da Virgem do Vale de Moirol. Desengane-se porém se me crê ir directo ao assunto propriamente dito uma vez que a Senhora da Saúde tem mais que contar em honra da força da devoção mantida pelas esquecidas gentes de Santa Iria veladas pela sombra do padrão que à beira-rio se ergue.
Como permuta, caro leitor, nesta deambulação, sob a inspiração da minha mais elevada eloquência, narrar-lhe-ei um miraculoso episódio que às bíblicas existências faz inveja. O Divino sempre foi muito generoso a este eterno chão fecundo de saloíce, crescente fértil de maravilhoso, das suas intersecções directas ou das fantasias que o seu fragoroso espírito foi inspirando nas peregrinas meninges como bem-aventuranças caídas dos altos dos céus. Um país encantado de factos inimagináveis desde os tempos de perder a memória até aos prodígios da Cova da Iria ou seja das trevas e da ignorância à aurora da iliteracia.
Antes demais, atente o meu caro leitor que nestas épocas antigas e remotas o caudal do rio seria muito mais largo e os campos circundantes pântanos e locais de maleitas, parcamente cultivados e evitados pelas gentes. Serão precisos alguns séculos até que Almeida Garret, num Vapor a caminho de Santarém, testemunhe com as palavras dos Ílhavos as mudanças operadas a pouco e pouco. Agora neste deserto, antro sem lei, de pragas e sortes naturais ou foragidas ou de outras surpresas aí escondidas, em canaviais onde daria para refundir a Lisboa inteira de hoje sem que as suas empenas mais altas se destaquem das copas da preponderante flora, não entra um homem-bom para pescar um Sável ou uma destemida lavadeira a ir lavar cueiros às praias do Tejo. É um mundo onde ninguém de bons princípios se passeia, excepto as excêntricas e nobres damas a irem banhar-se nuas ao rio, já que as vilãs por semelhante comportamento, numa rasgo de modernidade, ganhariam fama de putas, mesmo que de todas elas se façam e contem histórias de semi-divindades, sereias e mouras encantadas avistadas por negros olhares de machos delirantes acompanhados pela musicalidade de repetidos gestos manuais esganando ao corpo solitária luxúria.
Na borda-d'água somente as finas areias arrastadas pelas correntes criam a imagem do idílico. Mantos de oiro queimados pelo sol dando contornos a espaços e ilhas bordejadas por recantos e sombras oferecidas por verdes Salgueiros e viçosos Chorões. Locais que Camões cantou e decretou como paraísos debochados com a nostalgia de lembranças promiscuas de Constância e da solidão da ilhota de Almourol, onde só os mancebitos arvorados em homens se deslocavam brincando de Duardos e Flerida, certos de nenhuma maldade nem censura lá haver. Demências proibidas escritas para o mui conforto que lhe coube na sua cega velhice, quando acompanhava na margem oposta do rio, na banda de Almeirim, mesmo em frente à urbe Scalabitana, D. Sebastião com seus cavaleiros e moços despidos em pelota correndo a banhos pelas praias do Tejo ao som da leitura da insigne lusíada lição lida incessantemente. Episódio de luxúria, amores, ninfas e marinheiros arrebatados capazes de na sua ingénua agressividade quinhentista de lhes estimular nevrites nos seus juvenis membros florescentes que procuram tornas à normalidade pela consolação e alivio em sensações físicas afundadas em locais tão recônditos como aquele em que se esconde a cauda da adormecida Kundalini.
De facto, caro leitor, as margens do rio escondem em todas as épocas segredos e histórias, lendas e mitos que mais devem à loucura da "hora dos mágicos cansaços" que a outras inspirações já que afastadas estão estas paragens da seriedade dos coutos de Alcobaça onde o alagadiço se foi tornando firme e o chão da dita nação, sem promiscuidades, honradamente sustentável.
Posta Iria agora em sossego, nas inquietas águas do rio, e Ábidis, em local incerto, no longo sono de um votado esquecimento da sua memória; ocorrida a história de um beatíssimo milagre e a macabra relação entre Frei Gil e uma infernal entidade eis que certa rainha de Portugal, princesa de Aragão (mulher estrábica, pouco atraente e traída por defeito; fanática, beata e caridosa por feitio; maga feroz convincente de verdades alternativas por herança genética), desceu com sua corte a estas praias num dia Verão como este, não para se banhar com as suas aias, quisesse assim antes o seu real esposo, mas meramente pela curiosidade dos segredos aí escondidos. .
(c) Santos & Santinhos
Permita-me agora, caro leitor, fazer um preâmbulo e dar-lhe noticias sobre um facto cabal da nossa história colectiva ainda por resolver, certo que esta sereníssima senhora, sapiente até de segredos que em Alexandria se queimaram, na sua época sabia com real discernimento a resolução prática do mistério que hoje assim se crê, concorrendo com todos os que por ele perfilaram como cegos errantes. De facto, interrogada sobre a localização da Batalha de Ourique, sem pressões politicas ou fascistas, falsas modestias ou indícios de grandeza, afirmaria assertivamente com a maior naturalidade, apontando com o seu indicador direito: "ali nos vales do Cartacho! Onde mais poderia ser? Eu própria paguei com farta esmola da minha casa uma capela que mandei fazer por Berengária assinalando a beatíssima visão que o Sr. D. Afonso teve ali para os lados da muy antyga Vall da Pinta..." e assim por adiante, uma vez que tudo por lá ainda assim permanece.
Sem mais rodeios, no dia designado para o efeito, Filipe de Espanha, entregou em mão ao Papa de então a sua encomendada Monarchia Lusitana de forjadas e pretensas verdades, acompanhando-a de um pesado tributo para assegurar o bom sucesso da leitura, esperando nela elevar esta Isabel de Portugal, princesa de Aragão, ao pátio das santas da cristandade. E o que fez ela para merecer isso? Ora vejamos:
Num certo dia estando toda a Corte em Santarém, ei-la abandonando a Alcáçova do "Conquistador" saindo da urbe pela porta de Leiria, encaminhando-se à beira rio na sua intocável soberania. Rodeados pela populaça eis que vão El-rei, a Rainha, Infantes e Bastardos, Berengária Aires, Freiras Bernardas de Almoster, Clérigos de Santarém, Cortesãos e Cortesãs perfilando a cavalo de burrinhas colina abaixo, todas vindas de uma qualquer herdade de Alter a expensas de El-rei. Inquieto, sua majestade dirige a Isabel algumas palavras:
El -rei:Rainha, afinal para onde nos leva? Rainha:A ver um prodígio! - respondeu-lhe. El-rei:Com que me quer impressionar desta vez? Mais rosas... Senhora? Rainha:(olhando a bastardia) Saiba o meu régio esposo, que será a uma alegria consoladora a este jardim, malgre as silvas de espinhos a que está votado... El-rei:(De sobrolho arrebitado, olhando o ralo mustage feminino de Isabel com real ironia, altivez e porte) Rainha, não fosse sua senhoria um imperial oceano de abrolhos sem fim e a sua caridade teria sido outra... Rainha:Menos, Senhor meu esposo, menos...
Interrompidos pela chegada ao local, a rainha mancando apoiada na sua tau apressa-se seguida pela corte por um trilho já seu conhecido percorrendo o canavial pantanoso até chegar por fim às doiradas areias do Tejo. O Sol no firmamento, como que obedecendo a esta feminina vontade, coroa esta lição milagreira espraiando-se bem lá no alto. Isabel silenciando os escárnios e ironias maldizentes, a todos faz ajoelhar e rezar a Santa Iria. (Santa Iria? Só nos faltava esta. Quem a teria lembrado de uma coisa destas? Assim pensou em coro a Corte e as gentes do Santíssimo Milagre que ocupava de sobremaneira as devoções da urbezinha altaneira, sendo tão bem mais cómodo ajoelhar na sua igrejinha...). Isabel, determinada e com incisão, certa do seus actos, em posses de Pio XII, levanta-se e abrindo os braços aos céus faz gerar turbulência nas águas. Pasmada toda a corte portuguesa e os populares Scalabitanos, mesmo sem a cobertura dos media, laureada pela sageza dos comentários do ilustre professor da TVI, assistem com admiração. Repicam os sinos a hora sexta em estrondosas Ave-Marias. Isabel olha o relogio da torre mais alta e sem se dispersar, com furia concentrada, imitando Charlton Heston, bate com a sua tau nas águas separando-as miraculosamente permitindo a todos adivinhar no meio do leito do rio um sumptuoso túmulo de mármores cinematográficas derrubado dos céus e guardado por amedrontados anjos que se apressam a desaparecer dali.
A pé enxuto apenas uma certa elite se aproxima da alva urna prostrando-se sobre ela em vénias e incensadas orações.
Posto isto, El-rei, uma vez mais admirado pelas estranhas capacidades da sua mulher, ordena subitamente a uns desinteressados pedreiros, que por acaso ali vão a passar, que ergam de imediato um malho de pedra antes que as águas voltem ao lugar. Assim foi, e foi tudo como quis El-rei Dom Diniz!
Lá do alto, a Divindade, o Deus dos Hebreus, tudo observou com um sorriso entre-dentes! Suspirando aliviado, purgado dos tormentos que lhe pesavam sobre a virgenzinha do Nabão ali escondida por si nas águas do Tejo, constou que tudo era bom mas de pouco interesse... passou essa tarde, e sobreveio uma outra nova manhã!
.
(continua)
N.B. - Caro leitor, esta singular narrativa composta liricamente com a astúcia e a brilhante sageza do seu bravo autor é baseada em lendas, personagens , locais, nomes históricos, míticos e actuais é usada e combinada a belo prazer do seu autor, como livre expressão da sua vontade.
Conheceu de perto Junot e o "Maneta" Loison que a derrubaram do seu altar; ouviu as escaramuças do carbonário Ramada Curto gritando morras ao regime às portas da sua ermida; viu do alto do seu altar benzer-se o senhor Presidente do Conselho; viu e ouviu de centenas de populares e anónimos impopulares rosários de Avé-Marias, preces, rogos, súplicas deixadas em pé ou de joelhos com uma lágrima transbordando numa intenção cheia de esperança e de fé.
Hoje é o dia da Padroeira do blogue ou seja o dia em que a graciosa Senhora da Graça, uma Virgem do Leite, em cima do seu florido andor percorreu a sua aldeia acompanhada por gerações da mesma gente numa vontade que parece estar longe de ver em si extinta este sentimento comum de união fraterna na Senhora que os une... é sempre bom crer. Um bom remédio quando no mundo aparentemente nada vale a pena a alguém.
É Verão, sim de facto... e as festas abundam por aí! Festas tão antigas que se perdem na memória. Festas cada vez mais exigentes carregadas de populares, petiscos, procissões, foguetes, bandas de musicas, artistas e a Rosinha! Sim, a Rosinha.
A Rosinha, caro leitor, é a nova coqueluche da brejeirice nacional. A emancipação do trocadilho de cariz sexual no seu género cançonetista, que agora, sem bigodes ou postiços, ganha contornos no feminino sem a robustez de uma penugem mediterrânica que melhor suporte de dignidade dariam ao conjunto, face a quantidade de pérolas barrocas diluvianamente largadas por esta distinta menina de esmerada educação.
Assim à pornochachada estival das marcas promotoras de mini cerveja (quando cerveja é sinónimo de excelência da virilidade de uma grande caneca como crisma de qualquer homem certo das suas convicções)materializa-se agora este miraculoso sex symbol andante capaz de fazer arrebatar aquele assobio apaneleirado a um pneu de um camião. Bebe-se, vê-se e crê-se! Rosinha, a nova "Virgem" milagreira!
Rosinha lá vai! De ar urbano assaloiado, porte sensual, com uma musette às costas e de óculos escuros, clichés mais que vistos no género musical (Eugénia Lima e Stevie Wonder, está claro, ou será Quim Barreiros e Pedro Abrunhosa), mostra-se assim disponível e para as curvas - aquelas que lhe levarão a muitos palcos e lhe darão muito dinheiro, explorado à conta de facilitismos verbais.
Por fim, como uma jovem civilizada e bem estudada, propósitos tão caros às modernas raparigas portuguesas, como a algumas experimentadas nos cursos nocturnos do INP (por exemplo, de guia turística de locais recônditos) nesta cantarolada oralidade compete na erudição, lá tão bem aprendida, com as poetizas nacionais em palavras de grande profundidade, emprestadas aos seus melhores temas. Ora, analizemos:
Eu chupo, eu chupo
E vou rodando para ele não pingar
Eu chupo, eu chupo
E no fim fico com o pau a brincar
ou
Eu levo no pacote
Eu levo sim senhor
Eu levo no pacote
Tem outro sabor
Eu levo no pacote
Eu levo sim senhor
Eu levo no pacote
P'ra gosto do meu amor!
Por meros momentos que sejam, efémeros mesmo, este sol e dó de arremessos fáceis um homem desprevenido esboça um sorriso purgatório e atira para atrás das costas a má disposição habitual, já que com tanta desgraça junta este verão não seria verão sem a Rosinha e as suas engraçadas bailarinas. O povo gosta, nós aceitamos!
Ei-la desfilando, cantando e dançando com a mini-saia esvoaçante inspirando às gentes ditos populares:
Rosa,
Rosinha,
Roseta... ai!!!... o bálsamo para todos os homens de todas as idades pós-puberdade.
Veremos entretanto como se safa esta cigarra no Inverno e como chega ao próximo Verão...
Por agora, e como o arraial é só na sexta-feira, enquanto nada acontece, ficareina Beatrice di Tenda sem que seja caso para dizer, como nunca será e como jamais será: volta Leyla Gencer, estás perdoada!