II EPISÓDIO
As curiosidades de uma rainha tida como santa.
Pois bem caro leitor o prometido é devido e venho completar a narração da Virgem do Vale de Moirol. Desengane-se porém se me crê ir directo ao assunto propriamente dito uma vez que a Senhora da Saúde tem mais que contar em honra da força da devoção mantida pelas esquecidas gentes de Santa Iria veladas pela sombra do padrão que à beira-rio se ergue.
Como permuta, caro leitor, nesta deambulação, sob a inspiração da minha mais elevada eloquência, narrar-lhe-ei um miraculoso episódio que às bíblicas existências faz inveja. O Divino sempre foi muito generoso a este eterno chão fecundo de saloíce, crescente fértil de maravilhoso, das suas intersecções directas ou das fantasias que o seu fragoroso espírito foi inspirando nas peregrinas meninges como bem-aventuranças caídas dos altos dos céus. Um país encantado de factos inimagináveis desde os tempos de perder a memória até aos prodígios da Cova da Iria ou seja das trevas e da ignorância à aurora da iliteracia.
Antes demais, atente o meu caro leitor que nestas épocas antigas e remotas o caudal do rio seria muito mais largo e os campos circundantes pântanos e locais de maleitas, parcamente cultivados e evitados pelas gentes. Serão precisos alguns séculos até que Almeida Garret, num Vapor a caminho de Santarém, testemunhe com as palavras dos Ílhavos as mudanças operadas a pouco e pouco. Agora neste deserto, antro sem lei, de pragas e sortes naturais ou foragidas ou de outras surpresas aí escondidas, em canaviais onde daria para refundir a Lisboa inteira de hoje sem que as suas empenas mais altas se destaquem das copas da preponderante flora, não entra um homem-bom para pescar um Sável ou uma destemida lavadeira a ir lavar cueiros às praias do Tejo. É um mundo onde ninguém de bons princípios se passeia, excepto as excêntricas e nobres damas a irem banhar-se nuas ao rio, já que as vilãs por semelhante comportamento, numa rasgo de modernidade, ganhariam fama de putas, mesmo que de todas elas se façam e contem histórias de semi-divindades, sereias e mouras encantadas avistadas por negros olhares de machos delirantes acompanhados pela musicalidade de repetidos gestos manuais esganando ao corpo solitária luxúria.
Na borda-d'água somente as finas areias arrastadas pelas correntes criam a imagem do idílico. Mantos de oiro queimados pelo sol dando contornos a espaços e ilhas bordejadas por recantos e sombras oferecidas por verdes Salgueiros e viçosos Chorões. Locais que Camões cantou e decretou como paraísos debochados com a nostalgia de lembranças promiscuas de Constância e da solidão da ilhota de Almourol, onde só os mancebitos arvorados em homens se deslocavam brincando de Duardos e Flerida, certos de nenhuma maldade nem censura lá haver. Demências proibidas escritas para o mui conforto que lhe coube na sua cega velhice, quando acompanhava na margem oposta do rio, na banda de Almeirim, mesmo em frente à urbe Scalabitana, D. Sebastião com seus cavaleiros e moços despidos em pelota correndo a banhos pelas praias do Tejo ao som da leitura da insigne lusíada lição lida incessantemente. Episódio de luxúria, amores, ninfas e marinheiros arrebatados capazes de na sua ingénua agressividade quinhentista de lhes estimular nevrites nos seus juvenis membros florescentes que procuram tornas à normalidade pela consolação e alivio em sensações físicas afundadas em locais tão recônditos como aquele em que se esconde a cauda da adormecida Kundalini.
Posta Iria agora em sossego, nas inquietas águas do rio, e Ábidis, em local incerto, no longo sono de um votado esquecimento da sua memória; ocorrida a história de um beatíssimo milagre e a macabra relação entre Frei Gil e uma infernal entidade eis que certa rainha de Portugal, princesa de Aragão (mulher estrábica, pouco atraente e traída por defeito; fanática, beata e caridosa por feitio; maga feroz convincente de verdades alternativas por herança genética), desceu com sua corte a estas praias num dia Verão como este, não para se banhar com as suas aias, quisesse assim antes o seu real esposo, mas meramente pela curiosidade dos segredos aí escondidos.
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Permita-me agora, caro leitor, fazer um preâmbulo e dar-lhe noticias sobre um facto cabal da nossa história colectiva ainda por resolver, certo que esta sereníssima senhora, sapiente até de segredos que em Alexandria se queimaram, na sua época sabia com real discernimento a resolução prática do mistério que hoje assim se crê, concorrendo com todos os que por ele perfilaram como cegos errantes. De facto, interrogada sobre a localização da Batalha de Ourique, sem pressões politicas ou fascistas, falsas modestias ou indícios de grandeza, afirmaria assertivamente com a maior naturalidade, apontando com o seu indicador direito: "ali nos vales do Cartacho! Onde mais poderia ser? Eu própria paguei com farta esmola da minha casa uma capela que mandei fazer por Berengária assinalando a beatíssima visão que o Sr. D. Afonso teve ali para os lados da muy antyga Vall da Pinta..." e assim por adiante, uma vez que tudo por lá ainda assim permanece.
Num certo dia estando toda a Corte em Santarém, ei-la abandonando a Alcáçova do "Conquistador" saindo da urbe pela porta de Leiria, encaminhando-se à beira rio na sua intocável soberania. Rodeados pela populaça eis que vão El-rei, a Rainha, Infantes e Bastardos, Berengária Aires, Freiras Bernardas de Almoster, Clérigos de Santarém, Cortesãos e Cortesãs perfilando a cavalo de burrinhas colina abaixo, todas vindas de uma qualquer herdade de Alter a expensas de El-rei. Inquieto, sua majestade dirige a Isabel algumas palavras:
El -rei: Rainha, afinal para onde nos leva?
Rainha: A ver um prodígio! - respondeu-lhe.
El-rei: Com que me quer impressionar desta vez? Mais rosas... Senhora?
Rainha: (olhando a bastardia) Saiba o meu régio esposo, que será a uma alegria consoladora a este jardim, malgre as silvas de espinhos a que está votado...
El-rei: (De sobrolho arrebitado, olhando o ralo mustage feminino de Isabel com real ironia, altivez e porte) Rainha, não fosse sua senhoria um imperial oceano de abrolhos sem fim e a sua caridade teria sido outra...
Rainha: Menos, Senhor meu esposo, menos...
Rainha: A ver um prodígio! - respondeu-lhe.
El-rei: Com que me quer impressionar desta vez? Mais rosas... Senhora?
Rainha: (olhando a bastardia) Saiba o meu régio esposo, que será a uma alegria consoladora a este jardim, malgre as silvas de espinhos a que está votado...
El-rei: (De sobrolho arrebitado, olhando o ralo mustage feminino de Isabel com real ironia, altivez e porte) Rainha, não fosse sua senhoria um imperial oceano de abrolhos sem fim e a sua caridade teria sido outra...
Rainha: Menos, Senhor meu esposo, menos...
Interrompidos pela chegada ao local, a rainha mancando apoiada na sua tau apressa-se seguida pela corte por um trilho já seu conhecido percorrendo o canavial pantanoso até chegar por fim às doiradas areias do Tejo. O Sol no firmamento, como que obedecendo a esta feminina vontade, coroa esta lição milagreira espraiando-se bem lá no alto. Isabel silenciando os escárnios e ironias maldizentes, a todos faz ajoelhar e rezar a Santa Iria. (Santa Iria? Só nos faltava esta. Quem a teria lembrado de uma coisa destas? Assim pensou em coro a Corte e as gentes do Santíssimo Milagre que ocupava de sobremaneira as devoções da urbezinha altaneira, sendo tão bem mais cómodo ajoelhar na sua igrejinha...). Isabel, determinada e com incisão, certa do seus actos, em posses de Pio XII, levanta-se e abrindo os braços aos céus faz gerar turbulência nas águas. Pasmada toda a corte portuguesa e os populares Scalabitanos, mesmo sem a cobertura dos media, laureada pela sageza dos comentários do ilustre professor da TVI, assistem com admiração. Repicam os sinos a hora sexta em estrondosas Ave-Marias. Isabel olha o relogio da torre mais alta e sem se dispersar, com furia concentrada, imitando Charlton Heston, bate com a sua tau nas águas separando-as miraculosamente permitindo a todos adivinhar no meio do leito do rio um sumptuoso túmulo de mármores cinematográficas derrubado dos céus e guardado por amedrontados anjos que se apressam a desaparecer dali.
Posto isto, El-rei, uma vez mais admirado pelas estranhas capacidades da sua mulher, ordena subitamente a uns desinteressados pedreiros, que por acaso ali vão a passar, que ergam de imediato um malho de pedra antes que as águas voltem ao lugar. Assim foi, e foi tudo como quis El-rei Dom Diniz!
Lá do alto, a Divindade, o Deus dos Hebreus, tudo observou com um sorriso entre-dentes! Suspirando aliviado, purgado dos tormentos que lhe pesavam sobre a virgenzinha do Nabão ali escondida por si nas águas do Tejo, constou que tudo era bom mas de pouco interesse... passou essa tarde, e sobreveio uma outra nova manhã!
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(continua)
N.B. - Caro leitor, esta singular narrativa composta liricamente com a astúcia e a brilhante sageza do seu bravo autor é baseada em lendas, personagens , locais, nomes históricos, míticos e actuais é usada e combinada a belo prazer do seu autor, como livre expressão da sua vontade.
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