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4 de março de 2010

AO LEANDRO EM SENTIDA HOMENAGEM (REVISTO E ACRESCENTADO)

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Um menino de 12 anos, o Leandro, exclamou:
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"Não apanho mais, vou atirar-me ao rio".
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Pobre criança desesperada!
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Hoje, com sentida consternação, assisti parcialmente aos debates e considerações que corriam pela TV. Bullying, diziam, ao considerarem agora com anglicismos o acto opressivo psicológico ou físico típico da crueldade das crianças, em idades ditas escolares, e que até hoje eram considerados às suas vítimas como distúrbios de adolescência - como é aqui o caso, exceptuando-se por agora aqueles que são conduzidos pelos professores ou outras entidades do universo escolar (que não alunos ou crianças similares segundo este contexto em universos paralelos às escolas).
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Errado.
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Já uma vez aqui esbocei um terrível acto que um amigo meu sofrera constantemente na primeira infância, ao ser inadvertidamente sexulamente molestado pelas auxiliares de educação da instituição religiosa que frequentou, incluíndo as agressões físicas que conhecera nos anos seguintes pelas educadoras no mesmo local.
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Hoje, sem temor e pudor, ao ler num jornal que o menino Leandro fora há cerca de 1 ano brutalmente pontapunteado pelos colegas, originando um internamento e cuidados especiais, do meu rosto correram lágrimas de compaixão e solidariedade pelo acontecimento específico e pelo infortúnio que a pobre criança sofrera.
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Lágrimas que transbordaram ainda pela compreensão do doloroso sofrimento que encontrei, e que me fizeram lembrar uma não mais feliz vivência pessoal, identica à deste pobre desventurado. Se sobrevivi, como tantos outros, à agora designação de Bullying, hoje revejo nas minhas misérias, incapacidades sociais e profissionais as consequências desse sofrimento. Assim, este acto só veio assegurar que a sua vida e o seu futuro, ainda que em paz e sossego, não seríam à sombra de tais atrocidades e espectros forjados pela infelicidade. E sim, caro leitor, na próxima sessão de psicoterapia, será assunto a discorrer sobre o divã.
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Reverencío assim, neste pesar, a solução desesperada e acto heróico que o menino Leandro achou ser o melhor para si. Afinal o seu suícidio foi um acto manipulado, e, de grosso modo, mas com real pragmatismo, um homicídio social conduzido pela estrutura em que convivia.
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Por fim, se há Deus... Um Deus capaz de tal, deixando um semelhante, um malogrado petiz desprotegido e ao abandono, de certo creio que agora estará abraçando Leandro, se é que lhe tem amor, absolvendo-o do que não teve culpa, fazendo-o gozar dos prazeres celestiais no paraíso.
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Ainda há pouco, num local de convívio social ouvi ecoar a seguinte máxima:

Deus, quando fecha uma porta abre uma janela...

(nem de propósito, pensei eu!)
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Ao que alguém acrescentou, em conclusão resignada, em sentido de palavras bem pensadas, quase seguras de terem saído de um qualquer ambão católico, cheirando a bafiento sermão de púlpito:
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Deus nunca nos daría nada que não suportassemos...
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É caso para dizer: cada tiro cada melro, num rosário de pérolas da maior preciosidade a rolar de boca em boca, como se isso fosse certo. Redundante e paradoxalmente falacioso, assim se assemelha. E posto isto, dado tal importante expressão, levando-a ao triste caso do menino Leandro, acuso o seguinte: Deus, deu-lhe algo insuportável e como saída à porta fechada, por o amar desmedidamente, abriu-lhe uma janela... o caminho para a ponte (como termo desta abordagem, remeto agora para o assunto do post de ontem).
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Pois bem, neste momento, ainda sentimos Leandro desvairado correndo para a ponte. Dos seus olhos correm lágrimas que marcam o seu caminho, ligando a terra ao rio no adivinhado triste desfecho já sentenciado pelas suas marcantes e derradeiras palavras.
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Leandro corre!
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Leandro, desesperado, acaso ou não, lembra-se ainda que existe um Deus. Sem infantilidade clama por ele conscientemente até ao mais profundo canto do seu subconsciente, bradando numa palavra ou pensamento: salva-me!
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Salva-me! Uma exclamação muda e inflamada de ultima esperança, que é esperança mesmo naqueles que incrédulos caminham para o patíbulo seguros da morte certa. Portanto, um nada, pois já nada do que é terreno lhe pode valer nem acorrer, mesmo a mão ou grito que vai na sua esteira. A convulsão de Leandro já nada o faz ver ou ouvir. Transfigurado, já não está cá! Já partiu!
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Partiu quando confinou as suas ultimas palavras. E nesse seu gesto, sem pensamento, mas com uma enorme certeza no auge da sua angustia, este pobre menino que ainda vive, aspira apenas em ser rico. Rico em tranquilidade e paz interior.
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Despido de preconceitos entrega-se ao abismo ciente de que lá não haverá sofrimento, devolvendo aos céus a carga que não pode suportar, entregando o sofrimento que não foi feito para ele, aquele que lhe pesou fardamente nos seus ínfimos 12 anos, tão desprotegidos. Oxalá, o teu mundo te tivesse dado tréguas e sido mais benovolente enquanto teve a opurtunidade de ter tido nele.
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Uma vez mais, querido Leandro, é com admiração e com patético sentimento que escrevo estas palavras. Na compreensão da tua dor, enquanto vida, e no teu acto fatal, ficarei expectante que ao menos o mundo que te condenou possa aprender algo com isso.


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Ripose in peace,
onde quer que estejas.
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