Há 10 anos atrás, nos tempos das brilhantes e caras temporadas do não saudoso Dr. Paulo Ferreira de Castro (um brilhante e vaidoso musicólogo, mestre e autoridade em assuntos musicais portugueses), douravam destacadamente o firmamento São Carlino , de entre todo o restante elenco, as argentes e esplendorosas vozes de Alexandrina Pendatchanska,Barbara Fritoli, Elisabete Matos e Ana Ferraz. Cantava-se o D. Giovanni de Mozart, vulgo D. Juan ou D. João.
Hoje, depois das intempéries por quem passado o teatro de ópera português, com o calor e o bom tempo que nos acarinham nestes dias, as nuvens negras tornaram-se menos negras graças aos pozinhos de "perlimpimpim" da Maria Emilia Correia, que com a sua"morangada"deu cor e juventude ao bi-secular palco do São Carlos numa encenação ao estilo rebuçado com um Festival de proeminentes peitos desnudos que, pelo que soube, já alimentam fantasias.
Com momentos agradáveis, menos agradáveis foram as prestações de todos os cantores do elenco exceptuando o titular da ópera, o aristocrata D. Giovanni - interpretado porNicola Ulivieri-, e a sabida e tontinha camponesa Zerlina - interpretada porChelsey Schill-, que muitos bravos merecerão se lhes fizerem justos aplausos.
Um maestro autista; Um fraco elenco feminino - D. Anna e D. Elvira; Um fraco elenco masculino - Leporello, Commendatore, D. Ottavio, Masetto; Papéis mal sabidos; Respirações fora do lugar; Desafinações; Vozes mal colocadas; Vozes mal aquecidas; Desencontros com orquestra; Fraca presença em palco; entre tantos outras questões que roçam o diletantismo de categoria hiper-duvidosa num teatro nacional, no qual o produto final deveria ser de excepção.
Por fim tive a honra de ter ficado sentado ao lado, durante todo o espectáculo, do grande tenorErnesto Palacio e de duas queridas amorosas que no intervalo da ópera foram à Häagen Dazs e enfastiadas sentaram-se na sala comendo os seus arrogantes gelados, que se prolongaram durante os primeiros 10 minutos do II acto (é Portugal no seu melhor, consequência da ausência de conhecimentos, cultura e princípios moderadores).
Ir a São Carlos assistir a uma ópera já não é o mesmo.
Entusiasmo de uma época que já lá vai, iniciada em 1997, com um debute apoteótico numa das mais emblemáticas óperas – La Traviata. Assim começou a grande paixão, passada do ecrã para o compact disc, e agora do compact disc para as salas - presenciando orquestras, cantores e cenários num local tão deslumbrante.
Sentia-se um pequeno príncipe. Um deslumbrado. Um rapazola que concretizava um sonho – ver uma ópera! Sentia-se um primo da sua pacata urbe a arribar àquele local, tal era o fascínio, ignorando que a mãe na companhia dos R. C., que viviam no Chiado, já lá tinham estado tantas vezes, e antes dela outros mais – como a avó e o seu grande amigo conterrâneo, o Embaixador T. S.
O mundo girava nesse dia em seu redor. Até o grandioso lustre assim parecia... Na realidade e em realidade era un petit burgeois de olhos grandes e cheios de vida chegado de uma pequena vila, a poucas dezenas de quilómetros a norte da grande urbe, com uma educação mediana impregnada de misticismos religiosos, uma grande sede de conhecimento e uma grande vontade de expansão que o levaram até ali. Anos grassos de euforia, de alegria, de corridas aos bilhetes sucedidos de outros tantos anos, mas em menor numero, de correrias noutros espaços e alas em grande e ainda maior alegria. Tudo era um sonho! Anos transbordantes vilmente decepados.
Passados estes anos, ei-lo regressado à plateia da ópera. Tudo brilha de uma outra forma. É um brilho escuro : "È bruno"! É a cor etária e experimentada que já não transparecem o tal junior fulgor. Os olhos cabisbaixos transbordam de dor e tristeza!
Cada acorde é sentido nas vísceras. Cada som vocal um pulsar exaltado do coração. Segundos de existência convertidos em horas. Horas em eternidades... Tudo hoje, mais que nunca, é ouvido, é visto e é sentido como se o mundo fosse acabar de seguida. A vivência é outra e os olhos de hoje transbordam a saudade da vontade privada.
MUSICA: Charles Gounod LIBRETO: Jules Barbier e Michel Carré
Produção: Oper Frankfurt
ENCENAÇÃO: Cristof Loy
DIRECÇÃO MUSICAL: Enrico Delamboye
Andrej Dunaev - Faust Kevin Short - Mephistofélès Patricia Biccirè - Marguerite Klaus Klutter - Valentin Kristina Wahlin - Siebel Diogo Oliveira - Wagner Maria Luisa de Freitas - Marthe
Coro do Teatro Nacional de São Carlos Orquestra Sinfónica Portuguesa