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13 de abril de 2009

AOS GUIONISTAS E SONOPLASTAS DO EQUADOR - QUESTA O QUELLA


QUESTA O QUELLA
~ Rigoletto ~

Musica:
Giuseppe Verdi

Tenor:
Enrico Caruso




Questa o quella per me pari sono
a quant' altre d' intorno mi vedo,
del mio core l'impero non cedo
meglio ad una che ad altre belta

La costoro avvenenza è qual dono
di che il fato ne infiora la vita
s' oggi questa mi torna gradita
forse un' altra doman lo sarà.

La costanza tiranna delcore
detestiamo qual morbo crudele,
sol chi vuole si serbi fedele;
Non v'è amor se non v'è libertà.

De' i mariti il geloso furore,
degli amanti le smanie derido,
anco d' Argo i cent'occhi disfido
se mi punge una qualche beltà
.

...

Qualquer uma para mim é'me indiferente
a tantas beldades que aqui vejo,
E por qualquer uma delas
Ao meu coração o ímpeto não cedo.


etc.


EQUADOR - A SÉRIE (O)!


Já algum tempo que está no ar a série portuguesa Equador. Fruto da obra literária de Miguel Sousa Tavares, adaptada à televisão pela TVI e anunciada como a melhor e mais cara produção de sempre! - há quem diga que a obras são dois Contos inacabados da sua saudosa mãe, a grande Sophia, laboriosamente truncados e resolvidos no estilo agressivo e abrupto que Miguel Sousa Tavares nos tem habituado. À fina flor da pena e punhados de renda eruditos maternos, a amarga e violenta dissonância do eloquente filho.

Postos estes pareceres: Uma produção de luxo - assim parece. Dinheiro esbanjado. Produto vendido como se fosse o melhor da Globo ou Hollywood - estes com menos fariam mais e melhor, é certo! Visualmente assim se assemelha, no que se joga e no que se mostra, raramente conjugando-se o género e a perfeição: perucas forçadas e mal colocadas, algumas vestes femininas mal talhadas aos corpos que as desfilam, anacronismos de hábitos e moda, demasiada sumptuosidade para ambientes internos simples e coloniais - quando a obra literária contrasta e enaltece a beleza natural de S. Tomé em oposição ao "caos" e "lu (i) xos" dos ocupadores - que em termos de produção seguem no encalço do estilo da fraquíssima"Terra Nostra" e das melhores produções brasileiras, onde tudo já foi ensaiado e experimentado em 30 anos de trabalho - aqui redundados em semanas numa amálgama fraca, fraquinha.

Fica a nota ao portuguesismo enaltecido nesta série. A limpeza de imagem da enegrecida Monarquia e da dinastia Bragantina, pós ultimato. Os esforços diplomáticos de D. Carlos contra a absorção e usurpação europeia de Portugal - para os menos esclarecidos, foi nesta época que se demarcou e concretizou o Império Colonial Português caído no 25 de Abril de 1974.

Assim o Equador, ao invés do presente, mostra-nos Portugal no seu esplendor lutando emergentemente contra as esmagadoras e tenazes frentes europeias.

... ... ... ...

Ontem pela primeira vez, porque estava ao serão com a família, no repasto de um típico e opípero jantar Pascal, fui honrado com um episódio que se asobremeseou em surpresa, admiração e esboçados sorrisos. Alertado dos aforismos, anacronismos e outras boas doses incomensuráveis de qualquer espécie sobre um espalhafato chamado Equador, deixei-me levar por todo um episódio!

Cores bonitas. Planos jeitosos. Caras bonitas. Interpretações entre a excelência, o bom, a naturalidade do "metier", o forçado, o muito forçado, o escolástico, o mal-preparado, o pouco à vontade, o "caído do céu", o "robertiano", o apalhaçado circense e os que sem mais... faziam de si mesmos - como aquele que passava a vida a anunciar Cavalos, Anões e Mulheres nuas e aqui aparentava ter tomado doses cavalares de calmantes para "não se levantar e rir".

Alvissaras ao Nicolau Breyner, Alexandra Lencastre e José Wallenstein!

Um bom Nuno Melo, Ana Bustorff e Manuela Couto limitados pela extensão dos seus papéis! Menção aos actores negros, que se fazem ver muito bem! De resto tudo condimentado ao acaso, mas... nada de chocante. O trivial de sempre, só que desta vez em época - porém numa série em época qualquer erro, qualquer deslize, qualquer imprudência num gesto, num passo ou numa palavra são demolidores e devastadores da credibilidade de todo o trabalho.


E assim, lá fui apreciando o Equador assistindo ás interpretações de papéis entre o muito bom e o medíocre - sendo a mediocridade o registo dos papéis principais e a excelência o registo dos papéis menores - o típico dos erros de casting portugueses, e, uma geração Morangos-com-Açúcar com pseudo-actores a trepar por aí que nem ervas-daninhas, aparentadas de "Eras".

Mas vamos ao que interessa. Como dizia: "lá fui apreciando o Equador" até que se ouve a celebre ária "La Donna é mobile" tocada na grafonola do excêntrico Governador, Luis Bernardo. Seguindo o rasto do som, João Forjaz, chega à casa de banho. Com admiração, vendo o seu amigo banhar-se entre charutos e musica, pergunta:

- Verdi na casa de banho?

Esclarecidas as exclamações, começam:

- Opera: Rigoletto. I acto. A festa cheia de mulheres, o Duque exalta as suas belezas cantando esta ária...

... E não é preciso ir mais longe... Erro Crasso, que nem Crasso erraria! Escândalo, horror! Como será possível - pensei pasmado e incrédulo pulando no meu sofá, uma vez que nem tudo estava a ir mal e até já achava algo exagerado os comentários escutados e o que por aí lera sobre o assunto - por quem já vira!

Tal como a diferença do sabor do açúcar para o sal, um conhecedor de ópera saberá logo, mas logo mesmo, que a ária
executada no momento acima descrito é o "Questo o Quella" - que Alfredo Kraus elevou, em conjunto com todo o papel, aos píncaros da ópera com uma característica e estridente gargalhada jogada a meio da ária, e que Pavarotti lhe arremessou com tanta robustez e assombrosa vocalidade, que reina post-mortem como o melhor "Duca" de sempre - qualquer CD de Highlights de ópera, vendido nos super-mercados a 3.90 €, o atestam - procurem!

Mas não se fica por aqui: Estamos numa época anterior a 1908. O cantor de então era o lendário Enrico Caruso de quem se fizeram, em 78 rotações, as primeiras gravações de árias de ópera de tenor em conjunto com outros... mas a voz que se ouvia não era de nenhum destes lendários que conheceram e beijaram a mão a Verdi. Em 1908, Caruso ou qualquer outro já a gravara. Portanto um erro histórico incompreendido, e, só tolerado se tal registo não existisse ainda! Não obstante, o som não era o ruidoso vibrando a lata de uma verdadeira e característica grafonola, mas na realidade algo cheio de eco e de efeitos inverossímeis. Bah!

"La Donna é mobile" é executada no IV acto de Rigoletto. É o enaltecimento chauvinista e machista masculino desclassificando a mulher a mero objecto de prazer - o objecto de fornicação sexual. Compreendendo a intenção do argumentista/guionista, assaz infeliz, sugere-se neste pretexto a trivialidade da conversa masculina sobre a volúpia feminina aqui tratada puerilmente, sem picante e sem a cumplicidade de dois amigos daquele gabarito. Duvido mesmo que até as mais conservadoras e octagenárias senhoras, da melhor sociedade, se tenham inflamado ou sentido algum rubor - expectantes de um maior atrevimento, sem mais, adormeceram novamente em frente ao televisor!

Neste argumento adivinháva-se ainda uma comparação próxima dos dois personagens... O efeminizado Luís Bernardo não se assemelha a um "Don Juan" ou um "Marialva" das colónias portuguesas e pouco ou nada tem em comum com o "Duca di Mantua" - mais depressa o Duca, um Don Juan ou um Marialva tomariam banho ouvindo os seus cavalos relinchar... do que escutando uma ária trinada por um gordo cantor espiando a masculinidade alheia!

Erro Crasso! - reitero e afirmo - nos diálogos e na falta de cultura dos guionistas e na equipa de sonoplastia - os quais se encarregam nestas produções de fazer as pesquisas musicais.


Eis portanto o triunfo da estuporização, da arrogância e da usurpação dos lugares que não lhes são devidos e a quem de direito são privados de serem ocupados - a Wikipédia, não substitui anos e anos de estudo e conhecimento acumulado!

Uma recomendação a estes Senhores, se tal me é permitido: - Mes amis, gosto muito do vosso trabalho mas há que distinguir o sério do cómico! Pedir conselhos e copiar os modelos dos outros não é feio nem é plágio. A isso chama-se adaptar e quando é bem feito é andar para a frente, achando-se o caminho para a glória. Orgulho e altivez quando não se sabe, pensando que se sabe tudo, é fazer algo muito feio designado por ... (Valha-me Deus, pelo que vou dizer) ... "Trampa" - que passo a expressão e peço mil perdões, ainda que usando o termo erudito português, por sua vez mais suave que o francesismo vulgarmente utilizado que corre habitualmente a boca, o pensamento e a postura do ser e de ser português, como "piéce de resistance".

É o efeito Socrates - o Socrates português!

AIQUEDOR


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