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23 de maio de 2010

SANTA QUITÉRIA EM MECA

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(texto revisto e aumentado)


Meca, caro leitor, não é só a cidade santa do Islão ou a Hollywood cinematográfica. Meca é também uma pequena aldeia do concelho de Alenquer, a 30 Km de Lisboa, e tal como a sua homónima islâmica é também um local de fé e de crença, desta de pendor cristão e católico.


(c) Santos & Santinhos


Por qualquer lado que se chegue a esta Meca portuguesa, o avistar da Basílica, sobranceira ás baixas casas locais, vinhas e arvoredo frondoso ou de fruto, tem o seu impacto à vista, dado a espectacularidade arquitéctonica do edifício que surpreende um olhar desprevenido, sobretudo pelo seu achamento num local tão invulgar como este. Na realidade, a Basílica, erguida numa encosta dos extensos vales e terras da Casa da Rainha, é apenas um rico ermitério que assim se manteve até 1847, ano que foi instituída como igreja matriz. Assim, este templo, a casa da nobre Santa Quitéria, na sua magnificência, não era mais que um ponto de romagem anual que abria em todo o seu esplendor apenas no mês de Maio, quando se verificava o maior afluxo de peregrinos. Hoje, em que um tal culto visivelmente esmorecido sem as afluências e folclore do passado, apesar da reafirmação anual dos festejos a esta devoção, como propriedade genética da antropologia local afirmada pelas vizinhanças, confirmado as sábias palavras de Paulo VI: "É necessário que subsista um pequeno rebanho, por menor que seja" (In.: Jean Guitton. Paulo VI Segredo, p. 152-153), este complexo sobressai para todos nós como uma admirável peça museológica a qual necessita de um urgente olhar ante a sua acelerada degradação.


(c) Santos & Santinhos


Conta uma antiga tradição que em 1238 perto da Quinta de São Brás foi encontrada numa árvore uma imagem na qual se reconheceu a virgem e mártir Santa Quitéria. Acolhida na Igreja Várzea aí permaneceu até à criação de um templo condigno no século XVIII. Ao que parece, no local onde a imagem tinha sido encontrada fora construída uma ermida, sensivelmente no local onde hoje se encontra a Basílica, à qual chegavam muitos peregrinos e promessas de curas fazendo-se festa, procissão e bênção do gado desde tempos de perder a memória.



(c) Santos & Santinhos


A fama deste local foi crescendo e com ela as afluências de gentes e de povo agrupado em círios oriundos dos mais diversos pontos do país. Formou-se então uma Confraria que chegando a ser uma das mais ricas e abastadas do país, que na zona centro portuguesa concorria como um dos pontos de maior afluxo de peregrinos, a par dos santuários de Nossa Senhora do Cabo e de Nossa Senhora da Nazaré, ganhando notoriedade na famosa máxima popular, que nem Garret soube compreender, naqueles que a relacionam com os círios desta romaria: "correr de Seca a Meca e olivais de Santarém", que assim ser deambulavam até aqui desde esse lugar na serra algarvia.



(c) Santos & Santinhos



Santa Quitéria é a advogada da hidrofobia, ou seja a doença da raiva. Controlado este mal, graças ao avanço da ciência e medicina veterinária, nos séculos anteriores à fleuma que hoje se assiste, a raiva era um mal temido aos animais e ás pessoas que por eles fossem mordidos, nomeadamente os cães. Doença infecto-contagiosa, é ainda hoje considerada como de rápido efeito mortal e uma das mais fatais, mesmo em comparação ás mais temidas doenças do século XX. Vale a pena ler este opúsculo sobre a raiva para melhor perceber o que foi esse flagelo e a importância de Santa Quitéria de Meca para a medicina empírica seus remédios, mezinhas, tratamentos e esperanças. Dele retiro apenas a menção do processo de cauterização usado na cura contra pessoas com hidrofobia, aplicando o pároco local nos enfermos, por entre rezas contra os males, um ferro em brasa nas feridas; os célebres pãezinhos ou merendeiras de Santa Quitéria para serem dados aos animais prevenindo-os contra a moléstia; e as fitas escarlate benzidas nesta Basílica, que de norte a sul de Portugal, como amuleto, protegiam as gentes contra as mordidelas dos animais danados.


(c) Santos & Santinhos



Em 1757, a Confraria decide empreende a construção de um novo edifício para o culto dado o anterior se encontrar ainda em estado de ruína em consequência do cataclisma de 1755. À certamente modesta ermida, surge agora pelo desenho de Mateus Vicente, o arquitecto da casa real, um esplendoroso edifício de linguagem moderna. Em estilo neo-clássico, acha semelhanças como traçado da Basílica de Mafra, e outras suas congéneres lisboetas, traçadas também por este arquitecto. Porém, no reinado de D. Maria I, como as obras estavam demoradas, a Confraria, no benefício de esmola real, obtém o favor régio no patrocínio do empreedimento, quem sabe se num apelo ao divino pela cura da demência psiquiátrica da rainha, verificando-se a rápida conclusão do edifício em 1799. Inaugurada então com pompa e circunstância, foi dedicada e consagrada à Basílica de São João de Latrão.


(c) Santos & Santinhos



A riqueza desta Basílica é de tal forma tão exuberante que facilmente um seu visitante, no seu interior, perde a noção que se encontra no campo, podendo-se pasmar na saída por não se encontrar no Chiado ou qualquer outro recanto da Baixa Pombalina. De facto, o interior deste templo impressiona, sobretudo nas pinturas de Pedro Alexandrino, conhecido como o pintor dos frades, e, entre outros tantos da capital, o mesmo que foi responsável pelo tecto da Basílica dos Mártires. Vale a pena observar com calma este harmonioso firmamento de formas e cores de gente posando teatralmente envolta de medalhões, florões, motivos vegetais, simbologias e outras delicadezas, do qual hoje, desgraçadamente, se encontra ausente um grande lanço, que ameaçando cair, foi habilmente retirado para que no seu restauro e futura reposição não defraude a sequência dos episódios da vida de Quitéria. No coruchéu, estão representados em proporções colossais os quatro evangelistas, também do mesmo autor. Este conjunto de pinturas é sem dúvida uma obra ímpar na história da arte portuguesa, que não sendo uma habitual alegoria centralizada num único momento, estado ou moral, segundo a tradição, acha uma equivalência sistiniana pela descontinuidade do assunto agrupado em quadros e pelas decorações que completam os temas. Vale ainda a pena referir, como obras de grande valor, as telas que decoram os braços laterais, nomeadamente a Ceia de Cristo e A pregação de São João Baptista.

(c) Santos & Santinhos


Em súmula desta explanação: A Basílica de Santa Quitéria de Meca, que aqui tentei ilustrar por palavras e fotos, merece a nossa máxima atenção. É parte da nossa história. É parte da nossa crença que ali está depositada. É a nossa cultura. É a nossa arte. Hoje o sumptuoso templo está num visível estado de decadência mantido sabe-se lá como e com que esforços. Certo de não poder fazer mais do que isto, lanço aqui um apelo e olhar como o meu contributo para a sua consciencialização e esperança do apoio necessário para que não se desfaça até à ruína.



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8 de abril de 2010

O PALÁCIO DA RAINHA

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Enquanto no extremo norte do concelho da Azambuja, no alto-concelho, no sítio do antigo Alcoentrinho, hoje Manique do Intendente, definha o magno colosso de grossas paredes deixadas por Pina Manique (recentemente enxertadas com 100 mil € para a sua conservação), no sentido oposto a este neo-clássico Versailles para uma sonhada Paris do Ribatejo a ser povoada de iletrados agricultores e colonos de sotaque flamengo, no lado sul deste concelho junto à sumptuosa vala-real da Azambuja, na confluência com o largo Tejo, jaz o Palácio da Rainha ou Palácio das Obras Novas. Ei-lo:




Na imensidão do espaço que esta vista aérea revela pode o meu leitor ter a percepção do famigerado complexo. A casa que se distingue é o edifício. A seu lado a vala-real no seu início junto ao Tejo. E o traço branco que segue paralelo à vala, a longa estrada ladeada de uma impressionante alameda de palmeiras.

O leitor que desejar visitar este lugar deverá seguir a EN3 até à Azambuja.
 

É um passeio a fazer, pondere! Uma recomendação deste vosso Bartolomeu que desde menino conhece bem estes locais, e que ainda se deixa fascinar por eles, uma vez que em cada visita algo de novo há para ler ou decifrar nos objectos já vistos, certo que no futuro uma nova leitura ou olhar aos mesmos outros segredos irão desvendar. Portanto, uma deslocação a considerar. Aliás, caro leitor, actualmente esta ruína só subsiste para ser visitada por si e não está lá para outra coisa se não para isso. Assim, ajude desta maneira a justificar teimosias e as avultadas somas gastas na preservação do decadente edifício.




Saia então de casa caro leitor, e de onde quer que venha desloque-se até à Azambuja. Antes de trilhar o caminho que o levará a este lugar à beira-de-água, aproveite a proximidade e visite Manique deslumbrando-se com a mole do Intendente (recomendo-lhe entrar nesta vila pela estrada que vem da Maçussa para ficar estarrecido com o impacto paisagístico e perceber a megalomania de Diogo Ignacio de Pina Manique). 

Faça então o seguinte percurso: Azambuja, Aveiras-de-Baixo, Aveiras-de-Cima - (tome a direcção do Cartaxo) - Pontevel, Ereira, Maçussa e Manique. Se percorrer a A1 e usar a saída de Aveiras, na rotunda tome a direcção do Cartaxo e siga a indicação já dada.




Escolha para isso um bonito dia ensolarado de temperatura aprazível para poder desfrutar dos prazeres de viajar no seu automóvel ao encontro destas esquecidas maravilhas portuguesas. Não custa muito, mesmo nada. Apenas sair do estado letárgico de que é acometido em dias ociosos.

Se para qualquer um destes destinos tiver de atravessar o Carregado não se deixe entusiasmar logo pela vista do tendencioso Campera. É um oásis de enganos. Guarde esse ensejo para o fim do dia, na envolvência do calor do fim-da-tarde e do conforto do lusco-fusco crepuscular, no qual depois de se refrescar com uma gasosa ou um gelado pode entregar-se ao vício perdulário do gasto, perdendo-se ali enchendo-se do que não precisa.

Para se dirigir ao Palácio da Rainha deve na Azambuja procurar a rotunda junto ás bombas da Galp onde irá achar uma indicação apontando para a direcção da vala-real.
Na elevação do viaduto, que sobre-passa a linha férrea, avistará com maior clareza o campo da lezíria ribatejana. Com sorte, verá, em algum canto da extensão do que a sua vista alcança, cavalos aos pinotes com algum campino no dorso vigiando ganadarias de toiros pastando pachorrentamente como se o mundo não existisse. Rica vida para um animal sem aparente função: pastar; dormir refastelado; ser catado pelas aves; e quando exorcizados, correr para desentorpecer as mãos e patas traseiras ao som dos brados dos campinos,aquele linguarejar incompreensível ao entendimento do toiro bravo que o pobre bicho não entende  e a toma como insolente maçada, ganhando percepção do todo quando se depara com a derradeira hora da sua pacata existência ante o público de uma arena.  Mas  que dizer da a raça bovina. Nem a vaca leiteira ou charolesa têm melhor sorte. Em oposição à morte coroada com farpas, esta segunda e terceira espécie
acabam, depois de uma explorada existência a encher pacotes - garantindo pequenos almoços, galões e outros tantos apreciados produtos de cafetaria resultantes do impacto da revolução industrial que se resumem a uma máquina manual, eléctrica ou a moedas, acabam redundantemente mortas ao choque eléctrico levando-se à mesa em bifes com ovo-a-cavalo ou coroando-se de grão-de-bico as suas macientas mãos, para satisfazer neste caso o gosto de um mais exigente comensal.

Deixando por ora a sorte destes bichos, uma vez entregues a si e quem direitos sobre eles têm, adiantarei ao caminho antes que o texto faça delonga.

Passado o viaduto a urbe azambujense é agora apenas uma miragem que vibra no outro lado da linha. Nas traseiras da estação ferroviária eis o primeiro sinal da razão desta viagem: um canal. Um canal que liga a vala à vila, e que na realidade não é mais do que isso, não vá o meu caro leitor julgar que tal é a majestosa vala da Azambuja. Hoje, neste canal, quase sem água, subsiste uma leve massa viscosa e lodosa na qual serpenteia um fio de água que nas marés cheias se engrossa, sem dar razão a que nada ali passe sem encalhar.


São estes canais também frequência de uma espécie animal. Uma antiga temida ameaça bíblica, as pragas de rãs. Hoje, desaparecido Moisés e o seu ameaçador e imperativo bastão, este anfíbio já nada faz e ninguém amedronta. Eventualmente, qui ça, causar asco a uma senhora elegante. Mas cara senhora elegante, não se afronte a tão soberana e principesca presença... estes esverdeados seres, rãzinhas gordas e opulentos sapos, dedicam-se a uma vida tão banal como é a natureza do dia, limitam-se a existir! De receio apenas temem serem uso de práticas locais de superstições
infalíveis e duvidosas bruxarias de mulheres da labuta do campo despeitadas pelas acções das outras, no olhar favorecido do moço mais garboso do rancho a uma outra, definhando-lhe o viril vigor, ou em vingança à falta de palavra dos patrões enfiando pela goela abaixo do batráquio indefeso encómios praguejados em tiras de papel, impedindo-o de as cuspir pela sua costurada boca. Um crime, uma chacina em massa! Uma negra verdade aqui denunciada. Não é pois de admirar que durante o dia vivam escondidos dos olhares humanos, adivinhando-se a sua invisível presença através de um tímido e pouco sonoro ressoar coaxado. Porém, quando se acerca a noite, grasnando, rompem o silêncio dos campos e dos pantanosos canais. Com seu som, atraem a simpatia do canto dos insectos. Desta feliz sorte, toda a bicharada iluminada pela lua ou pela intermitência de caga-lumes, transformam os canais em palcos musicais de onde saem longas e harmoniosas sinfonias, e, que a Bruckner fariam inveja, e, que só no alvorecer acham termo.
São ainda estes canais pastos de outras espécies de pequenos animais,
de que agora não há memória, tal o seu desagrado, e que beleza ou bem estar nada dão. São estes as malévolas e ameaçadoras as pragas de melgas, mosquitos e afins arraçadas de vampiros malignos desvairados, que quando não são repasto da raça anfíbia se repastam na pele humana deixando-a com bexigosas marcas.
No passado eram ainda visíveis nestes canais barcaças ancoradas, transportes de desaparecidos pescadores de sável. Hoje nada! Eventualmente uma quilha... Os pescadores
com melhor lucro para as suas vidas labutam hoje no Sr. Amorim ou no Sr. Luís Simões, que não longe destas paragens se estabeleceram. Labutam também na época estival para o Sr. Ortigão Costa - senhor da Sugal, das ganadarias de toiros já avistadas e de largas parcelas dos campos que o meu leitor eventualmente irá atravessar. Mas não desespere nem se desencante com estas ausências, caro leitor. Estes homens, sem os antigos rigores, pescam hoje à cana somente nas folgas ou fins-de-semana. Se o meu estimado leitor for um comensal apreciador de iguarias confeccionadas dos frutos do rio, no encalço deste passeio, desvie-se no seguimento da estrada do campo que já percorre e siga até Valada ou à aldeia da Palhota. Aí é possível encontrar quem lhe sirva uma boa açorda-de-sável ou um delicioso sável-na-telha.

Voltando à estrada uma vez mais, numa jornada já tão descarrilada, o meu caro leitor segue agora um longa recta cercada de árvores frondosas que acolhem na sua fresca ramagem um extenso parque de merendas, onde se trouxe lanche aí poderá merendar condignamente, caso não traga consigo uma permissiva manta alentejana de o fazer descansar tranquilamente à sombra do palácio ou de uma palmeira. Parque de merendas de dia, estacionamento de namorados à noite em busca do frenesim da descoberta dos corpos.

Ao seu lado direito segue sorridente o tal canal que num ponto ou noutro se abre em braços mais estreitos. Não vamos desembocar em Veneza, é certo. Magari... São apenas canais de irrigação. Peccato... Pouco depois a estrada ganha nova elevação. Neste ponto, caro leitor, abrande. Atravesse esta ponte lentamente e vislumbre a grande vala-real da Azambuja em toda a sua pompa. Belo é o seu caudal e copada as suas margens.

Passado este marco, o campo abraça-o. Abra a janela do seu automóvel e deixe-se envolver pelos cheiros e odores que permanecem no ar. Revigore-se! Agora o que vê são campos, fazendas e quintas. Poucos quilómetros adiante e uma nova indicação do palácio.

A estrada que agora deve seguir é de terra batida. É uma estrada de campo que conhece de cór o som e
o pisar agreste de máquinas de lavoura, assim como tagarelar de figuras humanas rudes que aí ainda trabalham de sol-a-sol. Novos canais cercam a estrada, que em alguns pontos se assemelha de estreita e escorregadia. Ao longe avistam-se os primeiros sinais de arvoredo envolvendo a estrada o levarão até longa e majestosa alameda de palmeiras. É este o primeiro sinal da segunda maior grandeza que este local encerra e a primeira surpresa ao segredo que se acha no seu termo.




Uma vez lá, não espere porém encontrar se não uma ruína tão sumptuosa como a de Manique. Ambas são construções neo-clássicas e enquanto a primeira foi interrompida por morte do seu senhor em 1805, esta foi concluída e teve esplendor até que a importância do caminho-de-ferro viesse sobrepor-se ao dos caminhos fluviais. Interessantes analogias que merecem um melhor e aprofundado estudo das entidades que lhe são correspondentes.





O Palácio das Obras Novas ou Palácio da Rainha, assim denominado por ter sido na época do reinado da Sr. D. Maria I a sua conclusão, e como os populares locais o lembram carinhosamente, fez parte de um projecto chamado de obras novas o qual pretendia modernizar nessa época o país colocando-o na primazia europeia do desenvolvimento. Com a construção deste edifício concluiu-se assim o plano da obra da vala-real da Azambuja iniciado por ordem do ministro de D. José, Sebastião Carvalho e Melo, ou segundo outros por D. João V (uma vez mais a falta de estudos rigorosos a condicionar a veracidade dos assuntos). Curiosamente, foi Pina Manique quem super-intendeu os aspectos conclusivos deste importante posto situado a cerca de 20 km da sua vila tal como em 1788 havia ordenado melhoramentos e obras na estrada real para as Caldas da Rainha, que, em São Salvador, se acha a menos de 10 km da mesma. Nada ao acaso, assim parece.






Serviu o edifício da vala até à sua falência como estalagem, armazém de mercadorias, posto administrativo e de controlo do tráfego do transporte de mercadorias e de passageiros, que por meio de faluas ou outras embarcações faziam as carreiras do Tejo entre Lisboa e Constância. O declínio desta estação foi progressivo a partir de 1860 com o gradual expansão da linha-do-norte para lá do Carregado. Por fim, com o desaparecimento das rotas fluviais e da Companhia dos Canais de Azambuja, o edifício ficou resumido a estalagem até ao seu abandono.




Nela se hospedaram viajantes e ilustres, é certo. Contam-se o rei D. Carlos, Sr. D. Amélia e o principe-real D. Luís Filipe como alguns dos seus últimos hóspedes.
Ferenc Liszt, acima de qualquer soberano português que tenha descansado nesta paragem, deve ter sido o hóspede mais ilustre que nesta casa passou. Célebre pianista aprendeu também a arte da composição com o italiano António Salieri (compositor contemporâneo, colega e ainda segundo as lendas rival de Mozart). Conheceu toda a nata da musica do século XIX: Beethoven, Rossini, Chopin, Berlioz, Verdi, Gounod ou Meyebeer tendo sido ainda cunhado de Wagner e na velhice quando concentrava em torno de si jovens promessas europeias, professor do nosso Vianna da Motta. 


Em 1845 deslocou-se a Lisboa para um série de concertos, no qual promovia uma dada marca de pianos que trouxe consigo e que ofereceu um exemplar à rainha D. Maria II - instrumento no qual já toquei, vejam só, e que hoje se guarda no Museu da Musica, ao Alto dos Moinhos, em Lisboa. Consistiu esse um dos momentos mais mediáticos e cosmopolitas que a capital do nosso país conheceu em quase todo o século XIX. Liszt era uma celebridade e um dos maiores artistas peregrinos do mundo, mas não se espante caro leitor, e, acaso não se lembre Lord Byron também andou por Portugal, e sabe-se lá com que comportamentos. É sabido que nesta viagem Liszt se deslocou ao Cartaxo onde no Palácio dos Chavões deu um concerto (facto sobre o qual não consegui apurar os porquês e razões). 

Esta deslocação, um convite pago a peso de oiro, torna certo que na estalagem das «Obras Novas» tenha o músico tenha passado, descansado ou pernoitado. Aliás para chegar aos Chavões não havia modo melhor, seguro ou mais eficiente sendo a opção secundária aventurar-se pelos trilhos do famosérrimo pinhal da Azambuja, do qual sabemos bem o que lá se passava. De facto todo este assunto no trajecto fluvial acha reforço pelo melhor e mais condigno meio de deslocação disponível, pelo facto do Palácio dos Chavões se situar num serro à beira da vala e pelo facto picaresco que já irei narrar. Antes de avançar é preciso lembrar ao estimado leitor que a vala-real se navegava por 17 km e compreendia ainda a vala de Santana e a ribeira d´Asseca - local nas imediações do qual Junot foi ferido no rosto -, uma vez que se o projecto tivesse sido concluído teria a vala-real chegado por esta confluência de classificações a Rio Maior.

Na margem esquerda da vala ergue-se então o Palácio dos Chavões com o seu solarengo terraço, visível e observável da linha férrea em viagem, apesar das grandes velocidades a que os comboios praticam. Casa tão antiga que o seu principal biografo, Teixeira de Sampaio, a apalavrou por vontade do povo ser do tempo do mouros, já que para o povo tudo quanto era antigo assim era comummente designado. Por fim, Liszt, uma vez no Palácio das Obras Novas, ou da Rainha, foi então conduzido aos Chavões numa deslocação nocturna da qual não há memória de homenagem para nenhum outro ser vivo. De ambos os lados da vala foram mandados acender archotes que alumiassem o caminho, o qual fez um enorme corredor ornado de luz-de-fogo de uma considerada extensão de quilómetros. 

Uma vez lá, deu um brilhante concerto a uns quantos convivas seguramente encabeçados pelo Marquês de Nisa, na época o seu proprietário; quem sabe acompanhado do melómano Conde de Aveiras, impulsionador da construção do Real Teatro de São Carlos e por agora senhor das duas Aveiras já referidas (onde possuía dois solares ou palácios); de uma dúzia de "surdos-mudos" fidalgos e lavradores locais para compor a sala; e, do bom ouvido de Passos Manuel, se não fora por seu intermédio tal deslocação como manobra da sua influência apesar de deambular nessa época por Santarém como um rico lavrador.





Hoje está em ruínas e é o passeio domingueiro dos locais. Ritualmente esta paragem enche-se em cada quinta-feira da espiga de cada ano de populares que aí procuram descansar nesse dia, acarinhando-a com vestígios da sua passagem. É ponto de reunião de pescadores. É ainda o refugio de amantes fortuitos ou premeditados que aqui vêm esconder o seu crime de posse de bem humano de outrem. E é simplesmente o passeio de uma qualquer ave rara indiscreta ávida deste género de curiosidades. Também é certo, caro leitor, que se visitar este local e o seu belo edifício, aventurando-se no seu interior, não está isento, mesmo com a segurança das recentes obras, de ser abalrroado por um pedra menos fixa ou desaparecer num dos muitos buracos do chão. É a aventura no perigoso desconhecido. O ir e poder não voltar... pelo menos no estado em que se chegou!



 

 

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30 de junho de 2009

NA PEÚGADA DO CORAÇÃO DE JESUS... - ÚLTIMA DEMARCHE!


BASÍLICA DE SANTA LUZIA

E DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS





Construída no monte da Santa das Luzes... Lucía de Siracusa - a virgem martirizada que de entre as múltiplas torturas que sofreu, a mais célebre foi a remoção dos seus próprios olhos; Lúcia, termo italiano que deriva da palavra Luce (Luz), que conhece a corrupção do termo para Lúcia e que encontra em português a denominação traduzida para Lúcia ou Luzia; Luce, luci, luz ou luzes é ainda um termo que designa a visão, a luz que se vê aos olhos, o olhar que cerca a vista. Decaído o seu uso regular na linguagem quotidiana, é ainda muito comum encontra-lo nas formas poéticas clássicas, e anteriores a esta época.

Construída no monte da Santa das Luzes... esta Basílica viu-se inspirada na já famosa Basílica da "Cidade das Luzes" - O Sacré Coeur -, e mais do que uma inspiração de fervor foi também uma inspiração de formas e novas modas introduzidas e adaptadas a um novo Portugal, influenciado por tantos francesismos culturais e políticos.

Assim, no monte da Santa das Luzes... sobre esplendoroso miradouro natural de perder a vista num longínquo horizonte, foi construída uma Basílica dedicada a Santa Luzia e ao Coração de Jesus.

Incrementado o projecto pelo padre António Martins Carneiro, certamente lembrando-se dos Santuários e Basílicas que povoam a região de Braga e Guimarães, dotando assim Viana do Castelo de um espaço religioso que no mínimo rivalizava com os já citados, o moderno traço da Basílica foi encomendado ao então grande arquitecto Ventura Terra,
responsável por numerosas obras de intervenção e outras de grande envergadura em Portugal, e distinguido anos antes pelo Rei Dom Carlos com compasso que antes pertencera ao grande Ludovice.

As obras iniciaram então em 1903 e foram concluídas em 1943,
no contexto de todo o complexo religioso, sendo que o local já se encontrava aberto ao culto desde 1926.



A fachada da Basílica ostenta então uma preciosa estátua do Coração de Jesus, em bronze, do escultor Aleixo Queirós Ribeiro, que encontra uma réplica no interior (desta em mármore de Vila Viçosa).

Completa-se assim o segundo monumento português ao Santo Coração de Jesus, fruto de uma devoção que conhece todo o país.



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Por todas as cidades, vilas, aldeias e lugares portugueses encontram-se em quase todas as Igrejas ou Capelas uma imagem desta devoção. Imagem, que vem repor a figura de Jesus Cristo num acto longe do seu martírio. Imagem de Cristo Redentor, que lembrando o martírio, não sofre nem se humilha. Pelo contrário, em posse e vestes majestáticas ornadas de ouro, sereno e de sorriso tranquilo e com meigo e discreto gesto, exibe o seu Coração convidando-nos a adora-lo.

* * * * * * *


MONUMENTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
DO SANTUÁRIO DE FÁTIMA





Em 1917 na Serra d'Aire, numa cova no cimo da Serra, Maria, a mãe de Jesus deixa-se aparecer a três meninos. Na terceira aparição, a Senhora, sempre entristecida, mostra aos pequenos os horrores do "dito" inferno e mostra-lhes o Seu coração dilacerado pela dor dos pecadores.

Em 1932, já no crescente e desorganizado Santuário de então, é colocado bem em frente da capelinha das aparições uma estátua do Coração de Jesus, a qual encima o chafariz que oferece água aos ardentes e sequiosos peregrinos de Fátima.

Esta imagem de Bronze, de autor desconhecido, foi na altura oferecida ao Santuário por um devoto, e nela, Jesus de braços ligeiramente abertos parece abraçar todos quantos a seus pés bebem da água, que é água de fonte de renovação que brota do seu coração.



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Jesus é assim lembrado, mesmo no centro do Santuário, que é o principio e o fim, e, que na sua radical mensagem nos declara que ninguém chega ao Pai se não for por Ele. É Ele a nova aliança entre Deus e os homens, e também a nova aliança religiosa portuguesa iniciada pela Rainha D. Maria de Portugal na já referida Basílica da Estrela.

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SANTUÁRIO DE CRISTO REI




Em 1934, numa visita ao Rio de Janeiro, o então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Cerejeira, fica impressionado com a monumental imagem de Cristo Redentor do Corcovado - o guardião espiritual da nação brasileira, em detrimento dos guardiões maçónicos e de outras confissões obscuras, que se foram impondo nas principais cidades do mundo (o Cristo Redentor, era uma ideia acalentada desde os meados do séc. XIX. O projecto ganhou forma sendo que foi lançada a primeira pedra em 1922, nas comemorações do primeiro centenário do Brasil, como marco espiritual e religioso dessa efeméride. Foi inaugurado a 12 de Outubro de 1931, no dia de Nossa Senhora Aparecida - a quem se dedica uma capela nesse santuário).

Em 1934, depois de uma visita ao morro do Corcovado, o Cardeal Patriarca trouxe aninhado no seu coração a ideia de reproduzir no seu
beato Portugal semelhante monumento. Um monumento novo. Um monumento construído de raiz. Um monumento moderno, aristocrata e grandioso que rasgasse a monotonia empoeirada a que Portugal estava votado em tradicionalismos seculares, que se renovavam em cada ano, mesmo nas novas e modernas devoções. Um monumento arrojado e inovador que Salazar não gostou!

Porém a sua iniciativa não se ficava apenas por erguer um monumento físico e circunspecto somente ao local onde fosse erguido. Em 1937, depois de reunidos os Bispos portugueses, este objecto será proclamado como monumento de consciência religiosa da nação portuguesa.

Em 1940, em Fátima, já no decorrer da II Guerra Mundial, esta ideia converte-se num piedoso voto que revigorará a mensagem passada aos fiéis nos púlpitos. Será então símbolo de paz no voto manifestado pelos Bispos:

"Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ía sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade".

O arranque das obras terão início em 1949.

Escolhido o local, o santuário erguer-se-á nas colinas de Almada, bem defronte de Lisboa, para que nesta cidade pudesse ser alcançado nos seus mais diversos pontos e localizações. Intenção que achou eco nas palavras de D. José Policarpo, por ocasião dos cinquenta anos do monumento, na seguinte exclamação:

“Os habitantes da grande Lisboa têm essa particularidade: não precisam de entrar numa Igreja para rezarem diante de uma imagem do Coração de Jesus. Toda a cidade se transformou num templo, onde só não sente o amor de Cristo quem não quer".

A estátua de Cristo-Rei, assumidamente de braços abertos e com um enorme coração, foi da autoria do Mestre Francisco Franco, e o projecto do monumento do arquitecto António Lino e Eng. D. Francisco de Mello e Castro. O enorme monumento de betão, material esse cheio de simbologia modernista, foi custeado pela esmola do povo português na subscrição contribuída nos ofertórios Dominicais.

Inaugurado em 1959, com pompa e circunstância, a cerimónia contou com a presença do Estado Português, o Cardeal-Patriarca de Lisboa,
o Núncio Apostólico, os Cardeais do Rio de Janeiro e de Lourenço Marques, os Bispos Portugueses, centenas de fiéis, a imagem de Nossa Senhora de Fátima e até do próprio Papa João XXIII através de uma mensagem de Rádio.




* * * * * * *

Esta última consagração renova bem a importância de Jesus Cristo no centro da sua Igreja, por vezes remetido exclusivamente para a Eucaristia.

Relembrando-nos a Sua presença quotidiana, nos passos das nossas vidas, Jesus não tem problemas em abrir os seus braços até à sua extensão máxima, pois neles, mais do que a lembrança da Cruz, reside o incondicional abraço fraterno que está disponível a todos. Neles, o convite!... O convite, a que por imitação o abracemos de coração exposto, de coração aberto!



O coração de Jesus é amor,
e o nosso assim será se assim o quisermos!


22 de junho de 2009

REFLEXÃO:




Olhar a Estrela é contemplar o Coração de Jesus!


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