A propósito da transmissão da ópera Thaïs de Massenet, que ontem se ouviu em directo do Met de N. York, fica aqui um apontamento sobre a LEGENDA AUREA desta figura, datada do séc. XIII, onde se conta com singeleza assaz comovente a seguinte narrativa - da qual saiu o romance de Anatole France, que gerou a ópera:
Taide ou Thaïs
A Cortesã Thaïs era tão formosa que vários homens se arruinaram por amor a ela, ficando na maior penúria, e à soleira da sua porta o sangue dos quais se degladiavam por ciúmes fazia poças.
Pafúncio, anacoreta, sabendo-o, buscou uma moeda de prata e trajando à secular, veio de longada até à cidade do Egipto, onde ela morava, a fim de lhe dar o dinheiro, para, a troco dele, pecar com ele.
Thaïs uma vez recebida a moeda convidou-o a entrar no seu quarto onde havia uma cama recamada de estofos caros. Pafúncio entrou mas mostrou preferência por quarto mais retirado. Anuindo, ela levou-o para vários compartimentos, mas ele dizia sempre que receava ser visto.
Então a cortesã disse-lhe que tinha um quarto onde ninguém poderia entrar, contudo se era Deus que ele temia, não havia modo de remediar o caso porque em nenhuma parte do mundo poderia furtar-se a Seus olhares.
- Mas então sabes que Deus existe?
Thaïs respondeu que sabia e não ignorava a vida futura e o castigo dos pecadores.
Ouvindo tais palavras a cortesã lançou-se aos pés do eremita, lavada em lágrimas e exclamou:
Depoisa Pafúncio levou-a para um convento de freiras onde a emparedou numa cela exígua, a fim de a arrastar vida de árdua penitência:
Ela ainda viveu quinze dias e adormeceu na paz do Senhor.
- Mas se conheces tudo isso, por que tens causado a perda de tantas almas? Terás de dar conta delas a Deus e também da tua e por certo serás condenada!
Ouvindo tais palavras a cortesã lançou-se aos pés do eremita, lavada em lágrimas e exclamou:
- Mas sei igualmente que é possivel o arrependimento e tenho confiança em que as tuas orações poderão alcançar a remissão dos meus pecados. Dá-me só três horas de espera e depois delas irei para onde me mandares e farei o que me ordenares!
Thaïs empregou as três horas em reunir todas as riquezas que amontoara à custa do pecado e lançou-lhes fogo na praça pública ante densa multidão.
Depoisa Pafúncio levou-a para um convento de freiras onde a emparedou numa cela exígua, a fim de a arrastar vida de árdua penitência:
"Não és digna de pronunciar o nome de Deus, nem de levantar as mãos para o Céu porque toda tu és impureza. Limitar-te-ás, voltada para Nascente, a repetir sempre a mesma frase:
"Oh tu que me criaste, tem piedade de mim"!
Ao cabo de três anos Pafúncio, condoído da sorte da infeliz, foi-se em busca de Santo Antão, para saber se Deus não haveria perdoado os pecados da penitente. O Santo congregou os discípulos e ordenou-lhes que permanecessem em oração até que Deus revelasse a um deles o que fora objecto da vinda do monge. E quando todos oravam, Paulo viu no céu uma cama coberta de panejamentos preciosos e guardada por três virgens de rosto resplandecente. As três donzelas eram o temor dos futuros castigos, a vergonha dos pecados cometidos e a paixão pela justiça de Deus.
E como Paulo supusesse que tal cama deveria ser indubitavelmente para Antão, uma voz do Alto exclamou:
E como Paulo supusesse que tal cama deveria ser indubitavelmente para Antão, uma voz do Alto exclamou:
"Não! É para Thaïs, a cortesã!"
No dia seguinte Paulo tratou de contar a visão que tivera e Pafúncio entreviu nela a vontade do Altíssimo e, dirigiu-se logo para o mosteiro a fim de desemparedar a penitente, o que fez por estas palavras:
"Sai daí, porque Deus remiu teus pecados, não só por causa da penitência, mas também porque conservaste o seu temor no fundo da tua alma."
Ela ainda viveu quinze dias e adormeceu na paz do Senhor.
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Anatole France, homem de pouca crença, viu nesta história um recurso de amplas possibilidades com a finalidade de provocar a religião, prevertendo-a, segundo os seus princípios.
Assim Pafúncio, agora chamado de Atanael, monge senobita, tinha sido na sua juventude amante de Thaïs. Por obsessão carnal aproxima-se dela, para converte-la segundo a moralidade cristã, e consequentemente faze-la passar pelas mais duras provações. A sua intenção é conseguida, apesar da relutância de Thaïs.
Levando-a para um convento, intensifica no caminho ainda mais os seus sentimentos carnais, enquanto esta vive na razão e consciência impostas. Chegados ao convento, despedem-se. Atanael fica atónito, percebendo que não voltará a vê-la.
Assim, a cortesã em santidade atinge a espiritualidade ascendendo aos céus, e Atanael o percurso inverso caindo no materilismo e desejo carnal.
Lina Cavalieri,
no papel de Thaïs
no papel de Thaïs
Assim Pafúncio, agora chamado de Atanael, monge senobita, tinha sido na sua juventude amante de Thaïs. Por obsessão carnal aproxima-se dela, para converte-la segundo a moralidade cristã, e consequentemente faze-la passar pelas mais duras provações. A sua intenção é conseguida, apesar da relutância de Thaïs.
Levando-a para um convento, intensifica no caminho ainda mais os seus sentimentos carnais, enquanto esta vive na razão e consciência impostas. Chegados ao convento, despedem-se. Atanael fica atónito, percebendo que não voltará a vê-la.
Rene Fleming
Aria do espelho
vestida por Cristian Lacroix
Met 2008
Passam três semanas, e o monge é assaltado por sonhos eróticos com Thaïs. Enchendo-se de tal rubor, corre para o mosteiro para possuí-la carnalmente, ante a sua loucura. Chegando, encontra uma Thaïs moribunda. A sua motivação é cega. Esta morre e Atanael fica inconformado.Aria do espelho
vestida por Cristian Lacroix
Met 2008
Assim, a cortesã em santidade atinge a espiritualidade ascendendo aos céus, e Atanael o percurso inverso caindo no materilismo e desejo carnal.
Eva Mei e Michele Pertusi
Morte de Thaïs
La Fenice 2005
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Morte de Thaïs
La Fenice 2005
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Sampayo Ribeiro, Mário - Thaïs - Colecção Ópera - Editor: Manuel B. Calarrão, Lisboa, Agosto 1951






