Era um petiz, a pequena criança do tempo de algumas histórias aqui já contadas. Na verdade a idade em que o pequeno rapaz queria ser santo. Os domingos passava-os com uma prima viúva, ainda com 50 anos mal feitos, com quem durante longos anos na sua sala, sentado, num maiple (dizia-lhe, com certa distinção, corrigindo-lhe o trivial termo sofá) onde os pés ainda não tocavam no chão, assistia às matinés cinematográficas da RTP recheadas daqueles filmes dos anos 40, 50 e 60. Sem recordar-lhes os nomes em concreto, fascinado, recorda-lhes porém um rosto raiando beleza em torno de uns míticos e deslumbrantes olhos cor-de-violeta que vinham ocupar esse pequeno ecrã. De facto, Liz Taylor. A prima viúva dizia sempre:
- Já teve 7 maridos!
- Tantos, prima??? - respondia
- Sim, filho, 7 maridos... e está sempre a voltar para o mesmo!
Assim era, assim foi! (aqui) Fica dessa época a memória de Rhapsody, o primeiro que lhe lembro, em torno das aventuras e desventuras com o violinista Paul Bronte que até em Lisbôa (aqui) deu um concerto.
No tempo que o Escudo era dinheiro e os Contos eram a alegria e a felicidade de muitas carteiras, no princípio dos idos anos 80 do século passado, o meu saudoso avô, que era entre muitas coisas negociante de vinhos, recebia na sua adega compradores de vinho. Clientes certos ou sugeridos por afinidade de relações vinham de diversos pontos da região, da Costa de Lisboa e da Costa de Prata - usando termos da época -, já que de Leiria a Lisboa ou da Sarvinhos aos Vinhos de Colares tinha diversas relações comerciais. Dependendo do volume do negócio ou da simpatia o meu avô oferecia um petisco aos seus compradores: chouriços de sangue assados em aguardente vinica, provenientes da sua indústria de salsicharia e da sua caldeira de destilação.
Um dia recebeu um certo comprador que se fazia acompanhar de uma certa pasta preta (uma pasta de fecho eclair idêntica a tantas outras como uma que o meu avô tinha e que era exactamente igual). Cheios os garrafões de 5 litros e paga a compra achava-se a hora de sobre os tonéis da adega deitaram-se chouriços a arder num prato de loiça até ao point de tal se tornar a esperada apetecível iguaria. Manjar de adegas celebrando negócios, caro leitor, com copos de vinho a acompanhar enchendo-se repetidamente levando todos a um certa boa disposição que o meu avô gostava de cultivar, cativando assim os seus clientes e assegurando o seu regresso daí a meses. Exposto todo ritual, voltemos a concentrarmo-nos no tal comprador: enlevado com os copos e distraído com o carregamento dos seus múltiplos garrafões, despediu-se e deixou sobre um dos tonéis a tal pasta preta, e tal como a deixou assim ficou.
O tempo passou e cerca de um ano depois regressou à nossa casa o tal homem. Com grande trato mostrando grande aflição e cuidado, sem grandes revelações, perguntou se se lembravam dele pois tinha estado na adega há cerca de um ano a comprar vinho. Respostas afirmativas, perguntou se tinham achado uma pasta preta fazendo a sua descrição. O meu avô, sem nunca se ter apercebido deste acontecimento, disse-lhe que não, que efectivamente nunca ali tinha visto nada. Sem insistências, resignado e certo da sua perca o homem despediu-se cortesmente. Nesta altura passou no quintal o meu pai que lhe perguntou:
Pai: O que queria este homem?
Avô: Veio aqui perguntar se tinhamos encontrado uma pasta preta que diz que deixou na adega pr'aí há um ano.
Pai: Uma pasta?! Nunca lá vi nada, só mesmo a pasta do pai que tem estado sempre lá!
Avô (sem hesitações): Vai lá buscá-la!
Pai (já regressado): Tome!
Avô (pegando na pasta): Esta não é a minha pasta!!!... Corre à rua depressa, e chama-me o homem!
Bem ordenado, bem feito. Chegado à rua o meu pai faz alto ao homem que no seu carro já a trabalhar se preparava para arrancar. Uma vez no quintal:
Avô: Temos aqui a sua pasta. Se não fosse o meu filho nem sabia que aí estava!
Homem (rejubilando): Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo... Não sei como lhes agradecer. Há um ano que desesperadamente a procurava sem sucesso. Não imagina o alívio que é encontra-la, procurei-a por todo lado e já a dava como perdida (abrindo-a) pois nela tenho guardados 200 Contos!
Não devia ter mais de 12 ou 13 anos quando ouvi falar pela primeira vez da Callas durante a exbição na RTP da série Onassis: The Richest Man in the World (para quem não se lembra Raúl Julia era Onasiss e Jane Seymour Callas).
Na época, enquanto criança ávida e curiosa, assisti à sequela na íntegra e de entre os muitos excertos que recordo o que mais me causou impacto foi o da ida à ópera. Athina e Onassis, em Paris, assistem a uma das miticas récitas da Medea da Callas, que se vê assim introduzida na série. A mana, que tal como eu assistia religiosamente a este programa, já sabedora de algumas coisas, reconhecendo de quem se tratava, exclamou: é a Maria Callas!!!
Onassis: The Richest Man in the World
Anos depois, com Las 3 Divas, ganhei o meu primeiro disco no qual figurava a Callas. Cativado, deixando-me seduzir e envolver por esse encantamento fui descobrindo o poder do som que essa portentosa voz emitia. La Sonnambula de Bellini, do Grosses Haus di Colonia em 1957, comprada na desaparecida Strauss do Saldanha, foi a primeira ópera completa deste soprano que adquiri e que hoje se vê acompanhada por uma acumulada e variada colecção dos seus registos de árias, concertos e óperas.
Em 2005, peregrinei por alguns dos locais míticos das suas apresentações e depois de uma visita ao Scala, deambulando por Milão, encontrei num alfarrabista um eco histórico dos seus espectáculos nesta cidade: um programa de sala de Lucia di Lammermmoor e um outro de Medea, ambos da estação lírica de 1953-54.
Termino o dia escrevendo este post procurando o conforto na audição de um dos seus discos, Andrea Chenier (Scala, 1955 com Mario del Monaco e Aldo Protti), que escolhido ao acaso agora vou ouvindo assinalando esta memória que me é tão cara. . .
Caro leitor, esta é a história de um copo. De um delicado copo de vidro do mais fino e sensível material, decorado de desenhados motivos e feições graciosas e que se guarda como uma relíquia física entre uma das recordações de família. Seria apenas um simples copo, um copo de beber água engraçado e bonito, se envolto a ele não estivesse uma história por contar: a história de um copo oferecido por um alto diplomata do Estado Português a uma remota avó.
Uma lembrança e um sinal de amizade, o qual, por respeito ao seu ofertor, era apenas usado nas suas visitas à casa desta minha bisavó onde procurava para além de conversas um copo da fresca água da "Fontinha", como se outra não houvesse neste mundo e arredores. Um gesto simples, para quem simplicidade procurava!
(c) Santos & Santinhos
Numa tarde quente de um Junho como este, no ido ano da graça de 1945, Luiz Teixeira de Sampayo, como assim se ainda escrevia nesse tempo, distinto Sr. Embaixador do Estado português, dirigia-se ao Hotel Aviz, em Lisboa.
Luís Teixeira de Sampaio
Era uma figura de proa do regime do sr. Presidente do Conselho. Um seu testa-de-ferro no hábil jogo diplomático operado no tempo da grande guerra na moderação dos conflitos de interesses com a Inglaterra e a Santa Sé. Um filho da Sr. Viscondessa do Cartaxo. Um homem curioso e ávido de documentar a história que deixou escrita, em diversos estilos de prosa, com rara fluência e discernimento, delineada na frescura da sombra do seu pequeno paraíso, local mágico e agradável, a sua quinta do Casal do Nobre, na antiga Vale da Pinta, nas imediações do Cartaxo, onde se deixava ficar largas temporadas na companhia da sua irmã Júlia.
(c) Santos & Santinhos
(no espaço assinalado o frondoso arvoredo da quinta)
Quem conheceu este espaço por certo recorda o rico e frondoso arvoredo que compunha esta ilha imensa de recortes paradisíacos que tanto inspirou o Sr. Sampaio, não se achando difícil de o imaginar entre ele. Por todo o lado árvores de frutos sumarentos e árvores de frutos secos, árvores de beleza diversa e rara e árvores de sombra ou de lazer que guardavam o eco das recordações e das ricas memórias que provinham dos pátios que ladeavam o solar térreo. Este recatado albergue, refúgio destes dois irmãos, quando não se encontravam em Lisboa, era o retiro de despreocupações do mester nos Negócios Estrangeiros. Aqui, folgados e bebendo o ar perfumado das formosas sombras, iluminados pelo bem estar requintado de profunda inspiração cristã, entregavam-se à prática da caridade pelos desfavorecidos.
Júlia das Mercês, solteira como seu irmão, mulher ociosa, de convicções religiosas, como todas as "meninas" da sua condição, ocupava-se pelo seu olho de se certificar por si mesma a gesta que faziam. Conhecedora das necessidades e privações dos "jorneiros" da aldeia, nos tempos em que com ou sem guerra a austeridade era algo concreto de dura e impiedosa sentença, enchendo uma carroça de mantimentos descia à aldeia acomodando de bens substanciais quem nas sortes fora privado de trabalho - a jorna, caro leitor, redundantemente paga ao dia era a única garantia da subsistência diária (sem ela a privação, a precariedade e outras benesses que só à intimidade dos lares diziam respeito e que de boas coisas não constam no seu resumo). Júlia não conheceu o fim da Guerra. Também não conheceu esta contenda mais do que as descrições da imprensa, das ralações do conflito que adivinhava nos olhos do seu único irmão Luís ou nas conversas que ouvia entre este e o Ditador, em Lisboa quer nos recantos do Casal do Nobre. Partindo, deixou só no mundo quem mais não tinha do que esta defunta companhia. Luís, homem de emoções fortes e gosto pelas tradições, mantendo acesso o espírito da caridade, tal como antes e tal como sempre praticara, continuava a receber de braços abertos a população da aldeia que por vezes, e em certos dias, se deslocava em êxodo à sua quinta onde ao som da Banda de Música se desenhavam bailaricos espelhando no olhar do senhor Embaixador um brilho emocionado.
(c) Santos & Santinhos
Recepção do grupo da 1ª Comunhão
(Junho de 1931)
Nesse ido 4 de Junho, longe desta paisagem bucólica, local a que agora aspirava recolher-se de vez já que em breve lhe seria promulgada a aposentação, mas não sem antes lhe ser concedida a maior das honras que poderia receber ainda em vida: reencontrar a sua rainha, que desde 1910 se encontrava no exílio.
Desde o final de Maio de 1945, a Sr. D. Amélia de Orleans e Bragança, a última Rainha de Portugal, encontrava-se em Lisboa deambulando em romagem pelos locais onde vivera. Há muito que Salazar acenava à antiga soberana de Portugal solicitando o seu regresso à pátria, mas esta, após a morte de D. Manuel, seu filho, declinando o asilo num local que agora só lhe poderiam trazer espectros e sombras nada mais guardava de Portugal se não a recordação do melhor tempo em que lá vivera, aquele que considerava de bom e cheio de sorrisos. Que poderia ela fazer neste país sem rei? A que se dedicaria? Que causas abraçaria? Onde moraria?... As suas sementes sociais há muito que tinham dado largo fruto e como é óbvio o seu papel diplomático estava consumado desde a manhã republicana. Anos antes, aquilo que se creu num projecto de devolução do estado ao seu soberano, definhou com a sua morte no exílio. Mesmo com a boa vontade do Sr. Presidente do Conselho, haveria sempre neste rosto a mágoa e o pesar da difamação de pendor republicano que a apelidava de cobarde. Cobarde, para aquela que no Terreiro do Paço se elevou acima de qualquer um para com um indefeso ramalhete de flores defender os seus da feroz caçada que lhe abatera o marido e um filho. E era esta uma rara mulher de perfil humano, transcendendo para mais do que um depositário de esperanças de infantes reais. Se escapou ilesa ás balas, não escapou à tortura de uma longa vida em que certamente recordou em todos os dias o dia do terror, que em época recente pode ser visto e comparado com os piores acontecimentos que teimam em deitar o mundo que conhecemos abaixo. Durante 40 anos chorou baixinho no silêncio da sua câmara. Cerrando os olhos, ignorando a dor e o desalento, elevava os braços protegendo-se da memória do eco dos estampidos ressoantes que ainda lhe tangiam os ouvidos. Trágicas recordações. Agora, peregrinando na sua Lisboa e nos seus locais sagrados, que o Tejo havia limpo do cheiro da morte e do ódio, certificava-se de que era a única testemunha desse passado: a mais fiel e leal guardiã de um mundo que já não existia e que a seu ver, com o pragmatismo da sua proveta idade, não se reerguerá do túmulo onde está sepultado.
Malgrado este acontecimento de Estado, apesar de não ter revisitado o seu Alentejo, quisera ir a Fátima para no confronto de soberanas, em oração sentida, delegar à Rainha do Céus o seu luso poder matriarcal. Tal como o primeiro Bragança reinante das sortes da nação se entregou à mercê e protecção da Virgem de Vila Viçosa, oferecendo-lhe o título de Rainha e a Coroa de Portugal, Amélia, a última Bragança de poder, certa de deixar o mundo em breve, pela força da idade, sem herdeiros de conta, reitera num semelhante voto a esta moderna e divina soberana a guarda do seu povo, certa de que este a acarinhará como elemento de união acima de qualquer força terrena.
Recepção em Fátima (08 de Junho de 1945)
Conduzido pelo seu chauffeur, Teixeira de Sampaio, sobe agora a avenida. Pensa no quanto seria bom se a sua irmã Júlia, tantas vezes a figura feminina a seu lado nestas ocasiões, ali estivesse. O calor da tarde enfada-o particularmente neste dia. A sua comoção é grande e o seu coração palpita com velocidades nervosas. Afoito, desejava a brisa da calma e perfumada fragrância dos pinheiros da sua quinta, já que as Jacarandeiras da Avenida, reforçavam o abafado calor. Sequioso, saliva pela frescura dos seus espaços maiores... mas tudo isso está lá longe num recanto da província ribatejana. Atabalhoados pensamentos, recortes de mil coisas da política, de uma vida e do trauma do stress da guerra que há pouco assinara o armistício. Sente-se um amanuense descontrolado pela confusão que reina em si. O Calor provoca-lhe a ansiedade e maiores tonturas. Discorre nas suas palpitações aceleradas a emoção a que vai ao encontro, controlável pela experiência da sua agilidade mental à boa maneira de ser de matizada educação senhorial à inglesa. Assim acreditava e assim pensava ser, mas não neste dia.
No Hotel Aviz, o melhor da Lisboa fascista, hospedara-se a Sr. D. Amélia.
No dia 4 de Junho de 1945, em cerimónia casual, receberia numa das salas deste edifício os seus correligionários e simpatizantes da causa monárquica. Alguns dos que conhecera ainda estavam vivos. Outros, desaparecidos ou ausentes, faziam-se representar pelas gerações seguintes herdeiras de títulos e pergaminhos bacocos revigorados nessa tarde. Nas salas reinava uma nervosa e frenética expectativa. De toilettes a estrear, o chic e o elegante impunham-se neste suado beija mão à antiga. Com graça e descontracção, sentada num trono improvisado sem palanque e baldaquino, Amélia, rodeada pelos convivas, cumprimentava, trocando breves palavras de esperança em saudações elegíacas em sinal do passado.
Recepção no Hotel Aviz
(04 de Junho de 1945)
"O Sr. Embaixador Teixeira de Sampaio..." anuncia o cicerone.
Amélia serenamente agradada com este manifestado comité, procura reconhecer agora o rosto do anunciado esboçando um régio sorriso. Aproximando-se, em passos cuidados, com os olhos postos na anciã figura, atordoado pelas arritmias que o traem na solenidade de cada passo, Teixeira de Sampaio avança. Comovido, respira ainda mais fundo procurando aliviar o seu estado. Ruborizado, eleva a sua mão ao coração, antes de a estender cerimoniosamente à sua rainha. Num descontrole controlado, deixa-se cair. Para muitos não constitui admiração, perante tantos exaltados que antes haviam-se manifestado com tal paixão, na desculpa por tantos anos de ausência. Teixeira de Sampaio, ajoelhado como um cavaleiro, tentando manter a postura, agarrado à mão da régia senhora, julgando assim acalmar-se, diz-lhe:
"Perdoe-me minha senhora, mas estou a sentir-me mal!"
Dito isto, caiu no chão morto. Uma síncope cardíaca fulminara-o ali naquele exacto momento. D. Amélia, assombrada, rodeada de fantasmas e pânico, mais tarde lembraria: a morte, sempre a morte!
Posto este acontecimento que poucos hoje guardam, um copo de água foi religiosamente guardado para nas gerações seguintes testemunhar o apreço, a amizade, a lembrança, assim como o bom coração, do único homem que por ele bebeu.
Para um ABC da vida, hoje lembro uma história imortal, com os bons 200 anos, com um assunto bem fresquinho à nossa época, aqui deixada antes de ir dormir simplesmente porque tive de a ler de fio a pavio, uma vez que não havia por cá ninguém que me a narrasse em voz alta embalando-me o sono. Com comentários jocosos, aqui vai:
A PRINCESA EM CIMA DE UMA ERVILHA
OS CONTOS IMORTAIS
de Hans Christian Andersen
Era uma vez um príncipe que queria desposar uma princesa,(1) mas uma princesa verdadeira.(2) Assim deu a volta ao mundo para encontrar uma, e, na realidade, não faltavam princesas; (3) o que não se podia assegurar era que se tratasse de verdadeiras princesas; havia sempre algo nelas que lhe parecia suspeito (4). Por consequência, regressou muito deprimido, por não ter encontrado aquilo que desejava. (5)
Uma noite, fazia um tempo horrível, os raios entrecruzavam-se, o trovão ribombava, chovia a cântaros (6)- era pavoroso. (7) Alguém bateu bateu à porta do palácio e o velho rei apressou-se a mandar abrir. (8)
Era uma princesa, mas, santo Deus, em que estado a chuva e a tempestade a haviam posto! (9) A água escorria dos seus cabelos e das suas roupas, entrava-lhe pela biqueira dos sapatos e voltava a sair pelos tacões. (10) Todavia, afirmou ser uma verdadeira princesa. (11)
"Isso é o que vamos ver!", pensou a velha Rainha. (12) Depois, sem dizer nada, entrou no quarto de dormir, tirou os lençóis e os colchões e colocou no fundo da cama uma ervilha. Em seguida, pegou em vinte colchões e estendeu-os sobre a ervilha, sobre os quais empilhou ainda vinte cobertas. (13)
Era a cama destinada à princesa. (14) No dia seguinte, pela manhã, perguntou-lhe como passara ela a noite: (15) - Muito mal! - respondeu -; mal consegui fechar os olhos toda a noite! Deus sabe o que tinha a cama; era algo de duro que me pôs a pele toda roxa. Que suplício! (16)
A esta resposta, reconheceram que e tratava de uma verdadeira princesa, pois sentira uma ervilha através de vinte colchões e vinte cobertas. Que mulher, a não ser uma princesa, poderia ter uma pele de tal modo delicada?(17)
O príncipe, completamente convencido de que esta era uma verdadeira princesa, tomou-a como esposa e a ervilha foi posta no museu, onde se deve de encontrar ainda, a não ser que um coleccionador a haja roubado. (18)
E aqui está uma história tão verdadeira como a princesa!
1 - Ora nem mais, uma alegre redundância cheia de verdade pois os príncipes antigos não casam com qualquer uma, apesar de terem feito uma manada de filhos ás camponesas e outras desgraçadas que apanhavam pelo caminho, em noites próximas à Lua-Cheia, ou a umas quantas de outras condições mais elevadas que não podendo ser-se consideradas desgraçadas, chamar-lhe-emos Helenas de Tróia - Tróia em italiano quer dizer mulher leviana que troca o marido por amantes, logo p...;
2 -Um verdadeiro problema em qualquer época. Em todas elas sempre houve umas aldrabonas querendo fazer-se passar pelo que não são. Vestem Gucci, calçam Vuiton, cheiram a Hermes e tem a cara lavada atolada de cremes da Estee Lauder e afins, mal comparado é como o homem português actual melhorado, qual C. R. - o príncipe mediático do momento;
3 - Quem pode pode, nem que o mundo seja apenas Lisboa, Porto e Algarve... em diante;
4 - sic (ponto 2);
5 - Tivesse ele um computador e banda larga e era só visitar umas quantas redes sociais;
6 - Chover a cântaros ou chover picaretas , lá diz o povo português - havia de ser bonito, se tais pedaços de ferro caíssem em vez da chuva. Prefiro a refinada frase de sabedoria popular british: choviam cães e gatos;
7 - Estou tão apavorado com este temporal, que não mete medo a qualquer criança que seja, que já não durmo esta noite;
8 - Hoje, já não há gente como esta. Assim nos dias que correm, a pobre rapariga haveria de bater e bater até cair para o lado e apanhar um bela gripe - como a da moda inverno 2009/10. Digamos que seria uma princesa loira verdadeira, para não se lembrar de usar o telélé;
9 - Nestes reparos, deveria ser algo como um Miss tshirt molhada - este Rei é sabido;
10 - É que dá ser-se vaidosa e usar sandálias em tempos esquisitos - ainda que sejam Manolo, ou qui ça numa versão low bugget, Havaianas;
11 - Enfim, verdade ou não é sempre um direito que lhe assiste, ainda que seja uma vil mentira;
12 - Haja por fim uma pessoa com 2 palmos de testa nesta história, o terror de futura ou ex-futura-sogra;
13 - Terá feito a velha rainha esta tarefa Hercúlea, sem ajudas ninguém? Convenhamos, uma rainha já foi uma fresca princesa ociosa e caprichosa. Será que no final de velha é que lhe deu para trabalhar?;
14 - Que maldade. Ninguém merece!;
15 - Uma Cruela Deville, esta rainha;
16 - Nada exagerada esta princesa... exagerada e malcriada, agradecer a hospitalagem "tá quieto ó preto";
17 - E esta, hein?!?! Que belo teste este! Vou começar a faze-lo às minhas pretendentes;
18 - Diz-se que a tal ervilha afinal era um diamante precioso. Junto com outras jóias foi levado a uma exposição na Holanda e depois disso: Abacadabra... como por artes mágicas; 1, 2 3 nunca o mais vês... e puff, diz-se que foi roubado. Há quem diga que foi vendido para pagar os problemas de divida externa do tal país. Qui ça!
ANTES DE INICIAR AO QUE ME PROPONHO, COM A ABERTURA DESTE BLOGUE, GOSTARIA, COM A VOSSA PERMISSÃO, DE CONTAR UMA PEQUENA HISTÓRIA. CERTAMENTE ASSAZ INSIGNIFICANTE, PORÉM SENDO ELA PESSOAL, MARCA O PERFIL QUE ACOMPANHA O SEU VIVENTE PERSONAGEM, QUE AQUI, DESTA FORMA, A DEPOSITA:
Era uma vez...
um pequeno rapaz que queria ser Santo!
Mas como ser Santo?
Pensava ele...
Achava-se com sorte: Desde muito menino que ia à missa, pela mão da sua avó. Para ele, na sua tenra imaginação, esta era muito amiga da Nossa Senhora da Graça – achando mesmo ser daquelas amigas do "tu cá, tu lá".Só podiam, e era um dogma, pois era a avó a dona da Santa Senhora (havendo inclusive, uma clara distinção entre todos os Santos, que eram de Deus, e aquela, que era da avó). Era a avó, e mais ninguém, aquela que cuidava da Senhora. Era a avó que tomava conta das suas vestes, perucas, coroas, ornamentos e jóias - guardadas num baú da sua casa da costura. Era a avó que a tirava do altar. Era a avó que a despia, vestia e punha no andor. Era a avó que lhe trocava, secretamente a cabeleira, para que ninguém lhe visse a careca – todos estes gestos nos maiores e seculares preparos e cumplicidades, outrora ensinados pela mãe da avó (mas isso é outra história). Assim, o pequeno rapaz, achava-se já encaminhado de ser Santo, por osmose a esta tão grande amizade, corroborada pela tradição de família. Mais! Estava mesmo tão convencido disso, por na Igreja a avó ter uma cadeira só sua e um genuflexório só seu – quantas vezes não a viu “por a correr”, despudoradamente, outras senhoras que tinham a ideia de se lá irem sentar. Era irredutível, e tudo corrido a "Bardamerda". Pois tudo era dado e abençoado pela Senhora da Graça, que lá do seu altar, mesmo à esquerda do tal lugar, nos sorria, enquanto que no colo da avó o pequeno rapaz bocejava e se espreguiçava, e o Padre A... no altar proclamava o Senhor.
Nª Srª da Graça
(A Padroeira do Blogue)
Por volta dos seus 5 anos, a questão tornou-se séria! Gostava de Santos, e sentia-se confortável com visitas a Igrejas. Tinha afeição por Imagens e Procissões. No Verão, na companhia do pai, eram inúmeras as que visitavam e percorriam.
A percepção da vida, com a chegada da idade da razão, começou-lhe a trazer as primeiras questões. Coloca-se o primeiro dilema:
“Afinal ser Santo é: Ser estátua e estar num altar, ou é ser homem?"
Enquanto não esclareceu isto, o pequeno rapaz brincava mimetizando as estátuas que via, sacras e profanas. Uma tarde num jardim, imitou todas as estátuas das 4 estações e outras Ninfas Desnudas, enquanto o pai o fotografava, e a mãe o repreendia, por não se estar a deixar fotografar, como normalmente.
Aos Domingos acompanhava a prima D… em visitas de caridade. Uma vez na sala da casa de uma senhora, sozinho, enquanto via na televisão "The Love Boat", brincava com as almofadas do sofá, simulando ser a N. Sr.ª da Graça a ser vestida e despida pela avó. Porém não deixou de reparar, que num canto estava uma peruca... Surpresa das surpresas, era o cabelo da senhora a quem foram visitar, que o usava só quando saía à rua. E sobre isto... mais não se conta!
Porém tudo foi evoluindo.
Eram a primeira Semana-Santa e Pascoa, da idade da razão. Na televisão contava-se a vida de Cristo, pela película do Zeffirelli. Eram os grandes serões familiares. A avó, a única autoridade para isso, afastando toda a concorrência, lia as legendas até se cansar. E se no cansaço, alguém retomasse... lá voltava ela à carga! Aí, estavam os pais, os manos, os tios e os primos, a prima L… e a prima G…. Absorvido, via e assimilava tudo aquilo. Porém, melindrava-o um facto:
“Como é que eles tinham filmado aquilo...
se tinha sido há 2 mil anos?”
Então o pequeno rapaz chorou a morte do Senhor, e chorou compulsivamente todos anos sempre que se repetia esta série, percebendo assim que ser Santo era ser Homem. Decidiu-se então ter como modelo o Senhor, sabendo porém que há muito que já não haviam crucificações.
Curioso e ávido de maiores e profundos conhecimentos foi-se questionando e correndo a família toda, foi inquirindo quem, por sabedoria, os soubesse! Foi a casa da sua tia L... e perguntou-lhe:
“ – Ó tia! O que é preciso fazer para ser-se Santo?"
Estupefacta, mas nada surpreendida, com mais uma das insólitas perguntas do seu pequeno sobrinho, tentou explicar-lhe como soube enchendo-o de mil advertências, das quais se lembra do seguinte:
“ – Ser Santo... é ser um homem de virtudes."
Em casa da prima D…, enquanto esta costurava, colocou-lhe a mesma questão. E assim foi - histórias e respostas para tudo era mesmo com a prima D...! Em longas sessões, em múltiplas e longas tardes, acompanhados pelo som ritmado e incansável da sua “Oliva", e pelos "Parodiantes de Lisboa", que saíam da sua pequeníssima telefonia, a prima D... foi fazendo crescer e brilhar os olhos do pequeno rapaz, explicando-lhe tudo quanto ele almejava saber - interrompidos pontualmente pelo célebre anuncio que ambos, rindo, recitavam em coro:
“ – Menina, que Polos conhece?”
“ – Conheço o Polo Norte, o Polo Sul e o Polylon!”
“ – Poly… lon?”
“ – Ai que o Sr. Professor não sabe! Polylon são os fechos de correr que a mamã usa. A mamã e as outras senhoras!”
A partir de então, o pequeno rapaz, convencido de ir a caminho da santidade, começou a brincar ás missas. Com as bonecas velhas da mana, fez Santos. Improvisou num espaço uma capela. Recrutou o mano, os primos, uma vizinha e uns quantos rapazes que lá iam para casa brincar, alinhando todos participar nas Missas e nas Procissões, que seguiam pelas ruas, e que só aconteciam no Verão.
O caso tornou-se público. Na rua, as vizinhas e a prima A..., diziam:
“ – Bartolomeu, tens de ser Padre...”
Ao que respondia, birrento e choroso:
“ – Eu não quero ser Padre, pois quero casar e ter filhos!”
Elas retorquíam, rindo:
“ – Então vais para Padre Protestante…”
Ao que respondia:
“ – Não quero, eu gosto é de ser católico!”
Um dia porém deu-se inesperadamente a Epífania final!
Enquanto assistia na televisão ao São Francisco do Zeffirelli (sempre o Zeffirelli quer naquele tempo quer hoje, grande paixão!) – Fratello Sole, Sorella Luna –, eis que, segundo a veracidade dos acontecimentos, Francesco se despoja totalmente das suas roupas, na praça de Assis e assim, despido, caminha saindo da cidade.
Atónito, o pequeno rapaz dispara a pergunta:
“ – Oh, 'vó! Para se ser Santo é preciso fazer aquilo?
Resposta:
“ – Sim!”
Sem ter percebido, que se tratava de uma resposta metafórica ficou estarrecido e indignado. Sentiu-se mal! Sentiu-se incapaz! Se para se ser Santo, se teria de prestar tal prova, jamais o seria. Jamais seria capaz de fazer o mesmo: A vergonha da nudez era elevada. Jamais se despiria. Jamais atravessaria a sua aldeia despido - mesmo que a sua vizinha S... fizesse de Clara.
Durante uns tempos meditou sobre o assunto, sem achar forma de contorna-lo.
Se ainda fosse uma nudez parcial... Como a do Senhor!
E se o fizesse: Quanto tempo tinha de se mostrar despido? Quantos metros tinha de andar? Por quanto tempo? Quem iria cobri-lo? Como e quando? E a sair de casa, para onde iria?
Chegou a pensar: e se for de noite?... sempre seria menos exposto?
Enfim, era demasiado para aquilo que pensava. Até achava poder ser simples... mas onde estava a coragem para se despir até à nudez, que nem na praia, em idade pueril, era capaz de expor! Não! Vexado, desacreditado e desiludido, para ele, tudo tinha caído por terra!
Nunca encontrou solução! Deixando-se vencer, deixou de pensar no assunto e começou a tentar ser um rapaz normal!.