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1 de dezembro de 2008

HINO DA RESTAURAÇÃO





Música:
Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida

(1826 - 1898)

Poema:
Francisco Duarte de Almeida Araújo
e
Francisco Joaquim da Costa Braga








Lusitanos, é chegado
O dia da da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Ás armas, ás armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.


Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
"Sempre, sempre te amarei"
O povo diz a Bragança
"Sempre fiel te serei"

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta c´roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.

Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemispherios
Tem mil povos dominado!

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...



Esta música foi composta em 1861 sobre o poema intitulado de comédia-drama, com o nome 1640 ou A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA, para ser apresentada no Teatro da Rua dos Condes (antigo Cinema Condes, hoje Hard Rock Café). Com dedicatória ao Rei D. Pedro V, foi estreada no dia 29 de Outubro desse mesmo ano, no dia do aniversário natalício de sua majestade o Rei-Viúvo D. Fernando II.


Frontispício do Libreto
(3ª peça dramática, pág. 84)


Na trama desta opereta, para melhor denominar o género musical em questão, dado nem todo o texto se encontrar musicado, numa combinação de partes cantadas e diálogos, o trecho musical correspondente ao hino é o momento que encerra esta peça musical.

A cena final, a coroação de D. João de Bragança como rei de Portugal, é recriada seguindo os protocolos, juramentos, vivas tal como o descrevem os escritos da época e conforme os quadros que se encontram no Palácio Nacional da Ajuda. Entre cada par de estrofes seguem-se em cenas faladas a dramatização das tais recriações, que constituíram a única coroação em cerimónia pública de um soberano português perante o entusiasmo do povo.



Sendo música de carácter marcial, apropriado por isso ao registo das bandas militares e filarmónicas, foi adaptado pela então recém-criada Sociedade Histórica da Independência de Portugal, como hino oficial das comemorações das festas da Restauração, para a execução em conjunto com o Hino Nacional vigente, na inauguração do monumento que esta sociedade fez erguer na praça que se passou a designar de Restauradores.

A partir de então, e por imitação a estas celebrações que se passaram a ser assinaladas anualmente por todo o país como festa regimental civil, a sua divulgação tornou esta peça musical num dos mais estimados Hinos populares portugueses (ao lado do Hino do Minho, vulgo Maria da Fonte, do maestro Frondoni - criado em circunstâncias semelhantes, e adaptado na altura dos motins).

Durante o Estado-Novo, em consequência de alguns procedimentos herdados da 1ª República, no cessar ou transformação de acontecimentos, instituições, edifícios públicos, religiosos e civis e formas e agentes culturais populares e eruditos associadas à monarquia, com o foi o caso da festa da Restauração para a festa para da Bandeira Nacional,
já que este era uma celebração incontornável dada a popularidade que se atingiu com este acontecimento, sobretudo na criação no imagético português (como ainda nos anos oitenta do século anterior se arreigava às crianças e estudantes nas aulas académicas de história) do eterno Lusitano a pontapetar o Castelhano na alusão do pequeno mas valente. Assim, quando na criação da Mocidade-Portuguesa este hino foi adoptado por este ideário como um dos seus hinos/cânticos, a antiga letra viu-se convenientemente alterada, perdendo-se daí em diante o carácter e a memória da intenção dos versos originais.

Só mesmo aqui aqui é que hoje não se ouviu o "1º Dezembro". Por todo o lado, como tive notícias, houve execuções populares do hino de mais ou menos carácter - graças a Deus e aos sentido patriótico que ainda parece existir, e, que ontem lastimava como ausente. Na certeza do silêncio da noite de ontem acabei por me deixar dominar pelos sentidos abandonando a razão. Afinal, parece que ainda existe esperança!








A NOITE DA RESTAURAÇÃO




É quase meia-noite!

Não há muitos anos, esta era também uma das maiores noites do ano. Passados 368, a alegria desta festividade parece injustamente esquecida ou adormecida!

Cerca de 346 anos depois, o pequeno rapaz, vivenciou por alguns anos a manifestação popular do orgulho patriótico luso, que hoje ou desapareceu ou está ausente das pessoas! Existia o gosto em ser português. Existia o gosto em sermos, um povo valente que passou a vida em gloriosas escaramuças com os espanhóis, das quais Portugal era sempre o vitorioso! Isto dizia-se e ensinava-se na escola. Hoje não sei! É só futebol... Futebol, Mini's, Daniela Cicarelli e Cristiano Ronaldo!

Após o jantar, as pessoas não íam dormir. Esperavam ansiosamente a Banda de música vir alvorar com seus instrumentos, por volta da meia-noite, o patriótico Hino da Restauração. Mal se sentiam as toadas musicais, a família vinha á porta ver a Banda passar, e fechando-a, lá a seguiam felizes e contentes, passeando pelas ruas acompanhando e cantando: lá, lá, lá, lá... Era assim em todas as ruas, em todas as casas e em todas as famílias. Enquanto a Banda, com a população atrás, dava "a volta" da procissão!


Era algo semelhante a isto.
A mesma musica, a mesma sonoridade, a mesma disponibilidade e alegrias contagiantes


Memorável foi uma véspera de 1º de Dezembro em que o "Macaco" – alcunha masculina – causou espanto em toda a população. Ouvindo a Banda tocar, já deitado, corre à porta em ceroulas onde fica especado. De ceroulas e com o boné do dia a dia na cabeça – único elemento que o cobria da vergonha, da sua quase nudez (apesar de vestido da cabeça aos pés). Para ele era como estar vestido, para os outros regozijo exacerbado, expresso em sonoras gargalhadas. Assim sentia-se invulnerável, podendo ver a Banda passar, para os outros era a história: “ O Rei vai nu”. A toda esta panóplia juntam-se os gritos da sua alvoraçada mulher, que de dentro o chamava com a caricata austeridade popular, enquanto, este, louco que nem uma criança, esboçava sorrisos de autêntica e genuína felicidade, por ver a banda passar! Durante anos não se falou noutra coisa!


Ceroulas ou Ciroilas


(Com brasão real, para dignificar aqui o homem

que orgulhosamente assistiu de ciroilas ao 1º Dezembro.

Os outros também as tinham, é certo. Mas debaixo das calças!)


Por fim, na Casa da Musica, como aqui chamavam à Sede da Sociedade Filarmónica, os músicos tocando entretinham as pessoas, até à debanda. As pessoas dançavam, ao som das marchas – pois não se ouvia outra coisa – e os homens encostavam-se ao balcão do bar, bebendo copos de vinho. Vinho tinto, por excelência! As crianças, como o pequeno rapaz, viviam e bebiam destas estranhas formas culturais aos olhos dos dias de hoje!


Hoje já nada disto existe. A noite de 1º Dezembro de 2008 permanece fria e silenciosa!


Amanhã ouviremos, no evento assinado pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, os habituais discursos e as justas homenagens – acção criada em 1861 por Alexandre Herculano, para perpetuar na memória portuguesa o nobre feito dos 40 restauradores. Escutar-se-ão A Portuguesa, republicana, e o Hino da Restauração junto ao monumento evocativo na praça dos restauradores. E assim será oficialmente mais um 1º Dezembro.

Esperem... Afinal já passa da meia-noite... Viva o 1º de Dezembro!






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