.
Chegou Agosto anunciado pelo calor que se tem feito sentir nas últimas semanas. Com eles amadurecem por fim nos campos sumarentos melões e frescas melancias para nos virem num anafado repasto melar a alma e a mente.
É verdade que é este o tempo da melhor fruta e este é o tempo em que esta corre por aí ao desmazelo. Muitas e muitas vezes vendida na beira das estradas, à causa do tanto milagroso e proibido excedente da fartura produtiva, caçando o viandante condutor pelo olhar, convidando-o a parar. No meio dela, perdido como no antro de Creta, sem norte, sem eira-nem-beira o apanhado sequioso, cheio de gula, já num acto de pura fornicação e luxuria, apalpa e certifica-se munindo-se epicamente nesta escolha mercantil por largas semanas como se fosse entrar ante um torrente gozo diluviano.
Caro leitor, é o regalo da fruta franca que mata o calor mas nunca a sede.
É o prazer adquirido de tantas formas e feitios apanhado à mão pelo gesto do homem, retiradas do pomar ou da terra... Em súmula, faça-se aqui agora, apenas hoje e com curta excepção, uma pequena vénia à sageza do ilustre poeta-cantor-acordeonista popular, de condão brejeiro e pernicioso:
É verdade que é este o tempo da melhor fruta e este é o tempo em que esta corre por aí ao desmazelo. Muitas e muitas vezes vendida na beira das estradas, à causa do tanto milagroso e proibido excedente da fartura produtiva, caçando o viandante condutor pelo olhar, convidando-o a parar. No meio dela, perdido como no antro de Creta, sem norte, sem eira-nem-beira o apanhado sequioso, cheio de gula, já num acto de pura fornicação e luxuria, apalpa e certifica-se munindo-se epicamente nesta escolha mercantil por largas semanas como se fosse entrar ante um torrente gozo diluviano.
Caro leitor, é o regalo da fruta franca que mata o calor mas nunca a sede.
É o prazer adquirido de tantas formas e feitios apanhado à mão pelo gesto do homem, retiradas do pomar ou da terra... Em súmula, faça-se aqui agora, apenas hoje e com curta excepção, uma pequena vénia à sageza do ilustre poeta-cantor-acordeonista popular, de condão brejeiro e pernicioso:
Em Agosto tudo entra a gosto...
pois assim é com o deglutir da fruta boa, está claro. Porém, olhando em volta pergunta-se, ante um clamoroso brado emergente:
Onde está ela? Ó da fruta... ó da fruta boa!
É já sonho, é fantasia! A verdade que hoje nada disto já existe e esta promiscuidade de boa saúde é zelosamente vigiada por leis e outras minundências madrastas. Por cá, caro leitor, num gesto repetido, no abrir e fechar da boca, perdido neste bom pensamento, suspiro e vou esvaindo-me em saliva escorrente, ante a visão de um fausto passado suculento que só a memória guarda. Que saudades da pêra rocha pequena, tão doce de sabor a mel, um dos maiores artefactos de confeitaria que Ceres nos dotou e que só a mãe natureza deste nosso solo pátrio sabe produzir, com tal espírito e requinte; e já agora, caro leitor que partilha esta saudade comigo, apesar de vast0, embora relacionado, 0nde andam os carapauzinhos para fritar, dádivas do sr. Neptuno para melhor acompanhar um arroz de tomate... eis-nos, caro leitor, na pertinente questão ou seja no ponto fulcral deste rosário: onde encontrar hoje tudo isto?
Dos cerejais, perais, meloais, melanciais, ameixiais, pessegais, figueirais ou qualquer outro pomar de fruta estival estas ganharam outros rumos que desconhecemos. De certo uma estima e caminho idêntico que levaram as Lusas, no mercado internacional: tudo desbaratado. Curioso que em Londres, no Harrods, se vende fruta portuguesa como produto gourmet a preços incomensuráveis, desde a pequenina à graúda.
Por cá nada se sabe dela, sendo o seu paradeiro uma das maiores incógnitas dos nossos dias... De certo ganhou pernas e pôs-se a andar. Sabe-se somente que anda por aí, algures, de bom nome ou disfarçada!



