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10 de março de 2011

CONVERSAS À MESA!

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Quiz gritar mas faltou-lhe a voz para chegar tão longe. Não era de grito a distância mas surdo mostrou-se -lhe o caminho. Imóvel permaneceu. Contado o pulsar que lhe percorria a cabeça e que lhe levava o coração a tão alto sítio, como se dele fosse explodir vaporizando-se pelo espaço sem nele deixar nódoa, deixou-se estar. Pestanejou. As conversas mudas eram também surdas e sem graça tudo lhe sorria de enfado exclamando: é a vida! Em silêncio falou com os seus mudos dedos... por fim exclamou: ó rapaz!...  sem delongas,  o mundo falou-lhe rompendo-lhe a surdez das suas moucas orelhas: são 7 €! Ainda olhou a tv, mas esta não lhe deu "cavaco". Levantou-se e saiu à rua. Andando achou-se em discussões existências com uma alheira que lhe deu conversa a tarde inteira.
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15 de dezembro de 2010

UN RICORDO... QUE AFINAL SÃO DOIS OU TRÊS

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Não foi por esta razão do que aqui vou escrever que elaborei este post. Aqui todos os post sucedem-se como um encadeamento, uma história ou um resumo de algo que habitualmente se encerra e segreda a um diário. 

R. Fleming é de facto para mim uma boa recordação. Tive uma esmerada educação musical ouvindo e assistindo em anos consecutivos os concertos da Gulbenkian. Um deles foi precisamente deste soprano. Não cantou esta ária sacra, mas cantou outras que nos encantaram a todos quantos nesse fim de tarde a foram ouvir... desses, estava uma saudosa figura lisboeta que só sei recordar por associação a estes concertos: o ilustre Zé Manel das Muletas, helás!

O Zé Manel das Muletas para mim era e foi sempre um senhor que como eu frequentava os concertos da Fundação Gulbenkian sendo comum encontra-lo nos espectáculos que continham musica vocal, como os concertos corais-sinfónicos ou os recitais de canto; e por ser aquele homem que esbaforidamente nos aplausos finais gritava bravos que ecoavam por toda a sala e que obrigavam as pessoas a cochichar dizendo: "está cá o Zé Manel das Muletas!"

Da mesma forma que era comum encontrá-lo na sala, também era comum avista-lo na fila para os autógrafos aos quais não se coibia como um prémio triunfante a receber. 

No dia do concerto da R. Fleming o Zé Manel das Muletas era a pessoa que me precedia na fila. Entrando, num inglês de invejável fluência, cortejou o soprano até às lágrimas. De facto, caro leitor, foram verdadeiras lágrimas. Comovida, R. Fleming lacrimejou nas palavras deste homem que foram mais ou menos estas:

"Cara Senhora, é para mim uma grande honra poder tê-la ouvido. Gostei muito desta ária, e daquela também. Porém, o maestro não a compreende: estragou-lhe a Rusalka... é um vil, um canalha..." 

Aqui R. Fleming exaltou-se e exclamou: Oh my God! E sem pronunciar uma palavra, olhando-nos, dizia pelos seus inquietos olhos: por favor, calem-me este homem! Ciente da perturbação, Zé Manel das Muletas retomou para agora repor a ordem: 

"Não se assuste cara senhora, a minha adoração por si é tão elevada que só poderia protege-la.  Não vim aqui para insultos, só digo o que acho e esta é a minha verdade. Qualquer nota cantada por si é um balsamo para os meus ouvidos, e, revolta-me que tais maestros façam tão pouco às cantoras como a senhora. Repare, olhe o meu aspecto... sabe, eu sou uma pessoa doente. Todas as noites sofro dores inimagináveis pelo mal que padeço. Ouvi-la, como muitas vezes a oiço, é nesse momento conseguir esquecer todo o sofrimento e entrar no paraíso. De resto muitos parabéns pelo magnifico concerto que hoje concretizou o meu sonho de poder vê-la e ouvi-la."

Posto isto, agradecendo uma vez mais, recebeu o autógrafo e retirou-se acompanhado pelo som da chiadeira das suas muletas, deixando este rendido soprano emocionado.
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