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15 de abril de 2009

AO MIGUEL SOUSA TAVARES - AINDA POR EQUADOR....


Instigado por um leitor do blogue, retomei a leitura do exótico Equador do nosso Miguel Sousa Tavares. Desta vez com um olhar atento, incrédulo, deparei-me na obra com erros de inconsistência histórica de proporções mini-Dantescas de fazerem rubor ao autor, e, que envergonhariam o mundo da razão porque evocam Crasso!

Caro Miguel, nada tenho contra si e há muitos anos que o admiro - desde os tempos da parceria com a Margarida Marante. Porém, o que aqui vou escrever é em detrimento do seu livro e de si, enquanto autor, certo que em nada este comentário vos abona. Direi no entanto que a obra, pelo que tem de bom, merece ser quanto antes rectificada de tal erro. Assim transcrevo a passagem:

"E, como também para falar de musica lhe faltavam interlocutores, explicou ao Sebastião que o que tanto impressionava a audiência era uma ária chamada "Era la notte", de uma ópera chamada Otelo, cantada por um napolitano de seu nome Enrico Caruso..."

Equador, pag. 151

Lamentavelmente o Sr. Miguel Sousa Tavares, tal como os guionistas/sonoplastas da série, não se prestou a estudar o assunto com rigor jogando nomes, títulos e gravações ao acaso. Sem um aprofundamento prévio da questão, depois de outros assuntos aparentemente tão bem estudados, parece banalizar o que lhe parecera trivial e de fácil construção, criando uma falsa aparência de distinta eloquência erudita Queiroziana, desta, conduzindo o público português ao engano, quer sobre o assunto quer sobre os pseudo-doutos conhecimentos do autor - o Eça nesse campo nunca falharia. De ópera e afins sabia tudo até as mais ínfimas "tricas". Em Lisboa, Paris ou onde quer que fosse por esse mundo fora, a ópera era a sua segunda casa, chegando ao ponto de ter assistido no Cairo à estreia da Aída de Verdi. Já o Sr. Miguel Sousa Tavares nunca é visto em São Carlos, na Gulbenkian ou no CCB, portanto não há admiração.

Uma consulta aos volumes do Dr. Mário Moreau e a algumas das obras do Prof. Mário Vieira de Carvalho resolveriam a questão, assim como creio que os doutíssimos Prof. Rui Vieira de Nery ou Paulo Ferreira de Castro não lhe negassem a qualquer ajuda numa consulta ou esclarecimento. Por outro lado, qualquer Fnac possui registos desta época a preços acessíveis - como a Naxos ou a Nimbus, só para citar algumas editoras que reunem o espolio da Pathé, da Victor, da Columbia ou da celebérrima His Master's Voice
.

.............

"Era la notte", também conhecida como ária do sonho (do falso sonho de Cássio murmurando por Desdemona), é realmente um trecho da ópera Otello, de Verdi, interpretada nunca pelo Tenor (Otello), mas sim pelo Barítono (Iago) - e Otello escreve-se com dois L, fazendo-se jus à doppia italiana, esquecida pelo autor do Equador. Neste trecho, Iago com perfídia e maldade ludibría Otello, que se deixando levar pelas falsas intrigas deste se arrebata em loucos ciúmes e ira contra Desdemona e Cássio.

Se nesta época Caruso era o Tenor de excelência, Titta Ruffo era o Barítono do mesmo status. Duas naturezas ímpares e irmãs. Foi igualmente apreciado e reclamado em todo em todo o mundo, incluindo Lisboa, onde era muito apreciado e amado, quer pelo seu potente registo fortíssimo como pela morbideza do seu fraseado vocal, que neste trecho admirável, "Era la notte", tanto sublimou - entenda-se por morbideza, o termo italiano equivalente em português de suavidade.

ERA LA NOTTE
~ OTELLO ~

Musica:
Giuseppe Verdi

Baritono:
Titta Ruffo




Portanto, ou Luis Bernardo era um troca-tintas que baralhava tudo - defraudando as expectativas Reais postas na sua nomeação de Governador, contrariando a firme descrição inicial do carácter e perfil do personagem; ou o nosso autor, redundando o que já escrevi, jogou informação assim sem mais como quem joga pedrinhas ao ar... adiantando símbolos de uma época sem rigor histórico ou coerência, tomando a parte pelo todo e sem contar que poderia tropeçar em registos sonoros devidamente autentificados e datados, e com uns quantos conhecedores do assunto.

Admitindo que o autor estivesse a pensar na semelhante frase da mesma ópera "Giá nella notte densa", dueto idílico entre o Tenor e o Soprano - Otello e Desdemona - que encerra o I acto da referida ópera, adianta-se que Caruso nunca o gravou. Em minha opinião, dada a descrição do cenário e ambiente que esta página retrata - o sentimento melancólico e a tal tristeza dos sons que se assemelham a lamentos que atraem, comentados pela cidade e que até aos negros cativava, este dueto resultaria numa melhor e mais correcta combinação. Admitindo que o autor estaria ciente do seu acto e ciente da distinção das duas frases, não se compreende o porque da escolha da perfídia ao idílico... ele lá terá as suas razões e nós o direito de desconfiar - coisas à Miguel S. Tavares, pensamos nós. Porém, sem nexo!

Agravando a situação, as primeiras gravações que Caruso fez do Otello, de Verdi, datam de 1910 e 1914, e foram respectivamente:


"Ora e per sempre addio"

"Si per Ciel" - com Titta Ruffo

Portanto gravadas em datas ultra-posteriores à acção de Equador - narrado entre Dezembro de 1905 e 29 de Janeiro de 1908, sendo que esta conversa se passa em S. Tomé algures em 1906. (Pelo que consegui apurar, as primeiras gravações de excertos de Otello foram em 1903 com o Tenor Francesco Tamagno - o primeiro Otello Verdiano da história - tendo gravado o "Esultate" (entrada de Otello), o "Ora e per sempre addio" e "Niun mi tema" (morte de Otello); Em 1910 parece ter sido gravado pela primeira vez o dueto "Giá nella notte densa", com o Tenor Zenatello e o Soprano Lina Pasini-Vitali).

Do "Era la notte" existem gravações de Titta Ruffo e de Mattia Battistini - os melhores da época. É só escolher, mas na realidade antes da escolha é sempre bom verificarem-se as datas.

É verdade que esses registos, os mais antigos, são mais pobres sonoramente mas isto só mesmo aos nossos ouvidos. Na época esses consistiam na melhor tecnologia disponível e eram o melhor dos melhores sons de então. Mostra-los tal como são é fazer uma reconstituição fidedigna - o contrário é brincar, é fazer... mais uma vez, mil vénias e mil perdões... Trampa! É assim que tem de ser visto, e não de outra forma. Ponto final!

.............

Corroborando toda esta informação, ficam aqui duas páginas de um livro que disponho sobre as gravações de Caruso e que detalhadamente nos dão a informação sobre este lamentável lapso do Sr. Miguel Sousa Tavares:


Tabela de Registos de Gravações de Enrico Caruso
- Otello -

Aos Guionistas e Sonoplastas: Questa o Quella e La Donna é mobile já existiam gravadas em 1906/07 - data da estadia de Luis Bernardo nas ilhas coloniais, porém com acompanhamento de Piano, e nunca de Orquestra. Em Março de 1908, um mês depois do final de Equador, foram então ambas gravadas com Orquestra, corroborando uma vez mais o vosso erro, que agora acho ainda mais intolerável, posta esta pequena investigação, e que teria sido amenizado pelo uso dessas já citadas primeiras gravações:


Tabela de Registos de Gravações de Enrico Caruso
- Rigoletto -


13 de abril de 2009

AOS GUIONISTAS E SONOPLASTAS DO EQUADOR - QUESTA O QUELLA


QUESTA O QUELLA
~ Rigoletto ~

Musica:
Giuseppe Verdi

Tenor:
Enrico Caruso




Questa o quella per me pari sono
a quant' altre d' intorno mi vedo,
del mio core l'impero non cedo
meglio ad una che ad altre belta

La costoro avvenenza è qual dono
di che il fato ne infiora la vita
s' oggi questa mi torna gradita
forse un' altra doman lo sarà.

La costanza tiranna delcore
detestiamo qual morbo crudele,
sol chi vuole si serbi fedele;
Non v'è amor se non v'è libertà.

De' i mariti il geloso furore,
degli amanti le smanie derido,
anco d' Argo i cent'occhi disfido
se mi punge una qualche beltà
.

...

Qualquer uma para mim é'me indiferente
a tantas beldades que aqui vejo,
E por qualquer uma delas
Ao meu coração o ímpeto não cedo.


etc.


25 de novembro de 2008

AVÉ MARIA


~ Musica ~

Percy Benedict Kahn
(1880 - 1966)

~ Tenor ~
Enrico Caruso
(1873 - 1921)

~ Violinista ~
Misha Elman
(1891 - 1967)

~ Pianista ~
Percy Benedict Kahn


Avé Maria, Kahn (1913)

Exemplo bonito de um kitsch enternecedor.
Ouçamos em silêncio e meditação esta Avé Maria Carusiana,
como indulgência ou favor à sua salvação,
já que para nós será ele instrumento de catarse ao o nosso alívio e bem-estar espiritual.


Ave Maria, gratia plena
Dominus tecum
Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus fructus ventris tui Jesus
Sancta Maria, Mater Dei,
Ora pro nobis pecatoribus
Nunc et in hora mortis nostrae
Amen.


A par das celebérrimas melodias de Schubert e Gounod, em todas as épocas achamos inúmeras composições musicais deste texto, principalmente no séc. XIX e XX - dada a propagação da imprensa musical, da discografia e da popularização do Cantor lírico enquanto estrela de concerto e de discos – que executa para além de Árias de Ópera: Canções e Motivos Sacros.


O séc. XIX foi bem pródigo nestas melodizações, assaz Vitorianas – da qual Paolo Tosti é o seu maior representante. Musica doce, melada, sentimental e lacrimejante, fabricada para expor as proezas vocais do seu executante e produzir, deleitadamente nos ouvintes, o desvanecimento de lágrimas e o arrebatamento da alma.





23 de novembro de 2008

DOMINE DEUS


Hoje é dia do Senhor! Para quem não foi à missa, como eu, fica aqui um momento de introspecção religiosa, para que em pensamento possa comungar espiritualmente Dele, com Ele!


PETITE MESSE SOLENNELLE
GLORIA - Domine Deus


~Musica ~
Gioachino Rossini
(1792 - 1868)

~ Tenor ~

Enrico Caruso
(1873 - 1921)



(Vale a pena ouvir: Caruso remasterizado e colado numa gravação orquestral actual num momento único, onde é perceptível a comoção lírica do Tenor - considerado como um dos maiores mafiosos do mundo da lirica, e não só - que perante o Senhor, cai estarrecido ciente do peso das suas culpas e pecados, como um clamor de salvação - foi das suas ultimas gravações, próximas da sua eminente e já anunciada morte).



Domine Deus, Rex coelestis,
Deus Pater omnipotens.
Domine Fili unigenite,
Jesu Jesu Christe.

Domine Deus, Agnus Dei,
Filius Patris.




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