Instigado por um leitor do blogue, retomei a leitura do exótico Equador do nosso Miguel Sousa Tavares. Desta vez com um olhar atento, incrédulo, deparei-me na obra com erros de inconsistência histórica de proporções mini-Dantescas de fazerem rubor ao autor, e, que envergonhariam o mundo da razão porque evocam Crasso!
Caro Miguel, nada tenho contra si e há muitos anos que o admiro - desde os tempos da parceria com a Margarida Marante. Porém, o que aqui vou escrever é em detrimento do seu livro e de si, enquanto autor, certo que em nada este comentário vos abona. Direi no entanto que a obra, pelo que tem de bom, merece ser quanto antes rectificada de tal erro. Assim transcrevo a passagem:
"E, como também para falar de musica lhe faltavam interlocutores, explicou ao Sebastião que o que tanto impressionava a audiência era uma ária chamada "Era la notte", de uma ópera chamada Otelo, cantada por um napolitano de seu nome Enrico Caruso..."
Equador, pag. 151Lamentavelmente o Sr. Miguel Sousa Tavares, tal como os guionistas/sonoplastas da série, não se prestou a estudar o assunto com rigor jogando nomes, títulos e gravações ao acaso. Sem um aprofundamento prévio da questão, depois de outros assuntos aparentemente tão bem estudados, parece banalizar o que lhe parecera trivial e de fácil construção, criando uma falsa aparência de distinta eloquência erudita Queiroziana, desta, conduzindo o público português ao engano, quer sobre o assunto quer sobre os pseudo-doutos conhecimentos do autor - o Eça nesse campo nunca falharia. De ópera e afins sabia tudo até as mais ínfimas "tricas". Em Lisboa, Paris ou onde quer que fosse por esse mundo fora, a ópera era a sua segunda casa, chegando ao ponto de ter assistido no Cairo à estreia da Aída de Verdi. Já o Sr. Miguel Sousa Tavares nunca é visto em São Carlos, na Gulbenkian ou no CCB, portanto não há admiração.
Uma consulta aos volumes do Dr. Mário Moreau e a algumas das obras do Prof. Mário Vieira de Carvalho resolveriam a questão, assim como creio que os doutíssimos Prof. Rui Vieira de Nery ou Paulo Ferreira de Castro não lhe negassem a qualquer ajuda numa consulta ou esclarecimento. Por outro lado, qualquer Fnac possui registos desta época a preços acessíveis - como a Naxos ou a Nimbus, só para citar algumas editoras que reunem o espolio da Pathé, da Victor, da Columbia ou da celebérrima His Master's Voice.
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"Era la notte", também conhecida como ária do sonho (do falso sonho de Cássio murmurando por Desdemona), é realmente um trecho da ópera Otello, de Verdi, interpretada nunca pelo Tenor (Otello), mas sim pelo Barítono (Iago) - e Otello escreve-se com dois L, fazendo-se jus à doppia italiana, esquecida pelo autor do Equador. Neste trecho, Iago com perfídia e maldade ludibría Otello, que se deixando levar pelas falsas intrigas deste se arrebata em loucos ciúmes e ira contra Desdemona e Cássio.
Se nesta época Caruso era o Tenor de excelência, Titta Ruffo era o Barítono do mesmo status. Duas naturezas ímpares e irmãs. Foi igualmente apreciado e reclamado em todo em todo o mundo, incluindo Lisboa, onde era muito apreciado e amado, quer pelo seu potente registo fortíssimo como pela morbideza do seu fraseado vocal, que neste trecho admirável, "Era la notte", tanto sublimou - entenda-se por morbideza, o termo italiano equivalente em português de suavidade.
ERA LA NOTTE
~ OTELLO ~
Musica:
Giuseppe Verdi
Baritono:
Titta Ruffo
Portanto, ou Luis Bernardo era um troca-tintas que baralhava tudo - defraudando as expectativas Reais postas na sua nomeação de Governador, contrariando a firme descrição inicial do carácter e perfil do personagem; ou o nosso autor, redundando o que já escrevi, jogou informação assim sem mais como quem joga pedrinhas ao ar... adiantando símbolos de uma época sem rigor histórico ou coerência, tomando a parte pelo todo e sem contar que poderia tropeçar em registos sonoros devidamente autentificados e datados, e com uns quantos conhecedores do assunto.
Admitindo que o autor estivesse a pensar na semelhante frase da mesma ópera "Giá nella notte densa", dueto idílico entre o Tenor e o Soprano - Otello e Desdemona - que encerra o I acto da referida ópera, adianta-se que Caruso nunca o gravou. Em minha opinião, dada a descrição do cenário e ambiente que esta página retrata - o sentimento melancólico e a tal tristeza dos sons que se assemelham a lamentos que atraem, comentados pela cidade e que até aos negros cativava, este dueto resultaria numa melhor e mais correcta combinação. Admitindo que o autor estaria ciente do seu acto e ciente da distinção das duas frases, não se compreende o porque da escolha da perfídia ao idílico... ele lá terá as suas razões e nós o direito de desconfiar - coisas à Miguel S. Tavares, pensamos nós. Porém, sem nexo!
Agravando a situação, as primeiras gravações que Caruso fez do Otello, de Verdi, datam de 1910 e 1914, e foram respectivamente:
"Ora e per sempre addio""Si per Ciel" - com Titta Ruffo
Portanto gravadas em datas ultra-posteriores à acção de Equador - narrado entre Dezembro de 1905 e 29 de Janeiro de 1908, sendo que esta conversa se passa em S. Tomé algures em 1906. (Pelo que consegui apurar, as primeiras gravações de excertos de Otello foram em 1903 com o Tenor Francesco Tamagno - o primeiro Otello Verdiano da história - tendo gravado o "Esultate" (entrada de Otello), o "Ora e per sempre addio" e "Niun mi tema" (morte de Otello); Em 1910 parece ter sido gravado pela primeira vez o dueto "Giá nella notte densa", com o Tenor Zenatello e o Soprano Lina Pasini-Vitali).
Do "Era la notte" existem gravações de Titta Ruffo e de Mattia Battistini - os melhores da época. É só escolher, mas na realidade antes da escolha é sempre bom verificarem-se as datas.
É verdade que esses registos, os mais antigos, são mais pobres sonoramente mas isto só mesmo aos nossos ouvidos. Na época esses consistiam na melhor tecnologia disponível e eram o melhor dos melhores sons de então. Mostra-los tal como são é fazer uma reconstituição fidedigna - o contrário é brincar, é fazer... mais uma vez, mil vénias e mil perdões... Trampa! É assim que tem de ser visto, e não de outra forma. Ponto final!
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Corroborando toda esta informação, ficam aqui duas páginas de um livro que disponho sobre as gravações de Caruso e que detalhadamente nos dão a informação sobre este lamentável lapso do Sr. Miguel Sousa Tavares:
Tabela de Registos de Gravações de Enrico Caruso
- Otello -
Aos Guionistas e Sonoplastas: Questa o Quella e La Donna é mobile já existiam gravadas em 1906/07 - data da estadia de Luis Bernardo nas ilhas coloniais, porém com acompanhamento de Piano, e nunca de Orquestra. Em Março de 1908, um mês depois do final de Equador, foram então ambas gravadas com Orquestra, corroborando uma vez mais o vosso erro, que agora acho ainda mais intolerável, posta esta pequena investigação, e que teria sido amenizado pelo uso dessas já citadas primeiras gravações:
Tabela de Registos de Gravações de Enrico Caruso
- Rigoletto -