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Presságio de males, mortes e mudanças, há 100 anos Halley, o cometa, varreu os céus com tal magnificência que se acreditou que por fim, o mundo, antes do alvorecer do dia 19 de Maio de 1910, iria passar à história.
Por cá, como por todo o lado, tomaram-se notáveis pastilhas anti-Halley e outros fármacos de charlatanice que asseguravam proteger as gentes contra a ameaça dos nocivos gazes libertados pela cauda do cometa, que afinal eram só vapor de água, antes de se ir bailar ou festejar o fim do mundo desde os locais mais chiques aos mais pitorescos, enquanto dos púlpitos se pregava a rápida remissão dos pecados pela confissão. Em litanias e jaculatórias, ditas de amiúde em ladaínhas contra os males da moda, rezava-se:
Presságio de males, mortes e mudanças, há 100 anos Halley, o cometa, varreu os céus com tal magnificência que se acreditou que por fim, o mundo, antes do alvorecer do dia 19 de Maio de 1910, iria passar à história.
Por cá, como por todo o lado, tomaram-se notáveis pastilhas anti-Halley e outros fármacos de charlatanice que asseguravam proteger as gentes contra a ameaça dos nocivos gazes libertados pela cauda do cometa, que afinal eram só vapor de água, antes de se ir bailar ou festejar o fim do mundo desde os locais mais chiques aos mais pitorescos, enquanto dos púlpitos se pregava a rápida remissão dos pecados pela confissão. Em litanias e jaculatórias, ditas de amiúde em ladaínhas contra os males da moda, rezava-se:
"Do Cometa e dos Republicanos,
Libera nos Domine!"

Retirado do blog: Rua dos dias que voam
Libera nos Domine!"

Retirado do blog: Rua dos dias que voam
Curiosa analogia e semelhança a este 2010, assustadora até. O mundo, ordeiro e harmonioso, tal como conhecemos abre falência ou está para acabar sem que expire fatalmente. Uma outra crise na qual para afastar misérias festeja-se tudo por tudo e por nada, com aglomerados grupais para lá de multidões com deslocações massivas a roçar o êxodo. Nem de propósito, no seguimento da entrevista a Passos Coelho, pela Constança Cunha e Sá, ante a descodificação fleumatizada e bem pensada do seu emocionado e frio pedido de desculpas, fui parar por acaso ao canal 2 da RTP onde assisti a um entretenimento sobre a influência do cometa na sociedade portuguesa de então. Um documentário sincero e pragmático. Uma análise histórica com a assinatura do Centenário da República, helás!... Num rosário inerente de evidências supersticiosas, diluídas numa apresentação de ritmo jocoserio, eis-nos apresentado o fenómeno que sacralizou a república laica portuguesa, perfilando-se à força o tal mistério da natureza como o mais forte dos seus jacobinos, confirmando na sua pressagiada aparição novo fenómeno messiânico, que fará aparecer numa outra Belém novos líderes e chefes políticos de uma nação.
100 anos depois, numa época de descrença promovida pela mesma República, na sua terceira forma, a mesma apresenta-nos agora, de forma escamoteada, o avistamento de Halley como um dos seus ícones máximos. Não é um capricho meu arrogar esta tese, caro leitor. De outra forma, para quê foi a Comissão do Centenário aceitar tal proposta, lembrando esta curiosidade histórica de um comportamento pluralizadamente fanático e anárquico, de vestes e expressões picarescas de garrido sensacional, portanto folclore, gastando-se um pingo de fortuna do orçamento das comemorações com uma recordação assaz tão trivial e tão pouco racional quanto é a coluna de astrologia de qualquer magazine ou jornal?(*) Quando, a título de lembrança, a Cantata Patrie, de Alfredo Keil, essa sim, um precioso monumento de arquitectura musical de verdadeiro condão histórico republicano permanece esquecida, vendo-se preterida à composta sinfonia de pout pourri cósmico pós-moderna sobre Halley, sem o brilho e a graça com que o mesmo rasgou nesse 1910 os céus da imaculada Lisboa e do ingénuo Portugal. Mal empregadas meninges, convocadas a uma comissão, que desconhecendo a sua própria história negligenciam património que a tantos inflamou e ligou no verdadeiro e puro espírito republicano. Portanto, Halley, é a deificação do ateísmo, à boa maneira Volteriana, adaptada ao desinteresse cultural português. Halley, o Redentor. Halley, o prenúncio Sebastianista. Halley, o Garibaldi português de barrete frígio. Halley, o novo astro e a nova esperança coroada de pedreiros e carvoeiros. Halley, a arma secreta. Halley, o protector da República, que incapaz de a destronar - como em Inglaterra haveria de fazer na sua passagem sucumbir o então senhor e imperador do mundo, o royal inglês, Eduardo VII - pôs-se postumamente na razão directa da sua instauração como um aliado mercenário, que, actuando pela calada, se viu servidor do intuito de uma ideologia reaccionária. Na realidade assim se acreditou: Halley, o libertador. E é a isto que estamos entregues!
Durante o tempo em que sorriu pelo espaço foi usado e abusado por todos os quadrantes pessoais, sociais, religiosos e políticos. Foi louvado, agraciado, atemorizado e zombado por todos aqueles que puxando a brasa à sua sardinha se entretiveram desde o dolce far niente à usurpação de bens alheios. Houve no temor, quem projectasse o melhor de si para com os seus e com os próximos, como quem o usasse para catequizar pervertidamente o republicanismo assente no mito milenar do presságio de mudança, como augúrios de oráculos-de-vão-de-escada, levando o influenciável, supersticioso e analfabeto Zé Povinho "Bordaleiro", "que não se governa nem se deixa governar", pela arte de bem falantes e letradas mentalidades iletradas, a apoiar-se na falsa fé e em crendices que o colectivo heterogéneo conduziu levando um regime político ao seu termo.
Se a história, seja ela qual for, nos serve de algo então é bom quanto antes aprender com ela, já que hoje em frente ao espelho não se sabe de que lado se está!
Passos Coelho: "Se Sócrates mentiu, não tem condições para continuar"
Passos Coelho acusa Sócrates de fazer leitura irrealista do país
100 anos depois, numa época de descrença promovida pela mesma República, na sua terceira forma, a mesma apresenta-nos agora, de forma escamoteada, o avistamento de Halley como um dos seus ícones máximos. Não é um capricho meu arrogar esta tese, caro leitor. De outra forma, para quê foi a Comissão do Centenário aceitar tal proposta, lembrando esta curiosidade histórica de um comportamento pluralizadamente fanático e anárquico, de vestes e expressões picarescas de garrido sensacional, portanto folclore, gastando-se um pingo de fortuna do orçamento das comemorações com uma recordação assaz tão trivial e tão pouco racional quanto é a coluna de astrologia de qualquer magazine ou jornal?(*) Quando, a título de lembrança, a Cantata Patrie, de Alfredo Keil, essa sim, um precioso monumento de arquitectura musical de verdadeiro condão histórico republicano permanece esquecida, vendo-se preterida à composta sinfonia de pout pourri cósmico pós-moderna sobre Halley, sem o brilho e a graça com que o mesmo rasgou nesse 1910 os céus da imaculada Lisboa e do ingénuo Portugal. Mal empregadas meninges, convocadas a uma comissão, que desconhecendo a sua própria história negligenciam património que a tantos inflamou e ligou no verdadeiro e puro espírito republicano. Portanto, Halley, é a deificação do ateísmo, à boa maneira Volteriana, adaptada ao desinteresse cultural português. Halley, o Redentor. Halley, o prenúncio Sebastianista. Halley, o Garibaldi português de barrete frígio. Halley, o novo astro e a nova esperança coroada de pedreiros e carvoeiros. Halley, a arma secreta. Halley, o protector da República, que incapaz de a destronar - como em Inglaterra haveria de fazer na sua passagem sucumbir o então senhor e imperador do mundo, o royal inglês, Eduardo VII - pôs-se postumamente na razão directa da sua instauração como um aliado mercenário, que, actuando pela calada, se viu servidor do intuito de uma ideologia reaccionária. Na realidade assim se acreditou: Halley, o libertador. E é a isto que estamos entregues!
Durante o tempo em que sorriu pelo espaço foi usado e abusado por todos os quadrantes pessoais, sociais, religiosos e políticos. Foi louvado, agraciado, atemorizado e zombado por todos aqueles que puxando a brasa à sua sardinha se entretiveram desde o dolce far niente à usurpação de bens alheios. Houve no temor, quem projectasse o melhor de si para com os seus e com os próximos, como quem o usasse para catequizar pervertidamente o republicanismo assente no mito milenar do presságio de mudança, como augúrios de oráculos-de-vão-de-escada, levando o influenciável, supersticioso e analfabeto Zé Povinho "Bordaleiro", "que não se governa nem se deixa governar", pela arte de bem falantes e letradas mentalidades iletradas, a apoiar-se na falsa fé e em crendices que o colectivo heterogéneo conduziu levando um regime político ao seu termo.
Se a história, seja ela qual for, nos serve de algo então é bom quanto antes aprender com ela, já que hoje em frente ao espelho não se sabe de que lado se está!
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(*) No dia de ontem, a Bertrand apresentou O Cometa da República do professor Joaquim Fernandes, o autor responsável por este documentário e o mesmo que há anos acerca a sua credibilidade, em conjunto com a distinta Fina D'Armada, na perseguição de Fátima, acusando o objecto da aparição de uma natureza que não a divina, dando ao conjunto e seu conteúdo soluções tão imaginosas quanto a criatividade de Dan Brown. E entre estes, enquanto que o romancista escreve um bom e inteligente livro, esta excêntrica parelha escreve teses do arco da velha que num serão inspirariam boas gargalhadas...................................................................................
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