No tempo que o Escudo era dinheiro e os Contos eram a alegria e a felicidade de muitas carteiras, no princípio dos idos anos 80 do século passado, o meu saudoso avô, que era entre muitas coisas negociante de vinhos, recebia na sua adega compradores de vinho. Clientes certos ou sugeridos por afinidade de relações vinham de diversos pontos da região, da Costa de Lisboa e da Costa de Prata - usando termos da época -, já que de Leiria a Lisboa ou da Sarvinhos aos Vinhos de Colares tinha diversas relações comerciais. Dependendo do volume do negócio ou da simpatia o meu avô oferecia um petisco aos seus compradores: chouriços de sangue assados em aguardente vinica, provenientes da sua indústria de salsicharia e da sua caldeira de destilação.
Um dia recebeu um certo comprador que se fazia acompanhar de uma certa pasta preta (uma pasta de fecho eclair idêntica a tantas outras como uma que o meu avô tinha e que era exactamente igual). Cheios os garrafões de 5 litros e paga a compra achava-se a hora de sobre os tonéis da adega deitaram-se chouriços a arder num prato de loiça até ao point de tal se tornar a esperada apetecível iguaria. Manjar de adegas celebrando negócios, caro leitor, com copos de vinho a acompanhar enchendo-se repetidamente levando todos a um certa boa disposição que o meu avô gostava de cultivar, cativando assim os seus clientes e assegurando o seu regresso daí a meses. Exposto todo ritual, voltemos a concentrarmo-nos no tal comprador: enlevado com os copos e distraído com o carregamento dos seus múltiplos garrafões, despediu-se e deixou sobre um dos tonéis a tal pasta preta, e tal como a deixou assim ficou.
O tempo passou e cerca de um ano depois regressou à nossa casa o tal homem. Com grande trato mostrando grande aflição e cuidado, sem grandes revelações, perguntou se se lembravam dele pois tinha estado na adega há cerca de um ano a comprar vinho. Respostas afirmativas, perguntou se tinham achado uma pasta preta fazendo a sua descrição. O meu avô, sem nunca se ter apercebido deste acontecimento, disse-lhe que não, que efectivamente nunca ali tinha visto nada. Sem insistências, resignado e certo da sua perca o homem despediu-se cortesmente. Nesta altura passou no quintal o meu pai que lhe perguntou:
Pai: O que queria este homem?
Avô: Veio aqui perguntar se tinhamos encontrado uma pasta preta que diz que deixou na adega pr'aí há um ano.
Pai: Uma pasta?! Nunca lá vi nada, só mesmo a pasta do pai que tem estado sempre lá!
Avô (sem hesitações): Vai lá buscá-la!
Pai (já regressado): Tome!
Avô (pegando na pasta): Esta não é a minha pasta!!!... Corre à rua depressa, e chama-me o homem!
Bem ordenado, bem feito. Chegado à rua o meu pai faz alto ao homem que no seu carro já a trabalhar se preparava para arrancar. Uma vez no quintal:
Avô: Temos aqui a sua pasta. Se não fosse o meu filho nem sabia que aí estava!
Homem (rejubilando): Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo... Não sei como lhes agradecer. Há um ano que desesperadamente a procurava sem sucesso. Não imagina o alívio que é encontra-la, procurei-a por todo lado e já a dava como perdida (abrindo-a) pois nela tenho guardados 200 Contos!
Avô e Pai: Ah!
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