15 de dezembro de 2010

UN RICORDO... QUE AFINAL SÃO DOIS OU TRÊS

.


Não foi por esta razão do que aqui vou escrever que elaborei este post. Aqui todos os post sucedem-se como um encadeamento, uma história ou um resumo de algo que habitualmente se encerra e segreda a um diário. 

R. Fleming é de facto para mim uma boa recordação. Tive uma esmerada educação musical ouvindo e assistindo em anos consecutivos os concertos da Gulbenkian. Um deles foi precisamente deste soprano. Não cantou esta ária sacra, mas cantou outras que nos encantaram a todos quantos nesse fim de tarde a foram ouvir... desses, estava uma saudosa figura lisboeta que só sei recordar por associação a estes concertos: o ilustre Zé Manel das Muletas, helás!

O Zé Manel das Muletas para mim era e foi sempre um senhor que como eu frequentava os concertos da Fundação Gulbenkian sendo comum encontra-lo nos espectáculos que continham musica vocal, como os concertos corais-sinfónicos ou os recitais de canto; e por ser aquele homem que esbaforidamente nos aplausos finais gritava bravos que ecoavam por toda a sala e que obrigavam as pessoas a cochichar dizendo: "está cá o Zé Manel das Muletas!"

Da mesma forma que era comum encontrá-lo na sala, também era comum avista-lo na fila para os autógrafos aos quais não se coibia como um prémio triunfante a receber. 

No dia do concerto da R. Fleming o Zé Manel das Muletas era a pessoa que me precedia na fila. Entrando, num inglês de invejável fluência, cortejou o soprano até às lágrimas. De facto, caro leitor, foram verdadeiras lágrimas. Comovida, R. Fleming lacrimejou nas palavras deste homem que foram mais ou menos estas:

"Cara Senhora, é para mim uma grande honra poder tê-la ouvido. Gostei muito desta ária, e daquela também. Porém, o maestro não a compreende: estragou-lhe a Rusalka... é um vil, um canalha..." 

Aqui R. Fleming exaltou-se e exclamou: Oh my God! E sem pronunciar uma palavra, olhando-nos, dizia pelos seus inquietos olhos: por favor, calem-me este homem! Ciente da perturbação, Zé Manel das Muletas retomou para agora repor a ordem: 

"Não se assuste cara senhora, a minha adoração por si é tão elevada que só poderia protege-la.  Não vim aqui para insultos, só digo o que acho e esta é a minha verdade. Qualquer nota cantada por si é um balsamo para os meus ouvidos, e, revolta-me que tais maestros façam tão pouco às cantoras como a senhora. Repare, olhe o meu aspecto... sabe, eu sou uma pessoa doente. Todas as noites sofro dores inimagináveis pelo mal que padeço. Ouvi-la, como muitas vezes a oiço, é nesse momento conseguir esquecer todo o sofrimento e entrar no paraíso. De resto muitos parabéns pelo magnifico concerto que hoje concretizou o meu sonho de poder vê-la e ouvi-la."

Posto isto, agradecendo uma vez mais, recebeu o autógrafo e retirou-se acompanhado pelo som da chiadeira das suas muletas, deixando este rendido soprano emocionado.
.
.

1 comentário:

Pink disse...

Obrigada por compartilhar mais essa bela música...

Bonita a história do Zé das Muletas. Penso que o artista as vezes não tem noção do alcance da sua arte e como elas nos atinge, por isso a emoção ao ouví-lo...

Beijinhos

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails