31 de agosto de 2010

NOSSA SENHORA DA SAÚDE... DO VALE MOIROL II






II EPISÓDIO

As curiosidades de uma rainha tida como santa.


Pois bem caro leitor o prometido é devido e venho completar a narração da Virgem do Vale de Moirol. Desengane-se porém se me crê ir directo ao assunto propriamente dito uma vez que a Senhora da Saúde tem mais que contar em honra da força da devoção mantida pelas esquecidas gentes de Santa Iria veladas pela sombra do padrão que à beira-rio se ergue.

Como permuta, caro leitor, nesta deambulação, sob a inspiração da minha mais elevada eloquência, narrar-lhe-ei um miraculoso episódio que às bíblicas existências faz inveja. O Divino sempre foi muito generoso a este eterno chão fecundo de saloíce, crescente fértil de maravilhoso, das suas intersecções directas ou das fantasias que o seu fragoroso espírito foi inspirando nas peregrinas meninges como bem-aventuranças caídas dos altos dos céus. Um país encantado de factos inimagináveis desde os tempos de perder a memória até aos prodígios da Cova da Iria ou seja das trevas e da ignorância à aurora da iliteracia.

Antes demais, atente o meu caro leitor que nestas épocas antigas e remotas o caudal do rio seria muito mais largo e os campos circundantes pântanos e locais de maleitas, parcamente cultivados e evitados pelas gentes. Serão precisos alguns séculos até que Almeida Garret, num Vapor a caminho de Santarém, testemunhe com as palavras dos Ílhavos as mudanças operadas a pouco e pouco. Agora neste deserto, antro sem lei, de pragas e sortes naturais ou foragidas ou de outras surpresas aí escondidas, em canaviais onde daria para refundir a Lisboa inteira de hoje sem que as suas empenas mais altas se destaquem das copas da preponderante flora, não entra um homem-bom para pescar um Sável ou uma destemida lavadeira a ir lavar cueiros às praias do Tejo. É um mundo onde ninguém de bons princípios se passeia, excepto as excêntricas e nobres damas a irem banhar-se nuas ao rio, já que as vilãs por semelhante comportamento, numa rasgo de modernidade, ganhariam fama de putas, mesmo que de todas elas se façam e contem histórias de  semi-divindades, sereias e mouras encantadas avistadas por negros olhares de machos delirantes acompanhados pela musicalidade de repetidos gestos manuais esganando ao corpo solitária luxúria.

Na borda-d'água somente as finas areias arrastadas pelas correntes criam a imagem do idílico. Mantos de oiro queimados pelo sol dando contornos a espaços e ilhas bordejadas por recantos e sombras oferecidas por verdes Salgueiros e viçosos Chorões. Locais que Camões cantou e decretou como paraísos debochados com a nostalgia de lembranças promiscuas de Constância e da solidão da ilhota de Almourol, onde só os mancebitos arvorados em homens se deslocavam brincando de Duardos e Flerida, certos de nenhuma maldade nem censura lá haver. Demências proibidas escritas para o mui conforto que lhe coube na sua cega velhice, quando acompanhava na margem oposta do rio, na banda de Almeirim, mesmo em frente à urbe Scalabitana, D. Sebastião com seus cavaleiros e moços despidos em pelota correndo a banhos pelas praias do Tejo ao som da leitura da insigne lusíada lição lida incessantemente. Episódio de luxúria,  amores, ninfas e marinheiros arrebatados capazes de na sua ingénua agressividade quinhentista de lhes estimular nevrites nos seus juvenis membros florescentes que procuram tornas à normalidade pela consolação  e alivio em sensações físicas afundadas em locais tão recônditos como aquele em que se esconde a cauda da adormecida Kundalini. 

De facto, caro leitor, as margens do rio escondem em todas as épocas segredos e histórias, lendas e mitos que mais devem à loucura da "hora dos mágicos cansaços" que a outras inspirações já que afastadas estão estas paragens da seriedade dos coutos de Alcobaça onde o alagadiço se foi tornando firme e o chão da dita nação, sem promiscuidades, honradamente sustentável.

Posta Iria agora em sossego, nas inquietas águas do rio, e Ábidis, em local incerto, no longo sono de um votado esquecimento da sua memória; ocorrida a história de um beatíssimo milagre e a macabra relação entre Frei Gil e uma infernal entidade eis que certa rainha de Portugal, princesa de Aragão (mulher estrábica, pouco atraente e traída por defeito; fanática, beata e caridosa por feitio; maga feroz convincente de verdades alternativas por herança genética), desceu com sua corte a estas praias num dia Verão como este, não para se banhar com as suas aias, quisesse assim antes o seu real esposo, mas meramente pela curiosidade dos segredos aí escondidos.
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(c) Santos & Santinhos
 

Permita-me agora, caro leitor, fazer um preâmbulo e dar-lhe noticias sobre um facto cabal da nossa história colectiva ainda por resolver, certo que esta sereníssima senhora, sapiente até de segredos que em Alexandria se queimaram, na sua época sabia com real discernimento a resolução prática do mistério que hoje assim se crê, concorrendo com todos os que por ele perfilaram como cegos errantes. De facto, interrogada sobre a localização da Batalha de Ourique, sem pressões politicas ou fascistas, falsas modestias ou indícios de grandeza, afirmaria assertivamente com a maior naturalidade, apontando com o seu indicador direito: "ali nos vales do Cartacho! Onde mais poderia ser? Eu própria paguei com farta esmola da minha casa uma capela que mandei fazer por Berengária assinalando a beatíssima visão que o Sr. D. Afonso teve ali para os lados da muy antyga Vall da Pinta..." e assim por adiante, uma vez que tudo por lá ainda assim permanece.

Sem mais rodeios, no dia designado para o efeito, Filipe de Espanha, entregou em mão ao Papa de então a sua encomendada Monarchia Lusitana de forjadas e pretensas verdades, acompanhando-a de um pesado tributo para assegurar o bom sucesso da leitura, esperando nela elevar esta Isabel de Portugal, princesa de Aragão, ao pátio das santas da cristandade. E o que fez ela para merecer isso? Ora vejamos:

Num certo dia estando toda a Corte em Santarém, ei-la abandonando a Alcáçova do "Conquistador" saindo da urbe pela porta de Leiria, encaminhando-se à beira rio na sua intocável soberania. Rodeados pela populaça eis que vão El-rei, a Rainha, Infantes e Bastardos, Berengária Aires, Freiras Bernardas de Almoster, Clérigos de Santarém, Cortesãos e Cortesãs perfilando a cavalo de burrinhas colina abaixo, todas vindas de uma qualquer herdade de Alter a expensas de El-rei. Inquieto, sua majestade dirige a Isabel algumas palavras:

El -rei: Rainha, afinal para onde nos leva?
Rainha: A ver um prodígio! - respondeu-lhe.
El-rei: Com que me quer impressionar desta vez? Mais rosas... Senhora?
Rainha: (olhando a bastardia) Saiba o meu régio esposo, que será a uma alegria consoladora a este jardim, malgre as silvas de espinhos a que está votado...
El-rei: (De sobrolho arrebitado, olhando o ralo mustage feminino de Isabel com real ironia, altivez e porte) Rainha, não fosse sua senhoria um imperial oceano de abrolhos sem fim e a sua caridade teria sido outra...
Rainha: Menos, Senhor meu esposo, menos...

Interrompidos pela chegada ao local, a rainha mancando apoiada na sua tau apressa-se seguida pela corte por um trilho já seu conhecido percorrendo o canavial pantanoso até chegar por fim às doiradas areias do Tejo. O Sol no firmamento, como que obedecendo a esta feminina vontade, coroa esta lição milagreira espraiando-se bem lá no alto. Isabel silenciando os escárnios e ironias maldizentes, a todos faz ajoelhar e rezar a Santa Iria. (Santa Iria? Só nos faltava esta. Quem a teria lembrado de uma coisa destas? Assim pensou em coro a Corte e as gentes do Santíssimo Milagre que ocupava de sobremaneira as devoções da urbezinha altaneira, sendo tão bem mais cómodo ajoelhar na sua igrejinha...). Isabel, determinada e com incisão, certa do seus actos, em posses de Pio XII, levanta-se e abrindo os braços aos céus faz gerar turbulência nas águas. Pasmada toda a corte portuguesa e os populares Scalabitanos, mesmo sem a cobertura dos media, laureada pela sageza dos comentários do ilustre professor da TVI, assistem com admiração.  Repicam os sinos a hora sexta em estrondosas Ave-Marias. Isabel olha o relogio da torre mais alta e sem se dispersar, com furia concentrada, imitando Charlton Heston, bate com a sua tau nas águas separando-as miraculosamente permitindo a todos adivinhar no meio do leito do rio um sumptuoso túmulo de mármores cinematográficas derrubado dos céus e guardado por amedrontados anjos que se apressam a desaparecer dali.

A pé enxuto apenas uma certa elite se aproxima da alva urna prostrando-se sobre ela em vénias e incensadas orações. 

Posto isto, El-rei, uma vez mais admirado pelas  estranhas capacidades  da sua mulher, ordena subitamente a uns desinteressados pedreiros, que por acaso ali vão a passar, que ergam de imediato um malho de pedra antes que as águas voltem ao lugar. Assim foi, e foi tudo como quis El-rei Dom Diniz!

Lá do alto, a Divindade, o Deus dos Hebreus, tudo observou com um sorriso entre-dentes! Suspirando aliviado, purgado dos tormentos que lhe pesavam sobre a virgenzinha do Nabão ali escondida por si nas águas do Tejo, constou que tudo era bom mas de pouco interesse... passou essa tarde, e sobreveio uma outra nova manhã!
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(continua)



N.B. - Caro leitor, esta singular narrativa composta liricamente com a astúcia e a brilhante sageza do seu bravo autor é baseada em lendas, personagens , locais, nomes históricos, míticos e actuais é usada e combinada a belo prazer do seu autor, como livre expressão da sua vontade.


NEWS SWEN NEWS:

29 de agosto de 2010

O DIA DA PADROEIRA


(c) Santos & Santinhos


Hoje é o dia da Padroeira!

Conheceu de perto Junot e o "Maneta" Loison que a derrubaram do seu altar; ouviu as escaramuças do carbonário Ramada Curto gritando morras ao regime às portas da sua ermida; viu do alto do seu altar benzer-se o senhor Presidente do Conselho; viu e ouviu de centenas de populares e anónimos impopulares rosários de Avé-Marias, preces, rogos, súplicas deixadas em pé ou de joelhos com uma lágrima transbordando numa intenção cheia de esperança e de fé.

Hoje é o dia da Padroeira do blogue ou seja o dia em que a graciosa Senhora da Graça, uma Virgem do Leite, em cima do seu florido andor percorreu a sua aldeia acompanhada por gerações da mesma gente numa vontade que parece estar longe de ver em si extinta este sentimento comum de união fraterna na Senhora que os une... é sempre bom crer. Um bom remédio quando no mundo aparentemente nada vale a pena a alguém.


23 de agosto de 2010

SÃO ROSAS, SENHOR! AH, POIS SÃO...

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 retirado daqui


É Verão, sim de facto... e as festas abundam por aí! Festas tão antigas que se perdem na memória. Festas cada vez mais exigentes carregadas de populares, petiscos, procissões, foguetes, bandas de musicas, artistas e a Rosinha! Sim, a Rosinha.

A Rosinha, caro leitor, é a nova coqueluche da brejeirice nacional. A emancipação do trocadilho de cariz sexual no seu género cançonetista, que agora, sem bigodes ou postiços, ganha contornos no feminino sem a robustez de uma penugem mediterrânica que melhor suporte de dignidade dariam ao conjunto, face a quantidade de pérolas  barrocas diluvianamente largadas por esta distinta menina de esmerada educação.

Assim à pornochachada estival das marcas promotoras de mini cerveja (quando cerveja é sinónimo de excelência da virilidade de uma grande caneca como crisma de qualquer homem certo das suas convicções) materializa-se agora este miraculoso sex symbol andante capaz de fazer arrebatar aquele assobio apaneleirado a um pneu de um camião. Bebe-se, vê-se e crê-se! Rosinha, a nova "Virgem" milagreira!

Rosinha lá vai! De ar urbano assaloiado, porte sensual, com uma musette às costas e de óculos escuros, clichés mais que vistos no género musical (Eugénia Lima e Stevie Wonder, está claro, ou será Quim Barreiros e Pedro Abrunhosa), mostra-se  assim disponível e para as curvas - aquelas que lhe levarão a muitos palcos e lhe darão muito dinheiro, explorado à conta de facilitismos verbais.

Por fim, como uma jovem civilizada e  bem estudada, propósitos tão caros às modernas raparigas portuguesas, como a algumas experimentadas nos cursos nocturnos do INP (por exemplo, de guia turística de locais recônditos) nesta cantarolada oralidade compete na erudição, lá tão bem aprendida, com as poetizas nacionais em palavras de grande profundidade, emprestadas aos seus melhores temas. Ora, analizemos:

Eu chupo, eu chupo
E vou rodando para ele não pingar
Eu chupo, eu chupo
E no fim fico com o pau a brincar

ou
Eu levo no pacote
Eu levo sim senhor
Eu levo no pacote
Tem outro sabor

Eu levo no pacote
Eu levo sim senhor
Eu levo no pacote
P'ra gosto do meu amor!

Por meros momentos que sejam, efémeros mesmo, este sol e dó de arremessos fáceis um homem desprevenido esboça um sorriso purgatório e atira para atrás das costas a má disposição habitual, já que com tanta desgraça junta este verão não seria verão sem a Rosinha e as suas engraçadas bailarinas. O povo gosta, nós aceitamos!

Ei-la desfilando, cantando e dançando com a mini-saia esvoaçante inspirando às gentes ditos populares:

Rosa
Rosinha
Roseta... ai!!!... o bálsamo para todos os homens de todas as idades pós-puberdade. 

Veremos entretanto como se safa esta cigarra no Inverno e como chega ao próximo Verão...

Por agora, e como o arraial é só na sexta-feira, enquanto nada acontece, ficarei na Beatrice di Tenda sem que seja caso para dizer, como nunca será e como jamais será: volta Leyla Gencer, estás perdoada!




NEWS SWEN NEWS:


O TOIRO FEROZ...

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21 de agosto de 2010

NEW LOOK


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Estamos em definição preparando-nos para a rentrée... não sei se foi boa idéia, pois só queria mudar a cor das hiperligações do virulento estado de azul irritante que me provocam neuras. Não obstante, permanecem!
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16 de agosto de 2010

"LA DEMARCHE" DA VIRGEM DE CORUCHE



(c) Santos & Santinhos



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Coruche, 15 de Agosto de 2010
Procissão de N. Sr. do Castelo




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13 de agosto de 2010

EXERCÍCIO SOBRE O CORPO HUMANO



(c) Santos & Santinhos

Exercício de estudo a partir de Miguel Ângelo.


Quizz Show:

Dão-se alvissaras virtuais, rebuçados e sugos, a gosto com peso e medida, a quem adivinhar o nome do objecto modelo.


NEWS SWEN NEWS

Onde havia um museu de verdade há agora um edifício moribundo Tate exibe oito desenhos redescobertos de William Blake Portugueses preferem lipoaspirações e Botox a aumentos mamários

7 de agosto de 2010

NOSSA SENHORA DA SAÚDE... DO VALE MOIROL I

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 I EPISÓDIO

Entre o maravilhoso pagão e o maravilhoso cristão


Nas faldas das colinas do rei Ábidis abre-se um pequeno vale coberto de milenares e densos olivais de perder a memória, testemunhos de correrias de divindades pagãs e círios e romarias religiosas cristãs, de bailados de ninfas e de bruxas em noites de Lua cheia, esperas de cobiça e encontros furtivos de esgalgados e ávidos amantes, sem distinção de sexo, desde tempos anteriores à fuga de Eneias de Tróia ou mesmo naquele em que dois irmãos chulavam as graças da caridade de uma loba demente, que se hoje no divã de um qualquer psicanalista, no efeito certo da terapia, teria-se refastelado trincando a tenra carne destes dois chupistas alterando de sobremaneira o curso da história da humanidade.

Caro leitor, o que vos vou contar é uma história passada num local longínquo do centro do mundo, a um longo tempo de distância contado pelo andar do pé humano, protagonizada bem para lá das colunas de Hércules e do tenebroso e ameaçador cabo Sacro, bem acima dos recortes do impressionante cabo Barbarion (onde uma vez uma burrinha gigante trepou temíveis escarpas com a mãe da divindade cristã a cavalo no seu lombo) no interior do vasto Tagos a montante das desenhadas enseadas que seduzem os navegantes a nele penetrarem... ou seja, para nós: bem próximo, mesmo aqui ao lado.

Ora bem, em breves linhas que darão instâncias de verdade, certo navegador errante,
Ulisses, aliciado por este encantamento, subindo na sua barca o leito do dito Tagos, evitando numa morosa viagem por terra confrontos indesejados nos pinhais da Azambuja, quando este gozava de boa fama, arribou ao reino dos Cunetas e do rei "Melícola".

Num dia de Agosto como este, frequentando a amena frescura dos já citados olivais na companhia da bela princesa Calipso, aspergiu nela com helénica virilidade jactos de gotículas do seu vigor mediterrânico, apunhalando uma vez mais as crenças da pobre e casta Penélope, presa ao tear. Esquecido desta obrigação, dando azo ao seu viril sentir, no deleite de demorada fornicação, germinou no seio da princesa "arribategana" um malogrado fruto abandonado à mercê da força do rio. Amadrastado por uma Loba, tão "arribategana" quanto a sua mãe natural, e tão demente quanto a sua congénere romana, ergueu em sinal da sua sobrevivência miraculosa no alto de sete colinas adjacentes às praias fluviais onde encalhou, uma cidade que se quis logo tão importante e luminosa que hoje Ábidis o Flores, com o mesmo esforço titânico, e pozinhos de perlim-pim-pim, nada mais consegue do que nada para esta Scalabidis que a mitologia fundou entre arremessos plagiados daqui e dali, mantendo-se bucolicamente turvada e atraída pelo silêncio dos tempos em que nesses morros nada existia.


(c) Santos & Santinhos


Aos romanescos acontecimentos muito tempo passou. O mundo fez-se o que hoje conhecemos e o Deus dos hebreus senhor dele.

Numa minuciosa viagem de reconhecimento pelas Espanhas, que só conhecia por umas leituras amiúde furtadas de esguelha sobre o ombro de Estrabão, ao chegar a esta urbe entendiou-se com a sua imoral origem de virtudes pagãs e preceitos duvidosos. Com indesejada contenção em lhe chutar um bíblico arremesso, para não perturbar a sua insípida popularidade por aquelas terras entendeu pelo conselho de um poderoso demónio local, cioso de propósitos obscuros, em chamar a este local para cristianizar este inoportuno Génesis uma afamada santa rapariga de nome Iria, que milagres operava pelas margens do Nabão.

Numa revelação, através de sonhos, Britaldo, um apessoado e garboso cavaleiro, como outro não havia naqueles termos, que até arrebatava o coração de donzelas quando por valentia e marialvice pegava toiros em Ulishbona, é determinado e escolhido para a escoltar subindo para isso até à Nabância.

Diante da beata-viva Iria, achando-a de beleza irresistível, pega 7 toiros de enfiada no dia da festa de S. Pedro só pelo gozo de a impressionar. Iria, indiferente, nada mais faz que o abençoar. Tocado no coração pelo demónio que o acompanhara escondido na sua sombra, aproveitando-se do seu despeito, Britaldo, já esquecido da sua missão, cego pelo incómodo de se deslocar a tão longe sem uma pequena "brincadeirinha", ardila um plano atraindo a jovem a um local discreto à conta de conversas mansas, cheias de água benta e pós de poeira de sacristia.

Convidando-a a uma oração conjunta Iria acede ajoelhando-se diante dele esperando-lhe o mesmo gesto. Porém, Britaldo, já ruborescido, assedia-a com a visão do seu pénis erecto forçando-o a Iria. Com as mãos no rosto, postas em defesa de tal visionamento, a jovem pede-lhe contenção e que se concentre no propósito a que ali foram. Britaldo, perante a dificuldade, encarniçando-se ainda mais pelo rubro de tanta tesão, esganado pelo gozo de satisfazer-se num acto de luxuria inestimável, fomentada pelo demónio que o invade, puxa-lhe pelos cabelos ameaçando-a com a lâmina da sua espada. Iria, interpritamente, recusa-o mostrando-lhe repugnante desdém. Britaldo, pouco habituado a recusas, passa-lhe a espada pelo pescoço, como acto
piedoso de misericórdia Divina do Deus do hebreus ante o engodo em que se viu envolvido, pondo pelo fio da espada termo a esta pouca vergonha de inconsequentes medidas ao som dos uivos demoníacos da infernal entidade, frustrada no seu propósito de querer apenas possuir pelo toque da carne a casta filha do Nabão.



(c) Santos & Santinhos


Uma vez só, sem Deus nem demónio, Britaldo, aturdido, com a pressa de um ladrão, atira o corpo ao rio desfazendo-se do inconveniente cadáver da inocente que agora perfila lá nos céus o exército das pobres mártires cristãs.

Tejo abaixo, caridosamente envolvida pelas ondas do fluviais, escoltada por cardumes de Sáveis e Lampreias, despojada de seu hábito, embadeirando de negritude os canaviais do largo rio, veio a encalhar nas mesmas praias onde Ábides havia também chegado enquanto criança recém nascida.

O povo,
abismado, suspenso na visão da graça incorrupta e de desnudada beleza, com saber experimentado destes assuntos, cacarejando pormenores deste melodramático acontecimento que não lembram a ninguém, apressou-se a reiterar-lhe a santidade, fé e devoção de tão luziada popularidade que subindo por aquelas colinas acima ofuscaram o nome de Ábidis, ante a estupefacção do Divino.


(c) Santos & Santinhos

Posto isto, Deus viu que era bom. Sobreveio a tarde e uma nova manhã... e fez-se a aurora dos nossos dias.



N.B - Caro leitor, esta singular narrativa composta liricamente com a astúcia e a brilhante sageza do seu bravo autor é baseada em lendas, personagens , locais, nomes históricos, míticos e actuais é usada e combinada a belo prazer do seu autor, como livre expressão da sua vontade.


News about:

Muçulmanos começam hoje o mês sagrado do Ramadão , Cinco crimes exemplares. Cinco mini-romances , Poluição: população de Santarém vai vigiar rio Alviela durante o mês de Setembro , Há um "sentido português" na construção de cidades "diversas e sensoriais"

1 de agosto de 2010

Ó DA FRUTA BOA...

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Chegou Agosto anunciado pelo calor que se tem feito sentir nas últimas semanas. Com eles amadurecem por fim nos campos sumarentos melões e frescas melancias para nos virem num anafado repasto melar a alma e a mente.

É verdade que é este o tempo da melhor fruta e este é o tempo em que esta corre por aí ao desmazelo. Muitas e muitas vezes vendida na beira das estradas, à causa do tanto milagroso e proibido excedente da fartura produtiva, caçando o viandante condutor pelo olhar, convidando-o a parar. No meio dela, perdido como no antro de Creta, sem norte, sem eira-nem-beira o apanhado sequioso, cheio de gula, já num acto de pura fornicação e luxuria, apalpa e certifica-se munindo-se epicamente nesta escolha mercantil por largas semanas como se fosse entrar ante um torrente gozo diluviano.

Caro leitor, é o regalo da fruta franca que mata o calor mas nunca a sede.

É o prazer adquirido de tantas formas e feitios apanhado à mão pelo gesto do homem, retiradas do pomar ou da terra... Em súmula, faça-se aqui agora, apenas hoje e com curta excepção, uma pequena vénia à sageza do ilustre poeta-cantor-acordeonista popular, de condão brejeiro e pernicioso:

Em Agosto tudo entra a gosto...

pois assim é com o deglutir da fruta boa, está claro. Porém, olhando em volta pergunta-se, ante um clamoroso brado emergente:

Onde está ela? Ó da fruta... ó da fruta boa!

É já sonho, é fantasia! A verdade que hoje nada disto já existe e esta promiscuidade de boa saúde é zelosamente vigiada por leis e outras minundências madrastas. Por cá, caro leitor, num gesto repetido, no abrir e fechar da boca, perdido neste bom pensamento, suspiro e vou esvaindo-me em saliva escorrente, ante a visão de um fausto passado suculento que só a memória guarda.
Que saudades da pêra rocha pequena, tão doce de sabor a mel, um dos maiores artefactos de confeitaria que Ceres nos dotou e que só a mãe natureza deste nosso solo pátrio sabe produzir, com tal espírito e requinte; e já agora, caro leitor que partilha esta saudade comigo, apesar de vast0, embora relacionado, 0nde andam os carapauzinhos para fritar, dádivas do sr. Neptuno para melhor acompanhar um arroz de tomate... eis-nos, caro leitor, na pertinente questão ou seja no ponto fulcral deste rosário: onde encontrar hoje tudo isto?

Dos cerejais, perais, meloais, melanciais, ameixiais, pessegais, figueirais ou qualquer outro pomar de fruta estival estas ganharam outros rumos que desconhecemos. De certo uma estima e caminho idêntico que levaram as Lusas, no mercado internacional: tudo desbaratado. Curioso que em Londres, no Harrods, se vende fruta portuguesa como produto gourmet a preços incomensuráveis, desde a pequenina à graúda.

Por cá nada se sabe dela, sendo o seu paradeiro
uma das maiores incógnitas dos nossos dias... De certo ganhou pernas e pôs-se a andar. Sabe-se somente que anda por aí, algures, de bom nome ou disfarçada!



(c) Santos&Santinhos


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