20 de julho de 2010

POR MORRER UMA ANDORINHA...

 .
Sempre que chega o Verão, o Sol, raiando convites à alegria e ao sorriso, saúda as Andorinhas com o seu calor levando-as a esvoaçar pelos céus nos seus esguios fatos de cor-de-luto vestidos. A Andorinha, a ave migratória rainha dos céus na época de Estio, sem fazer espécie a sua congénere divina, a mãe do nosso Salvador, Maria, de tantos nomes e graças, arriba às nossas paragens logo que a Primavera se faz desabrochar no florescimento da natureza emergida em flor.

Com arte e gesta, em mil cuidados de extrema sabedoria pensados, elaboram os seus ninhos esculpidos pelos seus frágeis bicos de avezinhas com o húmido barro invernal das terras e as águas das pocinhas regadas pelas chuvas. A sombra dos beirados é o poiso predilecto para suster tão engenhosas casitas, onde se cumpre na firmeza do barro seco, antro onde se irá gerar o fruto do amor dos engraçados passarinhos, a ordem de procriar dada por Deus Nosso Senhor.

Ei-los, então, pois, no ninho, no recanto mais alto de
uma qualquer alva parede caiada pela mão do homem, enfeitadas de rubras sardinheiras adornando a bênção de um beato azulado painel de azulejos. É neste maravilhoso e humilde contexto que os sabemos entrelaçados no seu cantinho, Macho e Fêmea, pois no mundo não há mais bela e tão natural perfeita condição, acomodadas no conforto de palhinhas e penas, expressando-se em carinhosas bicadas, guardando-se em pudor dos olhares que passam, a conceber os seus pequenos filhinhos.

Assim que os pequenos ovinhos se fazem saber no ninho, ante o cumprimento da comadre Cegonha,
como recompensa de tão laboriosa jornada, o pai Andorinho lança-se pelos céus num giro de alegria, enquanto a sua fêmea, no mais cândido e vigilante propósito maternal, se acerca calorosamente transformando os ovos em crias.

Nascidos os pequenos passarinhos reina a felicidade nos ninhos.

As crias, alimentadas pelo bico da sua mãezinha, crescem vistosamente de dia para dia, por força de comensais iguarias que só a estas avezinhas agradam. Fortalecidas, eis o derradeiro momento... e basta! Assim, por adiante seguiria ainda num ritmado rosário de pérolas hipócritas de deprimentes metáforas continuadas deste mavioso exercício de escrita em tom Salazarento, de acordo com aqueles livros por onde os nossos pais fizeram a sua instrução primária. Caro leitor, sigo já exausto e com pouca paciência para continuar, mesmo que tal fosse do seu interesse. Hoje não é com agrado que escrevo e é com pesados ferros que vou espremendo o que vai saindo, diante a ameaça: ou paro ou fico mais 2 semanas sem escrever nada.

Hoje morreu uma Andorinha, é verdade!

Espectáculo funesto este! Que crueldade de lei universal tive de presenciar num mundo que se diz de tolerante abundância como este em que vivemos.

Como podem tais aves serem desprovidas do sentimento de reunião familiar quando muitas vezes se agrupam em bandos que se protegem hermeticamente. Como podem as mais sapientes aves que conhecemos de tão próximo alcance capazes de impressionar Doutos e Catedráticos,
encerrando na sua minúscula meninge conhecimentos exactos e perfeitos, vindos sabe-se lá de onde, que reúnem faculdades apuradas de arquitectura e engenharia, de leis da química e da física que dispõem na concepção da estrutura de um ninho, colhidos quem sabe nos beirados dos templos e nas pirâmides no antigo Egipto ou na telha vã que cobriram os sábios helénicos enquanto ensaiavam conhecimentos para permanecer ad aeternum, abandonar as suas criaturas à mercê das suas incapacidades.

Hoje, vi no chão, diante do pneu do meu carro, uma pobre cria abandonada. Tinha asas, mas não voava. Tinha medo, pois só e abandonada desconhecia aquilo que pressentia. Sensível, vi o pobre pássaro e encomendei a alguém de o tentar fazer voar... Se voou, ao mesmo local regressou para fazer-se ver já sem vida.
Perguntar-me-ía o meu caro leitor a razão de não a ter acolhido. Pois bem, sem conhecimentos de Ornitologia, sei de memória desde criança a sentença destes pobres e condicionados bichinhos que em dois ou três dias morreriam num canto da minha casa, apesar dos maiores e melhores cuidados, que de certo não seriam os mais adequados.

É cruel esta prova, tanto para o passarinho que já jaz ali na esquina do prédio em frente, à mercê da decomposição e do acto piedoso da varredora de ruas que só amanhã o levará como lixo municipal, como para mim, alma pura e sensível, incomodado por ter de presenciar tão negra sorte.

Antes de adormecer e assim esquecer este facto, ficarei na certeza que a ausência de colorido no vestir destas avezinhas que dalmatizam negramente os céus, será sentença pelo peso deste gesto tão bárbaro e de impiedoso sentir.

Morreu uma Andorinha!



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Morreu o judoca Tiago Alves
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10 comentários:

Salete Cattae disse...

Eu já acolhi um bb passarinho machucado em casa e ele morreu na minha mão...a morte em si é muito triste!

Beijinhos

Isa GT disse...

Andorinhas e pardais muito difíceis de salvar, no entanto, ainda hoje me pergunto, como é que a minha avó os conseguia salvar e devolver à natureza, alguém que só conseguia escrever o nome, mas que, com um palito transformado em colher, com muito amor e paciência, com ninhos improvisados de paninhos enrolados no canto da cozinha conseguia esses verdadeiros milagres.

polittikus disse...

A beleza da liberdade das andorinhas é que lhe conferem o caracter quase angélico. Mas, experimenta viver com um ninho de uma na varanda.... Só eu sei o que me tem custado, não o tirar dali. Mas, não sou capaz, tenho pena...

Cláudia Neves disse...

Oh coitadinha...
Eu um dia também encontrei um passarinho,que não conseguia voar,perto da biblioteca municipal(teria ido em busca de conhecimento?).
A verdade é que também não o pude levar comigo pelas razões obvias.
No entanto agora que penso nisso,talvez ficasse melhor no sítio onde moro: No campo.

Bartolomeu disse...

@Salete Cattae,

quando saí à porta de casa e a vi foi o que senti, tristeza, e pensei: a morte está aqui fazendo espera já que não pode lhe falar directamente.

Bjnho

Bartolomeu disse...

@Isa GT,

em criança, tentamos salvar um Pardal sobre o olhar vigilante da nossa mãe. Ao fim de 1 dia e meio, enquanto estávamos na escola, morreu. Nas nossas Juniores formas de sentir abateu-se grande tristeza, e choramos horas a fio pelo acontecimento. O Pai, que observou tudo de esguelha, disse logo que doravante não queria tais passarinhos em casa uma vez que morriam sempre e nada havia a fazer.

De certo, a sua avó, teria dado uma excelente Médica Veterinária. Uma tal empatia e fácil entendimento com tais bichinhos de certo seria um dom natural a adivinhar esta sugestão.

Bjnho

Bartolomeu disse...

@Polittikus,

não sejas esquisito, não custa nada!

A propósito, tens cão?

Abraço

Bartolomeu disse...

@Cláudia Neves

de certo não foi o primeiro nem vai ser o último. É sempre um duelo do mais forte e do mais fraco, e porque ficamos tristes, porque neles revemos a nossa fragilidade!

Bjnho

polittikus disse...

Não, não tenho cão. Tenho cães de familiares que mos vem aqui deixar quando vão para fora.
PS- Tenho uma criança de 2 anos que não dorme por causa do barulho das andorinhas..

Bartolomeu disse...

@Polittikus,

é verdade que são muito barulhentas, principalmente quando são muitas, mas julguei que a inconveniência fosse por serem igualmente muito sujinhas...

Abraço

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