7 de junho de 2010

O COPO DO SRº SAMPAIO

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Caro leitor, esta é a história de um copo. De um delicado copo de vidro do mais fino e sensível material, decorado de desenhados motivos e feições graciosas e que se guarda como uma relíquia física entre uma das recordações de família. Seria apenas um simples copo, um copo de beber água engraçado e bonito, se envolto a ele não estivesse uma história por contar: a história de um copo oferecido por um alto diplomata do Estado Português a uma remota avó.

Uma lembrança e um sinal de amizade, o qual, por respeito ao seu ofertor, era apenas usado nas suas visitas à casa desta minha bisavó onde procurava para além de conversas um copo da fresca água da "Fontinha", como se outra não houvesse neste mundo e arredores. Um gesto simples, para quem simplicidade procurava!


(c) Santos & Santinhos


Numa tarde quente de um Junho como este, no ido ano da graça de 1945, Luiz Teixeira de Sampayo, como assim se ainda escrevia nesse tempo, distinto Sr. Embaixador do Estado português, dirigia-se ao Hotel Aviz, em Lisboa.



Luís Teixeira de Sampaio


Era uma figura de proa do regime do sr. Presidente do Conselho. Um seu testa-de-ferro no hábil jogo diplomático operado no tempo da grande guerra na moderação dos conflitos de interesses com a Inglaterra e a Santa Sé. Um filho da Sr. Viscondessa do Cartaxo. Um homem curioso e ávido de documentar a história que deixou escrita, em diversos estilos de prosa, com rara fluência e discernimento, delineada na frescura da sombra do seu pequeno paraíso, local mágico e agradável, a sua quinta do Casal do Nobre, na antiga Vale da Pinta, nas imediações do Cartaxo, onde se deixava ficar largas temporadas na companhia da sua irmã Júlia.


(c) Santos & Santinhos

(no espaço assinalado o frondoso arvoredo da quinta)

Quem conheceu este espaço por certo recorda o rico e frondoso arvoredo que compunha esta ilha imensa de recortes paradisíacos que tanto inspirou o Sr. Sampaio, não se achando difícil de o imaginar entre ele. Por todo o lado árvores de frutos sumarentos e árvores de frutos secos, árvores de beleza diversa e rara e árvores de sombra ou de lazer que guardavam o eco das recordações e das ricas memórias que provinham dos pátios que ladeavam o solar térreo. Este recatado albergue, refúgio destes dois irmãos, quando não se encontravam em Lisboa, era o retiro de despreocupações do mester nos Negócios Estrangeiros. Aqui, folgados e bebendo o ar perfumado das formosas sombras, iluminados pelo bem estar requintado de profunda inspiração cristã, entregavam-se à prática da caridade  pelos desfavorecidos.


Júlia das Mercês, solteira como seu irmão, mulher ociosa, de convicções religiosas, como todas as "meninas" da sua condição, ocupava-se pelo seu olho de se certificar por si mesma  a gesta que faziam. Conhecedora das necessidades e privações dos "jorneiros" da aldeia, nos tempos em que com ou sem guerra a austeridade era algo concreto de dura e impiedosa sentença, enchendo uma carroça de mantimentos descia à aldeia acomodando de bens substanciais quem nas sortes fora privado de trabalho - a jorna, caro leitor, redundantemente paga ao dia era a única garantia da subsistência diária (sem ela a privação, a precariedade e outras benesses que só à intimidade dos lares diziam respeito e que de boas coisas não constam no seu resumo). Júlia não conheceu o fim da Guerra. Também não conheceu esta contenda mais do que as descrições da imprensa, das ralações do conflito que adivinhava nos olhos do seu único irmão Luís ou nas conversas que ouvia entre este e o Ditador, em Lisboa quer nos recantos do Casal do Nobre. Partindo, deixou só no mundo quem mais não tinha do que esta defunta companhia. Luís, homem de emoções fortes e gosto pelas tradições, mantendo acesso o espírito da caridade, tal como antes e tal como sempre praticara, continuava a receber de braços abertos a população da aldeia que por vezes, e em certos dias, se deslocava em êxodo à sua quinta onde ao som da Banda de Música se desenhavam bailaricos espelhando no olhar do senhor Embaixador um brilho emocionado.


(c) Santos & Santinhos

Recepção do grupo da 1ª Comunhão
(Junho de 1931)



Nesse ido 4 de Junho, longe desta paisagem bucólica, local a que agora aspirava recolher-se de vez já que em breve lhe seria promulgada a aposentação, mas não sem antes lhe ser concedida a maior das honras que poderia receber ainda em vida: reencontrar a sua rainha, que desde 1910 se encontrava no exílio.

Desde o final de Maio de 1945, a Sr. D. Amélia de Orleans e Bragança, a última Rainha de Portugal, encontrava-se em Lisboa deambulando em romagem pelos locais onde vivera. Há muito que Salazar acenava à antiga soberana de Portugal solicitando o seu regresso à pátria, mas esta, após a morte de D. Manuel, seu filho, declinando o asilo num local que agora só lhe poderiam trazer espectros e sombras nada mais guardava de Portugal se não a recordação do melhor tempo em que lá vivera, aquele que considerava de bom e cheio de sorrisos. Que poderia ela fazer neste país sem rei? A que se dedicaria? Que causas abraçaria? Onde moraria?... As suas sementes sociais há muito que tinham dado largo fruto e como é óbvio o seu papel diplomático estava consumado desde a manhã republicana. Anos antes, aquilo que se creu num projecto de devolução do estado ao seu soberano, definhou com a sua morte no exílio. Mesmo com a boa vontade do Sr. Presidente do Conselho, haveria sempre neste rosto a mágoa e o pesar da difamação de pendor republicano que a apelidava de cobarde. Cobarde, para aquela que no Terreiro do Paço se elevou acima de qualquer um para com um indefeso ramalhete de flores defender os seus da feroz caçada que lhe abatera o marido e um filho. E era esta uma rara mulher de perfil humano, transcendendo para mais do que um depositário de esperanças de infantes reais. Se escapou ilesa ás balas, não escapou à tortura de uma longa vida em que certamente recordou em todos os dias o dia do terror, que em época recente pode ser visto e comparado com os piores acontecimentos que teimam em deitar o mundo que conhecemos abaixo. Durante 40 anos chorou baixinho no silêncio da sua câmara. Cerrando os olhos, ignorando a dor e o desalento, elevava os braços protegendo-se da memória do eco dos estampidos ressoantes que ainda lhe tangiam os ouvidos. Trágicas recordações. Agora, peregrinando na sua Lisboa e nos seus locais sagrados, que o Tejo havia limpo do cheiro da morte e do ódio, certificava-se de que era a única testemunha desse passado: a mais fiel e leal guardiã de um mundo que já não existia e que a seu ver, com o pragmatismo da sua proveta idade, não se reerguerá do túmulo onde está sepultado.

Malgrado este acontecimento de Estado, apesar de não ter revisitado o seu Alentejo, quisera ir a Fátima para no confronto de soberanas, em oração sentida, delegar à Rainha do Céus o seu luso poder matriarcal. Tal como o primeiro Bragança reinante das sortes da nação se entregou à mercê e protecção da Virgem de Vila Viçosa, oferecendo-lhe o título de Rainha e a Coroa de Portugal, Amélia, a última Bragança de poder, certa de deixar o mundo em breve, pela força da idade, sem herdeiros de conta, reitera num semelhante voto a esta moderna e divina soberana a guarda do seu povo, certa de que este a acarinhará como elemento de união acima de qualquer força terrena.


Recepção em Fátima
(08 de Junho de 1945)


Conduzido pelo seu chauffeur, Teixeira de Sampaio, sobe agora a avenida. Pensa no quanto seria bom se a sua irmã Júlia, tantas vezes a figura feminina a seu lado nestas ocasiões, ali estivesse. O calor da tarde enfada-o particularmente neste dia. A sua comoção é grande e o seu coração palpita com velocidades nervosas. Afoito, desejava a brisa da calma e perfumada fragrância dos pinheiros da sua quinta, já que as Jacarandeiras da Avenida, reforçavam o abafado calor. Sequioso, saliva pela frescura dos seus espaços maiores... mas tudo isso está lá longe num recanto da província ribatejana. Atabalhoados pensamentos, recortes de mil coisas da política, de uma vida e do trauma do stress da guerra que há pouco assinara o armistício. Sente-se um amanuense descontrolado pela confusão que reina em si. O Calor provoca-lhe a ansiedade e maiores tonturas. Discorre nas suas palpitações aceleradas a emoção a que vai ao encontro, controlável pela experiência da sua agilidade mental à boa maneira de ser de matizada educação senhorial à inglesa. Assim acreditava e assim pensava ser, mas não neste dia.

No Hotel Aviz, o melhor da Lisboa fascista, hospedara-se a Sr. D. Amélia.

No dia 4 de Junho de 1945, em cerimónia casual, receberia numa das salas deste edifício os seus correligionários e simpatizantes da causa monárquica. Alguns dos que conhecera ainda estavam vivos. Outros, desaparecidos ou ausentes, faziam-se representar pelas gerações seguintes herdeiras de títulos e pergaminhos bacocos revigorados nessa tarde. Nas salas reinava uma nervosa e frenética expectativa. De toilettes a estrear, o chic e o elegante impunham-se neste suado beija mão à antiga. Com graça e descontracção, sentada num trono improvisado sem palanque e baldaquino, Amélia, rodeada pelos convivas, cumprimentava, trocando breves palavras de esperança em saudações elegíacas em sinal do passado.



Recepção no Hotel Aviz
(04 de Junho de 1945)




"O Sr. Embaixador Teixeira de Sampaio..." anuncia o cicerone.

Amélia serenamente agradada com este manifestado comité, procura reconhecer agora o rosto do anunciado esboçando um régio sorriso. Aproximando-se, em passos cuidados, com os olhos postos na anciã figura, atordoado pelas arritmias que o traem na solenidade de cada passo, Teixeira de Sampaio avança. Comovido, respira ainda mais fundo procurando aliviar o seu estado. Ruborizado, eleva a sua mão ao coração, antes de a estender cerimoniosamente à sua rainha. Num descontrole controlado, deixa-se cair. Para muitos não constitui admiração, perante tantos exaltados que antes haviam-se manifestado com tal paixão, na desculpa por tantos anos de ausência. Teixeira de Sampaio, ajoelhado como um cavaleiro, tentando manter a postura, agarrado à mão da régia senhora, julgando assim acalmar-se, diz-lhe:


"Perdoe-me minha senhora, mas estou a sentir-me mal!"



Dito isto, caiu no chão morto. Uma síncope cardíaca fulminara-o ali naquele exacto momento. D. Amélia, assombrada, rodeada de fantasmas e pânico, mais tarde lembraria: a morte, sempre a morte!

Posto este acontecimento que poucos hoje guardam, um copo de água foi religiosamente guardado para nas gerações seguintes testemunhar o apreço, a amizade, a lembrança, assim como o bom coração, do único homem que por ele bebeu.


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2 comentários:

Isa GT disse...

Interessante e não conhecia esta história deste famoso copo.
Bjo

Bartolomeu disse...

@Isa GT,

Um copo que lembra coisas!

Abraço

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