18 de junho de 2010

EM DEMANDA DE DEUS...


(revisto e pouco aumentado)



(c) Santos & Santinhos


Nem tudo é o que parece.
Provérbio



Podia ser o resumo da vida deste homem: Nem tudo é o que parece!

E o que parece afinal?

Mais que discorrer
louvores vespertinos numa composição panegírica , neste lusco-fusco do dia crepúscular do Nobel Português, relatarei um episódio opurtuno assaz revelador do carácter deste homem que só pela mesma indiferença de trato me digno a relata-lo, já que em comum temos a má disposição e o azedume Ribatejano - ele o da borda d'água eu o das terras do bairro.

Pois bem, longe das Lezírias - Toiros, Campinos, Cavalos da Golegã, Largada de Toiros em Santarém e Copos no Cartaxo -, tive a opurtunidade de me cruzar uma única vez na vida com o ilustre José Saramago. O livro autografado que ali guardo diz-me que foi no dia 18 de Março de 2006. Nessa noite estreava-se em Lisboa, em São Carlos, e em todo o mundo, a ópera do maestro Corghi com o título homónimo da sua peça de teatro
Don Giovanni ou O Dissoluto absolvido. Comprei-o à pressa numa superfície comercial, por falta de tempo, e sim... mesmo com tantas livrarias de nomeada ali à porta, no Chiado, animando assim a intenção de guardar uma tripla lembrança, entre um sem número de recordações caricatas e picarezcas, dessa noite e desses espectáculos.

Desengane-se já todo o leitor que pense que eu tenho algum fascínio pelo Saramago. Não tenho! Somente o reconhecimento e admiração do seu talento ciente do contributo e do peso da sua gesta na nossa literatura, da sua internacionalidade e da aval de que este fenómeno de escrita está a milhas de ser apenas uma curiosidade do escaparate das livrarias de todo o lado. Dele pouco li, se não mesmo o que consegui ler com agrado e em leituras esforçadas para de perto ter uma opinião, mesmo que pouco abonatória, para no mínimo me poupar a estar calado.

Música interessante mas azeda como o feitio do nosso Zé, que no seu termo lá se concluiu. No backstage do Teatro,
na penumbra que é característica a espaço, procurei então o Nobel que com ar altivo caminhava no seu snob porte e distinção marxista como um radiante sol invernal da meia-noite, na companhia do maestro Corghi e da sua Pilar. Com apurada sensibilidade, ligeiramente visível, por estar perante um tal vulto, eu um aspirante a aprendiz de intelectual de ranho no nariz (tal e qual ele quando não era ninguém aos 40 anos), com meia vénia e a máxima das delicadezas e cordialidades recheada de um cumprimento laudatório respondido pelo silêncio das orelhas moucas do tal ilustre vulto, pedi-lhe um autografo acedido com a maior insignificância e frieza. Assinando o livro agradeceu excusando-se a um natural aperto de mão tirado a ferros, porque assim o quis!

O que acho?

O que está à vista, ou seja: um homem vaidoso encapotado de repúdio, de mal com a vida e respondão, e, que se diz abnegado de crenças que deseja ardentemente. Fama e Glória, sim, muita! Para mim, a sua busca, a sua maior demanda, em cada passo da sua vida, em cada linha impressa dos seus livros foi a sua desprezada religiosidade por Deus - Aquele com mais disparatou e zombou.

Faço idéia do que lá vai por cima a esta hora, a menos que ambos, em majestade imortal, em conluio e na galhofa,
na maior fanfarronice, se estejam a rir de nós e desta nossa momentânea mediocridade.


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13 comentários:

Isa GT disse...

Essa do vaidoso, para quem não convive com alguém, será um erro muito comum, o de querer rotular imediatamente alguém pelas aparências.
Mesmo que fosse, quem somos nós, comuns mortais, para fazer julgamentos de pessoas que nem sequer nos prejudicaram directamente nem puseram em causa a nossa liberdade individual.
Julgar sim, mas quem nos faz a vida num inferno e não por ter, apenas, ideias diferentes.
Beijinhos

Bartolomeu disse...

@Isa Gt,

José Saramago, assim como tantos outros vultos, geralmente e inevitavelmente tornam-se do dominio público perdendo na maioria das vezes a sua prórpia identidade por uma outra mais consensual e muitas vezes pouco convencional, para melhor deslizar nesse status.

Um artista que não seja vaidoso da sua arte e talento,da sua obra, e que não possua brio, muitas vezes arrogância generalizada, em sua defesa, será alguém de limitações e génio curto ainda que brilhante...

Ser Vaidoso, faz parte! Se ele não o fosse, creio que nãotería sido o homem que foi, sobretudo nas polémicas e na capacitado das duras declarações sobre Caim (a menos que estivesse louco).

É a minha opnião!

Bjnhos

Isa GT disse...

Na minha opinião, de vaidoso não tinha nada, talvez pessimista, ansioso,introvertido, de aspecto duro e frio mas que na intimidade e à confiança, muito sensível e de afabilidade fora do vulgar, pleno de humanidade e de bons sentimentos, mas isto, é o que eu penso :)
Bjo

polittikus disse...

Honra seja feita ao escritor que foi Saramago. Prémio Nobel...
Não gosto de Saramago nem como escritor, nem como homem. Tinha o defeito dos génios... achava que tinha sempre razão.

Bartolomeu disse...

@Isa Gt,

obrigado por partilhar o seu ponto de vista, aqui há smepre leitura para todas as opiniões!

Bjnhos

Bartolomeu disse...

@polittikus,

:))))

é sempre muito bom ter aqui o teu registo, sempre mesmo!

Abraço

Liricus disse...

Gigante, sem dúvida. A lingua portuguesa chora copiosamente sob seu caixão.
abraço,

Leandro Souza

Bartolomeu disse...

@Liricus,

sim, a língua escrita!

O que escrevia era com erudição, algo que já ninguém faz desde Pessoa ou do Eça, de entre os mais sonantes vultos. O que está por aí é come si, come ça e sem Saramago a mediocridade é o que vende mais!

Agora, talvez daqui por uns 50 ou mais anos apareça um novo vulto deste gabarito.

Abraço

L.O.L. disse...

Dele apenas li a Jangada. Amado e odiado por muitos. Chegou a hora dele. Verdade das verdades: Todos teremos o nosso astral...

Bartolomeu disse...

@L.O.L.,

ser odiado e amado é algo tão comum quanto a antiguidade da humanidade. Agora a minha questão:

Saberia ele viver com isso?

Abraço

António Rosa disse...

Olá Bartolomeu, bom dia,

Gostei muito deste seu post, sobretudo porque, segundo as suas palavras, existia uma afinidade entre ambos:

«...em comum temos a má disposição e o azedume Ribatejano...»

Só este bocadinho de prosa, vale por todo o post. Gostei, mesmo.

Quanto à obra do homem: está aí, para quem quiser ler.

Aos meus sentidos, é uma obra que, quando o descobrimos, parece um magma imenso e que, com a continuação, transforma-se num murmúrio audível, de quem diz o que pensa, fazendo literatura.

Achei piada ao episódio por si contado.

Abraço.

Bartolomeu disse...

@Antonio Rosa,

esse bocadinho de prosa é a redundancia do subtitulo deste blog... o episódio por im narrado, nesta palavras, só hoje ganhou graça, porque na altura não achei nenhuma tendo sido decepcionante o trato dele a um desconhecido que o gesto de aproximação revelava admiração (nunca tinha estado antes na presença de un Nobel).

Abraço

Xaninha disse...

as opinioes sao como as vaginas: cada um tem a sua...e quem quiser dar, dá!

eu abstenho-me..
não nutro especial simpatia pelo senhor desde k s declarou anti-patriota..
mas pronto, la teria as suas razoes...

que seja feliz e descanse em paz lá onde estiver...

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