21 de junho de 2010

OS MILAGRES DO SOL... É VERÃO

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Hoje foi o dia maior do ano e um dia grande para nós! Assim se entrou no Verão e por este é bem verdade que as altas temperaturas provocam calores e esturricam as ideias. Calores levam ao mau-estar. O que não mata moi, e o que moi enlouquece. Ora vejamos:

Seis meses passaram desde que o corrente ano faz mossa e Portugal nunca esteve tão miserável e tão folião, ante as vozes que dizem que não. Que o diga eu na minha pelintrice!

Saramago está morto e na mercê de uma fornalha cremado. Da sua birrenta e amarga língua não restam se não cinzas ininteligíveis. Não deixando saudades, deixa uma vasta e nobelizada obra para trincarmos até ficarmos sem dentes, quase que por força da obrigação. 17 anos a fazer manguitos a Portugal e aos seus e reclamam a vénia e a hipocrisia do mais alto cargo do Estado? A memória é muita curta quando o povo quer festa ou quando se quer lhe quer dar festas fazendo deste uma mole tonta e ludibriada. Saramago, enquanto pessoa inanimada, na cordialidade de trato dos vivos teve o que mereceu e todas estas reclamações soam a uma onda de descredibilização esquerdista ao mais natural candidato da direita às próximas presidenciais. Não se deixem impressionar é só campanha política.

7 a 0 foi o milagre do dia! Tanti auguri aos rapazes que arrecadam 40 mil € só por participarem no Mundial, valor que seguramente nunca conseguirei juntar de uma só vez na vida. Muitas bençãos e sinais da cruz, é certo, se viram aos jogadores. Hoje, de certo agradada pelas obrigadas penitências, jejuns e abstinências lascívas, a Senhora de Fátima,
de Vuvuzela nas mãos vestida de encarnado e verde, sem qualquer indiferença à sua selecção na hora em que o Sol atingiu o seu Zénit baixou sobre o Estádio inspirando galopantemente remates certeiros um a um até somar o mágico número da mítica goleada que já faz história, na qual, Cristiano Ronaldo, aparentemente um dos não eleitos, quisesse assim antes a Divina Providência, demonstrou que se não fosse um jogador de Futebol teria optado por uma profissão anonimamente mais modesta certamente na arte circense - valha-me Deus o disparate e o amenizado eufemismo dos comentadores só porque tropeçando na bola com grande buffunerie marcou um golo... Em resumo, ou foi milagre ou foi acaso!

Eu por cá, envolvido nos meus dramas existênciais, acho-me em fadiga e cansaço intelectual. Sem Catitisse de fundo, diminuído das minhas capacidades, defendi hoje uma tese. Uma posição em prol do meu futuro, chegando à conclusão que só sei que nada sei. Pior, nada mereço. Entre Doutos e Catedráticos de alta estirpe senti-me um asno descendente sem asas. Um mísero atrasado convencido do contrário. Enfim, não encontro um sentido de ironia para gracejar com a trampa que fiz. Só me apetece chorar e desaparecer!

Sayonara!


News about:

Portugal - Coreia do Norte, 7-0 (Crónica) , Ronaldo: "O meu golo foi divertido" ,
Chuva de golos: Portugal atropela Corei do Norte (7-0 ) e faz história , O que o Presidente faz "é diferente do que deve ser feito pelos amigos" , Portugal - Coreia do Norte, 7-0 (Crónica) , Carlos Queiroz:"Estávamos a precisar de um momento destes" , Corridas às livrarias em busca de José Saramago

18 de junho de 2010

EM DEMANDA DE DEUS...


(revisto e pouco aumentado)



(c) Santos & Santinhos


Nem tudo é o que parece.
Provérbio



Podia ser o resumo da vida deste homem: Nem tudo é o que parece!

E o que parece afinal?

Mais que discorrer
louvores vespertinos numa composição panegírica , neste lusco-fusco do dia crepúscular do Nobel Português, relatarei um episódio opurtuno assaz revelador do carácter deste homem que só pela mesma indiferença de trato me digno a relata-lo, já que em comum temos a má disposição e o azedume Ribatejano - ele o da borda d'água eu o das terras do bairro.

Pois bem, longe das Lezírias - Toiros, Campinos, Cavalos da Golegã, Largada de Toiros em Santarém e Copos no Cartaxo -, tive a opurtunidade de me cruzar uma única vez na vida com o ilustre José Saramago. O livro autografado que ali guardo diz-me que foi no dia 18 de Março de 2006. Nessa noite estreava-se em Lisboa, em São Carlos, e em todo o mundo, a ópera do maestro Corghi com o título homónimo da sua peça de teatro
Don Giovanni ou O Dissoluto absolvido. Comprei-o à pressa numa superfície comercial, por falta de tempo, e sim... mesmo com tantas livrarias de nomeada ali à porta, no Chiado, animando assim a intenção de guardar uma tripla lembrança, entre um sem número de recordações caricatas e picarezcas, dessa noite e desses espectáculos.

Desengane-se já todo o leitor que pense que eu tenho algum fascínio pelo Saramago. Não tenho! Somente o reconhecimento e admiração do seu talento ciente do contributo e do peso da sua gesta na nossa literatura, da sua internacionalidade e da aval de que este fenómeno de escrita está a milhas de ser apenas uma curiosidade do escaparate das livrarias de todo o lado. Dele pouco li, se não mesmo o que consegui ler com agrado e em leituras esforçadas para de perto ter uma opinião, mesmo que pouco abonatória, para no mínimo me poupar a estar calado.

Música interessante mas azeda como o feitio do nosso Zé, que no seu termo lá se concluiu. No backstage do Teatro,
na penumbra que é característica a espaço, procurei então o Nobel que com ar altivo caminhava no seu snob porte e distinção marxista como um radiante sol invernal da meia-noite, na companhia do maestro Corghi e da sua Pilar. Com apurada sensibilidade, ligeiramente visível, por estar perante um tal vulto, eu um aspirante a aprendiz de intelectual de ranho no nariz (tal e qual ele quando não era ninguém aos 40 anos), com meia vénia e a máxima das delicadezas e cordialidades recheada de um cumprimento laudatório respondido pelo silêncio das orelhas moucas do tal ilustre vulto, pedi-lhe um autografo acedido com a maior insignificância e frieza. Assinando o livro agradeceu excusando-se a um natural aperto de mão tirado a ferros, porque assim o quis!

O que acho?

O que está à vista, ou seja: um homem vaidoso encapotado de repúdio, de mal com a vida e respondão, e, que se diz abnegado de crenças que deseja ardentemente. Fama e Glória, sim, muita! Para mim, a sua busca, a sua maior demanda, em cada passo da sua vida, em cada linha impressa dos seus livros foi a sua desprezada religiosidade por Deus - Aquele com mais disparatou e zombou.

Faço idéia do que lá vai por cima a esta hora, a menos que ambos, em majestade imortal, em conluio e na galhofa,
na maior fanfarronice, se estejam a rir de nós e desta nossa momentânea mediocridade.


News About:

A morte de José Saramago na imprensa internacional , A morte de Saramago lidera Twitter, com mais de 50 mensagens por minuto , Morreu José Saramago aos 87 anos , Morreu José Saramago , A morte de Saramago na imprensa internacional , José Socrates: o país orgulha-se da obra de Saramago , Jerónimo de Sousa quer dia de luto nacional por José Saramago , Morreu José Saramago , Urna de Saramago já está nos Paços do Concelho de Lisboa , Poucos populares e muitos jornalistas aguardam cortejo fúnebre de Saramago , Saramago: Avião com restos mortais do escritor a caminho de Lisboa , Saramago: nação portuguesa perdeu "filho ilustre", escreveu Lula da Silva , Depoimentos ao PÚBLICO sobre Saramago , O homem que Cunhal recusou para director de "O Diário" , Morreu Saramago: qual foi a sua melhor melhor frase, faça homenagem , Morreu Saramago: "Nem Fernando Pessoa atingiu este patamar" , "A mensagem do Presidente é mais importante do que a sua presença" , O dia em que o ponto final se lembrou de José Saramago

POR SARAMAGO

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Quem me dera ser um Querubim sorrateiro e estar agora no céu a ver a triunfal chegada do destemido Nobel Finado ao Paraíso... e esvoaçante vigiar o confronto das velhas Senhoras:

Saramago versus Deus

ou seja

O Juízo Final do Viandeiro Errante da Azinhaga à estalada de meia-noite!


Contas a prestar, contas a pagar!




14 de junho de 2010

OLHANDO PELA TARDE DE ONTEM



(c) Santos & Santinhos

Ainda há locais que nos transmitem a paz pelo bem estar.
Esta janela é mágica ou então estava para o sensível!



SANTO ANTÓNIO JÁ SE ACABOU...



(c) Santos & Santinhos


Não fui ao Santo António!

Malgrado qualquer intenção subjacente, nem sequer queimei um ramo de rosmaninho que colhera e guardara religiosamente para oferecer, em suaves e ascendentes nuvens de fumo, a este herói português lembrado e distinguido à conta de despeito de pertença, só porque os Patovinos o fizeram na fábrica de Roma um Santo de distinção.


Oportunamente visitei num ano anterior a este dia de 2010 o túmulo do Santo. Vi as suas relíquias e pasmei perante a visão daquele órgão emissor de vocábulos que aos peixinhos do mar soube ser isco à retórica. Também vi, num outro precioso relicário, as suas cordas vocais, o aparelho pelo qual vibrou o ar que produziu tais eloquentes discernimentos, enquanto por cá, acolhido com honras de estado, apenas se guarda um dedo tão magro quanto um osso de galinha ou palito de ir aos dentes.

Não comi sardinhas, não fui a um arraial da cidade, nem muito menos avistei marchas sofridas pela tirania de Alfama. Somente uns carapaus fritos com arroz de tomate, um suculento manjar que desde a aurora da razão me faz sentir enlevado e aturdido de satisfações. Não saltei fogueiras, nem muito menos sacrifiquei uma alcachofra na demarche de um oráculo venusiano.

Entregue à ara de Morfeu, refreando ânimos das devassas do passado, recolhi-me e dormi porque não fui ao Santo António!


News about:

Marcha de Alfama vence concurso
, Marchas de Lisboa: Alfama vencedora da edição deste ano , No casal Ventoso também se plantam manjericos , Marcha de Alfama convenceu o público pelo segundo ano consecutivo

10 de junho de 2010

UMAS QUADRAS AO CAMÕES

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Não são novas!

Sem inspiração para mais, relembro um post feito publicado há um ano atrás, que visto e lido por alguns, dou a agora a conhecer a outros. Portanto, um desenho e umas ácidas quadras ao senhor que está na génese deste feriado.



(c) Santos & Santinhos



Que fizeste tu, ó Luís Vaz?...

De um poema de grandeza
A miséria de um povo geraste.
De uma grã vontade
Icarizaste um país que se afoga
Num mar de alheias vontades.
Não te bastou naufragares?...

Queimasse-te o sol a meninge,
Fosses tu privado de membros
Ou de ambas as vistas,
E outros não menos talentosos
A glória teriam dado
Em vez da orgulhosa ruína
De que Portugal é hoje feita.


Que fizeste tu, ó Luís Vaz?

Não te bastavam galanteios
Em eloquentes Sonetos
Cortejando nobres Damas
E, nos becos, esbeltos donzéis?
Audaz cobiça em ser grande!
Feriste de luxúria,
Minaste de paixão
O coração de um jovem rei,
Príncipe demente
De sonhos e quimeras sem instinto!

Mataste um Império!
Foste esquecido.
Foste relembrado por essa corja
Da qual Portugal é hoje feito
Que enchendo o peito às novas gentes,
Que em vão jeito te sublimaram,
Em sonhos de grandeza,
O refeito Império deixaram matar.


Que fizeste tu, LUÍS VAZ!!!!

Entregaste-nos aos grilhões da Europa
- Madrasta sem amor
Compaixão e misericórdia -
Qual inimigo da pátria lusa
Que por Camões hoje,
SÓ PORTUGAL SE FESTEJA!
(Ouviste! Só Portugal...)
O Portugal atormentado
Sem eira, nem beira!

Vil, Célere, Facínora!
És o anti-herói que a cega gente
Não distingue nem discerne,
E se alva em mais valia!
Por bem que vais de retirada,
Ficam-se os galanteios
E de ti o tal nobre canto
Que tanta má influência
A tantos, e inocente gente, suscitou.
Por eles te clamo:
Morras!

Vai!



7 de junho de 2010

O COPO DO SRº SAMPAIO

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Caro leitor, esta é a história de um copo. De um delicado copo de vidro do mais fino e sensível material, decorado de desenhados motivos e feições graciosas e que se guarda como uma relíquia física entre uma das recordações de família. Seria apenas um simples copo, um copo de beber água engraçado e bonito, se envolto a ele não estivesse uma história por contar: a história de um copo oferecido por um alto diplomata do Estado Português a uma remota avó.

Uma lembrança e um sinal de amizade, o qual, por respeito ao seu ofertor, era apenas usado nas suas visitas à casa desta minha bisavó onde procurava para além de conversas um copo da fresca água da "Fontinha", como se outra não houvesse neste mundo e arredores. Um gesto simples, para quem simplicidade procurava!


(c) Santos & Santinhos


Numa tarde quente de um Junho como este, no ido ano da graça de 1945, Luiz Teixeira de Sampayo, como assim se ainda escrevia nesse tempo, distinto Sr. Embaixador do Estado português, dirigia-se ao Hotel Aviz, em Lisboa.



Luís Teixeira de Sampaio


Era uma figura de proa do regime do sr. Presidente do Conselho. Um seu testa-de-ferro no hábil jogo diplomático operado no tempo da grande guerra na moderação dos conflitos de interesses com a Inglaterra e a Santa Sé. Um filho da Sr. Viscondessa do Cartaxo. Um homem curioso e ávido de documentar a história que deixou escrita, em diversos estilos de prosa, com rara fluência e discernimento, delineada na frescura da sombra do seu pequeno paraíso, local mágico e agradável, a sua quinta do Casal do Nobre, na antiga Vale da Pinta, nas imediações do Cartaxo, onde se deixava ficar largas temporadas na companhia da sua irmã Júlia.


(c) Santos & Santinhos

(no espaço assinalado o frondoso arvoredo da quinta)

Quem conheceu este espaço por certo recorda o rico e frondoso arvoredo que compunha esta ilha imensa de recortes paradisíacos que tanto inspirou o Sr. Sampaio, não se achando difícil de o imaginar entre ele. Por todo o lado árvores de frutos sumarentos e árvores de frutos secos, árvores de beleza diversa e rara e árvores de sombra ou de lazer que guardavam o eco das recordações e das ricas memórias que provinham dos pátios que ladeavam o solar térreo. Este recatado albergue, refúgio destes dois irmãos, quando não se encontravam em Lisboa, era o retiro de despreocupações do mester nos Negócios Estrangeiros. Aqui, folgados e bebendo o ar perfumado das formosas sombras, iluminados pelo bem estar requintado de profunda inspiração cristã, entregavam-se à prática da caridade  pelos desfavorecidos.


Júlia das Mercês, solteira como seu irmão, mulher ociosa, de convicções religiosas, como todas as "meninas" da sua condição, ocupava-se pelo seu olho de se certificar por si mesma  a gesta que faziam. Conhecedora das necessidades e privações dos "jorneiros" da aldeia, nos tempos em que com ou sem guerra a austeridade era algo concreto de dura e impiedosa sentença, enchendo uma carroça de mantimentos descia à aldeia acomodando de bens substanciais quem nas sortes fora privado de trabalho - a jorna, caro leitor, redundantemente paga ao dia era a única garantia da subsistência diária (sem ela a privação, a precariedade e outras benesses que só à intimidade dos lares diziam respeito e que de boas coisas não constam no seu resumo). Júlia não conheceu o fim da Guerra. Também não conheceu esta contenda mais do que as descrições da imprensa, das ralações do conflito que adivinhava nos olhos do seu único irmão Luís ou nas conversas que ouvia entre este e o Ditador, em Lisboa quer nos recantos do Casal do Nobre. Partindo, deixou só no mundo quem mais não tinha do que esta defunta companhia. Luís, homem de emoções fortes e gosto pelas tradições, mantendo acesso o espírito da caridade, tal como antes e tal como sempre praticara, continuava a receber de braços abertos a população da aldeia que por vezes, e em certos dias, se deslocava em êxodo à sua quinta onde ao som da Banda de Música se desenhavam bailaricos espelhando no olhar do senhor Embaixador um brilho emocionado.


(c) Santos & Santinhos

Recepção do grupo da 1ª Comunhão
(Junho de 1931)



Nesse ido 4 de Junho, longe desta paisagem bucólica, local a que agora aspirava recolher-se de vez já que em breve lhe seria promulgada a aposentação, mas não sem antes lhe ser concedida a maior das honras que poderia receber ainda em vida: reencontrar a sua rainha, que desde 1910 se encontrava no exílio.

Desde o final de Maio de 1945, a Sr. D. Amélia de Orleans e Bragança, a última Rainha de Portugal, encontrava-se em Lisboa deambulando em romagem pelos locais onde vivera. Há muito que Salazar acenava à antiga soberana de Portugal solicitando o seu regresso à pátria, mas esta, após a morte de D. Manuel, seu filho, declinando o asilo num local que agora só lhe poderiam trazer espectros e sombras nada mais guardava de Portugal se não a recordação do melhor tempo em que lá vivera, aquele que considerava de bom e cheio de sorrisos. Que poderia ela fazer neste país sem rei? A que se dedicaria? Que causas abraçaria? Onde moraria?... As suas sementes sociais há muito que tinham dado largo fruto e como é óbvio o seu papel diplomático estava consumado desde a manhã republicana. Anos antes, aquilo que se creu num projecto de devolução do estado ao seu soberano, definhou com a sua morte no exílio. Mesmo com a boa vontade do Sr. Presidente do Conselho, haveria sempre neste rosto a mágoa e o pesar da difamação de pendor republicano que a apelidava de cobarde. Cobarde, para aquela que no Terreiro do Paço se elevou acima de qualquer um para com um indefeso ramalhete de flores defender os seus da feroz caçada que lhe abatera o marido e um filho. E era esta uma rara mulher de perfil humano, transcendendo para mais do que um depositário de esperanças de infantes reais. Se escapou ilesa ás balas, não escapou à tortura de uma longa vida em que certamente recordou em todos os dias o dia do terror, que em época recente pode ser visto e comparado com os piores acontecimentos que teimam em deitar o mundo que conhecemos abaixo. Durante 40 anos chorou baixinho no silêncio da sua câmara. Cerrando os olhos, ignorando a dor e o desalento, elevava os braços protegendo-se da memória do eco dos estampidos ressoantes que ainda lhe tangiam os ouvidos. Trágicas recordações. Agora, peregrinando na sua Lisboa e nos seus locais sagrados, que o Tejo havia limpo do cheiro da morte e do ódio, certificava-se de que era a única testemunha desse passado: a mais fiel e leal guardiã de um mundo que já não existia e que a seu ver, com o pragmatismo da sua proveta idade, não se reerguerá do túmulo onde está sepultado.

Malgrado este acontecimento de Estado, apesar de não ter revisitado o seu Alentejo, quisera ir a Fátima para no confronto de soberanas, em oração sentida, delegar à Rainha do Céus o seu luso poder matriarcal. Tal como o primeiro Bragança reinante das sortes da nação se entregou à mercê e protecção da Virgem de Vila Viçosa, oferecendo-lhe o título de Rainha e a Coroa de Portugal, Amélia, a última Bragança de poder, certa de deixar o mundo em breve, pela força da idade, sem herdeiros de conta, reitera num semelhante voto a esta moderna e divina soberana a guarda do seu povo, certa de que este a acarinhará como elemento de união acima de qualquer força terrena.


Recepção em Fátima
(08 de Junho de 1945)


Conduzido pelo seu chauffeur, Teixeira de Sampaio, sobe agora a avenida. Pensa no quanto seria bom se a sua irmã Júlia, tantas vezes a figura feminina a seu lado nestas ocasiões, ali estivesse. O calor da tarde enfada-o particularmente neste dia. A sua comoção é grande e o seu coração palpita com velocidades nervosas. Afoito, desejava a brisa da calma e perfumada fragrância dos pinheiros da sua quinta, já que as Jacarandeiras da Avenida, reforçavam o abafado calor. Sequioso, saliva pela frescura dos seus espaços maiores... mas tudo isso está lá longe num recanto da província ribatejana. Atabalhoados pensamentos, recortes de mil coisas da política, de uma vida e do trauma do stress da guerra que há pouco assinara o armistício. Sente-se um amanuense descontrolado pela confusão que reina em si. O Calor provoca-lhe a ansiedade e maiores tonturas. Discorre nas suas palpitações aceleradas a emoção a que vai ao encontro, controlável pela experiência da sua agilidade mental à boa maneira de ser de matizada educação senhorial à inglesa. Assim acreditava e assim pensava ser, mas não neste dia.

No Hotel Aviz, o melhor da Lisboa fascista, hospedara-se a Sr. D. Amélia.

No dia 4 de Junho de 1945, em cerimónia casual, receberia numa das salas deste edifício os seus correligionários e simpatizantes da causa monárquica. Alguns dos que conhecera ainda estavam vivos. Outros, desaparecidos ou ausentes, faziam-se representar pelas gerações seguintes herdeiras de títulos e pergaminhos bacocos revigorados nessa tarde. Nas salas reinava uma nervosa e frenética expectativa. De toilettes a estrear, o chic e o elegante impunham-se neste suado beija mão à antiga. Com graça e descontracção, sentada num trono improvisado sem palanque e baldaquino, Amélia, rodeada pelos convivas, cumprimentava, trocando breves palavras de esperança em saudações elegíacas em sinal do passado.



Recepção no Hotel Aviz
(04 de Junho de 1945)




"O Sr. Embaixador Teixeira de Sampaio..." anuncia o cicerone.

Amélia serenamente agradada com este manifestado comité, procura reconhecer agora o rosto do anunciado esboçando um régio sorriso. Aproximando-se, em passos cuidados, com os olhos postos na anciã figura, atordoado pelas arritmias que o traem na solenidade de cada passo, Teixeira de Sampaio avança. Comovido, respira ainda mais fundo procurando aliviar o seu estado. Ruborizado, eleva a sua mão ao coração, antes de a estender cerimoniosamente à sua rainha. Num descontrole controlado, deixa-se cair. Para muitos não constitui admiração, perante tantos exaltados que antes haviam-se manifestado com tal paixão, na desculpa por tantos anos de ausência. Teixeira de Sampaio, ajoelhado como um cavaleiro, tentando manter a postura, agarrado à mão da régia senhora, julgando assim acalmar-se, diz-lhe:


"Perdoe-me minha senhora, mas estou a sentir-me mal!"



Dito isto, caiu no chão morto. Uma síncope cardíaca fulminara-o ali naquele exacto momento. D. Amélia, assombrada, rodeada de fantasmas e pânico, mais tarde lembraria: a morte, sempre a morte!

Posto este acontecimento que poucos hoje guardam, um copo de água foi religiosamente guardado para nas gerações seguintes testemunhar o apreço, a amizade, a lembrança, assim como o bom coração, do único homem que por ele bebeu.


News about:

A PROPÔS...

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Assim como os maviosos insectos voadores opurtunistas de uma janela aberta, entrando de rompante pela casa adentro, acomodando-se ao conforto do espaço pleno de argencia efémera sonora, cito agora o ilustre poeta de haxen inglês do tempo da grande royal Victoria, lembrado por um distinto e inteligente seguidor:

"o público é muitíssimo tolerante, tolera tudo... menos o génio"

Oscar Wilde
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6 de junho de 2010

BEETHOVEN PARA UM FIM DE TARDE

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Já que a música que se difunde pela minha janela não chega mais longe do que ao eco desta rua:


Rondó em Dó Maior
Op.51 Nº1

Pianista:
Alfred Brendel
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OS ÚLTIMOS DIAS...

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Envolto em mil coisas que me levam ao nada e ao marasmo vejo os dias a correrem galopantemente sem a noção da regra diária. Ontem era Domingo e já hoje é Domingo. Impressionante! Só, sem graça, esquecido e desprezado, eis-me aqui, agora, nesta hora e instante, sentado no desconfortável chão de tijolo, tentando exprimir a minha inércia e incapacidade de produzir algo.

As minhas mãos, ociosas de algo perdurante, anseiam a diferença mas delas nada sai. A Mother board corrompida executa em moto perpetuo um binarizado sistema: 0 1 0 1 0 1 0 1 0 1... traduzido por sentimentos, gestos, atitudes e supressão de necessidades primárias. Há semanas que não toco no meu piano algo que não seja interrompido pelo desânimo... e hoje, enquanto me exprimia num impulso inspirador, buscando na janela aberta uma ventilante e refrescante brisa a este calor que me envolve e me entorpece a razão, sinto um desconhecido passeante troçar-me. Mentecapto! Insensato espírito, rindo. Não de mim, por certo, mas da sua estupidez e da sua perversa incultura. Criatura que pela repudiante expressão crítica, merecia ser privada imediatamente do sentido da audição já que Beethoven, Verdi e Auber, que tentava expressar, pela grandeza dos seus méritos, tal não merecem. Vil e Canalha esta criatura do sexo fraco, provando o quanto fraca é mesma a sua meninge ao entendimento de tão sublime arte, já que esta perdurá para lá do seu indiferente ocaso, só mesmo chorado pela sua prole copulada à força de obrigadas obrigações matrimonias sem nunca ter subido ao éter e ter conhecido as delícias do extâse total desse acto físico.

Pena que os antigos menires e suas funções místicas já não estejam em voga pois era um bom sítio para convidar a ir semelhante feminina criatura friccionar-se na companhia de tantas outras semelhantes criaturas despeitadas de ambos os sexos.

Os cães ladram e caravana passa, lá diz o povo sapiente, e é verdade, mas a dor é imensa!

Numes, misericórdia. Aliviai-me este fardo!

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1 de junho de 2010

PRÉMIO: HOMENS FABULOSOS

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Recebi do excelso António Rosa, senhor da Cova do Urso, este selo que nos premeia como um homem fabuloso.

Apesar de não o conhecer pessoalmente, o António Rosa, pessoa de uma muito atenta simpatia, é autor de um blog em torno de si próprio onde se cruzam e se mesclam o seu trabalho profissional e uma enorme força centrifuga com uma maior vontade expansão e difusão pois quem entra na Cova do Urso entra num mundo místico onde a astrologia é a base da socialização.

Um pouco diferente do habitual, o objecto deste prémio, já que distingue as pessoas que estão por de trás dos blogues em vez dos mesmos, em termos que habitualmente são atribuídos no resumo de factos para a distinção de uma vida, ou seja post-mortem, para a glória de uma memória agrupada numa galeria de heróis, aceito este prémio no âmbito bloguístico como distinção do que aqui explanei, já que pela mão deste homem, o Bartolomeu, surge o blog, e ambos, como um ser uno, são indissociáveis.





Sem que este espaço tenha o mediatismo do meu predecessor premiado, nem tão pouco um tão avantajado número de seguidores, os quais não conheço mais do que a simpatia e gentileza dos comentários que nos deixam, dedico este prémio a todos os homens e mulheres de bem que nos visitam e nos que têm na amizade pelo Santos & Santinhos a coragem e o zelo de nos acompanharem e nos deixarem o seu comentário.

Com a maior justiça possível enumeramos todos aqueles que nos comentam, já que é o único registo expressivo que temos de quem nos visita, uma vez que nos vemos lamentavelmente impossibilitados de citar todo o visitante numérico e anónimo que de forma regular, esporádica ou ocasional por aqui passa.

A todos, o meu muito obrigado e em reforço das minhas palavras, desde o nosso mais antigo visitante e comentador até aos que chegam neste momento, bem-hajam:


Alguém que gosta de desenho
anareis
Ana Margarida
Anónimo (s)
António Rosa
ANTÍNOO
Arq. Luís Marques Silva
Arte por um canudo 2
BM
búzio
Bruno
Caracol dado ri
Clayton Ferreira
Cristiano Contreiras
Daniel Silva (Lobinho)
Diogo Mayo
Donatien Alphonse François
Dragon Fly
é texto, e do bom!
Efigênia Coutinho
ELEMENTO MUSICAL
Elenáro
Fada Moranga
Francisco Costa
Gastão de Brito e Silva
Gonçalo
Hugo de Oliveira
I Love Brasil/Portugal
Intemporal
Isa Gt
Isabel Mendes Ferreira
J.O.
james p.
Jair Junior
JP
José Heitor Santiago
Joaquim
João Oliveira
JotaSP
L.O.L
Leandro
Leca
Luís P.
Luís Tavares
maiskemaluko
Mak
Makyarim
Maionese
Mari Pellens
Manuela
Maria Lúcia
Nina
Nuno Resende
O Nosso Castelo
Olímpia Rodrigues
Ótario
Paul Pinkus
Pedro Antônio
polittikus
PQ
praia
praia da lua
praia em mim
Rabisco
RAUL
Riacrdoo
Rui Caldeira
Ruy A
Santinhos
Stantley
Susaninha
Tiago
Xaninha
Zé Manuel
Zé Miguel

E porque me esqueci de referir, faço agora apontamento. Cada um daqueles que nos honre aceitando esta nomeação e prémio, deverá pegar no selo e levá-lo para o seu blog. Lá, deverá tomar um procedimento idêntico atribuindo-o a quem assim o entender. Por fim, deverá expor o selo, indicando a sua proveniência.

E são assim as regras deste pequeno gesto.


««««««»»»»»»


Ganhei do excelso Maionese, senhor do blog Força na Maionese, a mesma nomeação e o mesmo prémio.

O Maionese é um rapaz cheio de vigor e ímpeto, típicos da sua juventude e da animosidade emergente do seu recém-criado blog, que sem perder tempo com filosofias de trazer por casa escreve umas divertidas tiradas satíricas num estilo explosivo e directo
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