23 de maio de 2010

SANTA QUITÉRIA - VÍRGEM E MÁRTIR



(c) Santos & Santinhos


O martírio de Quitéria
Pedro Alexandrino

Basílica de Santa Quitéria de Meca
Alenquer




O seu nascimento, a par das suas oito irmãs gémeas, em 120, na cidade de Bracara Augusta, touxe-lhe o repúdio maternal no assombro do considerado acto de terrifico macabro que a mente humana por não saber explicar assim julgou.

Cálcia Lúcia, a mulher do governador romano Lúcio Caío Atílio Severo, que administrava o convento romano da Lusitânia correspondente à actual zona norte de Portugal e da Galiza, estando de esperanças entrou em trabalho de parto. Surpreendendo a parteira e as assistentes do parto deu à luz, não uma ou duas crianças, como seria comum, mas nove, sendo todas elas perfeitas e do sexo feminino. Número que não lhe inspirou bons augúrios neste fenómeno que natureza considerou no seu ventre, e, que a seu ver, era aberrante. Cheia de temor e superstição, receando ter colocado no mundo alguma monstruosidade, pelas consequências invariáveis que esta gesta lhe pudesse vir causar, sobretudo pelo rigor do seu marido, incube a parteira que lhe assistiu de com a maior descrição matar as crianças, afogando-as num rio não muito distante. A parteira, de nome Cilía, mulher boa e cristã, com um olhar de maior simplicidade não vê nas meninas mais do que bebés desprotegidos. Comiserada e incapaz de prosseguir com a obrigação, entrega secretamente as meninas ao cuidado de Ovídio, o lendário Bispo de Braga.

As nove meninas enjeitadas, apressadamente baptizadas com a graça e nomes cristãos, passaram a ficar sob a protecção deste santo homem, que as entregando ao cuidado de diversas famílias cristãs da sua confiança, para melhor as educarem e guardarem, as vigiou sempre de perto com grande paternidade e o melhor zelo. Com a idade de 10 anos, as meninas, agora unidas e i
nspiradas na fé cristã, decidem viver num espaço patrocinado por Ovídio, onde levariam um vida dedicada à causa cristã.

Lúcio Caío Atílio Severo, desconhecedor de todo o assunto, encontrando-se
na altura do parto acompanhando o Imperador Romano, Adriano, em viagem pelas Espanhas, só anos mais tarde viria a tomar conhecimento do ocorrido quando por uma invectiva imperial contra os cristãos as meninas, agora com 15 anos, vieram à sua presença como prisioneiras. Conhecedoras da sua origem, colocando-se à mercê do destino, contam ao governador a história do seu malogrado nascimento. Perplexo, e uma vez certo da veracidade da narração, acolhe-as, dignificando-as com o seu nome e as regalias de nobres da sua condição. Porém, um único requisito para a salvação oferecida: renunciar à vida e à causa cristã, prestando doravante tributo aos Deuses romanos.

A Quitéria, Severo, propõe-lhe um imediato casamento com
um tal de Germano, um nobre e cortesão da sua casa. Quitéria, tal como as irmãs, pedem tempo para ponderarem as suas decisões. Uma vez sozinhas difundem-se, fugindo por montes e vales. Quando Severo se apercebe do engodo, ordena ás suas hostes uma perseguição em demanda das meninas. Quitéria, sem a sorte das irmãs, é capturada. De novo na presença do pai, este ainda com largo benefício, pede-lhe que pense melhor, sobretudo nas promessas de casamento, aliciando-a com o garboso e rico noivo. Ganhando tempo, foge novamente, desta em conjunto com 38 prisioneiras da invectiva imperial.


(c) Santos & Santinhos

A conversão de Sentinelas no Cárcere
Pedro Alexandrino

Basílica de Santa Quitéria de Meca
Alenquer



Refugiadas no monte Pombeiro, na zona de Felgueiras, este indiscreto grupo de cristãs foragidas em pouco tempo vêm-se novamente capturadas e prisioneiras no seu próprio refúgio. No monte, as jovens impressionam os sentinelas pelas suas convicções maiores levando alguns à conversão. Por fim, e uma vez mais interrogada, agora por emissário de Severo, Quitéria, avança dizendo, ser noiva mística de Jesus Cristo, e por essa ligação não pode aceitar um outro compromisso nupcial. Então, Severo, inclemente por esta recusa, em sinal do seu poder, dita a sua morte e para se certificar da execução ordena que seja o próprio Germano a perpetra-la.

Sem que conste na sua hagiografia que tivesse sido torturada, mais do que a pressão psicológica já narrada, em oposição aos procedimentos físicos que antecedem o martírio de tantas jovens ou virgens de convicção cristã inabalável, consta apenas que não ofereceu qualquer resistência.


Subindo ao monte de espada erguida, Germano, acompanhado por um bando de carrascos acercam as jovens desferindo-as de morte. Uma vez decepada, numa sentença que acusa a sua nobreza, e, jorrada pela cor do martírio, Quitéria, levantou-se perante o pasmo de todos. Pegando na sua cabeça, numa pantomina espectacular de maravilhoso macabro, atenta pelos olhares incrédulos e alvos de horror, encenou uma caminhada até à vila mais próxima enquanto os carrascos, perplexos, sentenciados pela injustiça cometida, caíam por terra com a vista turva e cheia de escuridão.

Chegada ás portas do tal lugar, Quitéria, desfalecendo sem vida ou qualquer outro impulso, foi acolhida e sepultada com grande dignidade e sentimento de piedade.
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