12 de maio de 2010

A PROPÓSITO DA VINDA DO PAPA

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Durante as semanas e dias que antecederam a chegada do Papa a Portugal, temeu-se por todo o lado uma onda de descrença e desvalorização do momento em que o país está neste momento imbuído. A cidade de Lisboa e todos aqueles que dos seus arredores, subúrbios e regiões próximas mais distantes - peregrinos, curiosos e passeantes - desceram à grande urbe, a capital do país, provando o contrário. Sem medo saiu-se à rua para com alegria e vivas saudar e venerar respeitosamente o Bispo de Roma, que neste momento se encontra entre nós. Afinal Portugal conserva a fé. Fé, que, ainda que embrutecida pelo sono que a envolve, de acordo com as expectativas mundanas e pessoais de cada um, vê-se nestes dias desperta e esboçada no sorriso de cada um de nós, trazendo um centelha de esperança na alegria de viver.

Na verdade, e, em verdade, vivemos num mundo centrado demasiado no eu. O Eu que se proclama. O Eu do ego e do seu egoísmo, individualismo e umbiguismo. Seguir as palavras de Jesus, uma vez que encerram os princípios de vida, existência e coabitação Ocidental é concretizar a harmonia social com valores e preceitos - pois Jesus Cristo, mais do que um ser divino, é nas suas palavras o amor fraterno entre cada um de nós unido a todos - é viver sem deixar de ser o que se é e quem se é, porém vivendo o mundo, no mundo e para o mundo. A esperança ainda é o que nos governa e move. Segui-la é acreditar no futuro sorrindo em conformação do nosso eu com afirmação. Crer é ter fé. Ter fé é acreditar em algo superior que nos move e nos conduz e nos faz partilhar para ter em abundância e reciprocidade. Afinal, em dois mil anos o Cristianismo não nos ensinou outra coisa apesar da nossa sisudez e desconfiança.

É aqui que as ameaças, grupos e afins colectivos que sentem o mal estar político que representa a visita de Ratzinger, enquanto papa Bento XVI, à cidade de Lisboa. Porém, resta-me afirmar:

Que contentamento reside nessas pessoas?

A contrição, a reflexão e a auto-crítica melhor serviço individual faria do que a habitual tendência projeccionista em culpar os outros pelos nossos medos, erros, misérias e desgraças. Assim se purga uma existência culpabilizando os outros ou aqueles mais tangíveis e susceptíveis, em função do síndroma do super-homem que cada um de nós julga encerrar e quer a todo custo abraçar. Assim, caro leitor, qual de nós, e, à imagem de Jesus Cristo, que era tão vulnerável quanto nós somos, era capaz de tomar o seu exemplo?

Quem se sacrificaria?

Um super-homem saberia suportar com persistência e coragem cada acto ou momento até o vencer, porém nenhum de nós sabe. Ninguém quer ou ousa sofrer, nem mesmo em prole de si mesmo. Assim, até saberia responder por todos, mas não ouso. Direi apenas, sublinhando e lembrando aquilo que já sabemos e nunca é demais lembrar: é neste ponto que Jesus, esse sim o verdadeiro super-homem, se elevou na sua condição humana acima de qualquer outro ser. Se era esse o propósito da sua existência, a Deus pertence o mistério e o segredo e a cada um de nós aceitar e respeitar.

Em súmula, caro leitor que me é atento, é neste oposto de desconfiança alheia que reside a nossa descrença e culpa. Culpa na falta de conhecimento e reconhecimento. Culpa na arrogância que nos move todos os dias... enfim, tanto para dizer... e neste dizer, mais do que ler estas palavras que pouco resumem, pensar e olhar interiormente. Se cada um dos 60 visitantes diários deste blogue o fizessem seria seguro, que, a angústia e tristeza que nos invade o olhar sobre diversas formas, daqui a uns dias se transformaria num tímido sorriso e com o tempo na alegria de viver em comunhão com o mundo e com o infinito, até a meninge de cada um de nós se virar para Deus e com verdadeira gratidão agradecer-lhe o que de bom ou satisfatório a vida nos vai mostrando e trazendo.

Na realidade, onde estiveram hoje as manifestações anti-papa?

Em 80.000 pessoas que se deslocaram até ao Terreiro do Paço ou a Lisboa, 2 assentaram arraiais sobre o arco da Rua Augusta vestidas de negro mostrando o seu protesto. Outras que não vi, andaram a distribuir condoms no Rossio... Porém a maioria dos habitantes da cidade mais laica de Portugal,
pioneira em experimentalismos e tendências reformistas extremistas que conduziram o mundo ao colapso no século anterior, que segundo se diz tão descrentes como toda a amplitude desse conceito, hoje, desceram até ao Terreiro do Paço cheios de esperança, não para ferir ou agredir mas para acreditar. As inflamadas e prometidas manifestações e afins, afinal não passarem disso mesmo e até agora, e também até ver, promessas! Promessas ou actos de tal forma tão pacíficos que se diluíram no meio de tantos e tantos que por lá andavam com alegria. Durante todo o dia sentia-se nas ruas de Lisboa euforia e satisfação, materializados em vivas e sorrisos, em longos e praticamente ininterruptos cordões humanos, em expressão do máximo sentimento de respeito que deve ser o tributo mínimo oferecido.

O silêncio e a indiferença são ainda as melhores armas que uma oposição pode tomar para expressar o seu descontentamento ao invés do terrorismo da provocação e da violência gratuita, desmesurada e sem convicção. Lembro pois a todos que a Igreja é ainda uma instituição aberta e só entra nela quem quer. Por isso só quem está no seu seio nela participa se pode arrogar a pedir justificações de actos e comportamentos quando algo não vai bem, a menos que tenha sofrido na pele algo de incomodo e e tenha afastado. Mas se não a denuncia directamente, porque a agride juntando-se à mole anónima? Porque não clama justiça? Se a condena então, porque a protege em conjunto com os seus indigentes com postura de esquizofrenia?...

Por fim, e terminando, é curioso notar que os protestos partem daqueles que não participam e não confiam nela, a Igreja. É caso para pensar: se reclamam é então para quê: vexar? deitar abaixo? destruir? ou simplesmente quererão apenas fazer parte e tem vergonha disso ou não são capazes, porque as "vidinhas" e convicções mesmo que erradas são demasiado boas?

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