14 de maio de 2010

EM DESPEDIDA A BENEDICTUS XVI, UMAS PALAVRAS DE APREÇO


Santo Padre,

em agradecimento à sua passagem por Portugal, permita-me, uma vez que em comum temos o gosto de tocar piano, e na bela arte de passar as mãos num teclado partilhamos o mesmo grau de virtuosismo, em que errar é humano e a correcção a terapia das nossas imperfeições, sem que nunca venhamos a atingir a perfeição dessa prática ou aspirar a uma glória conhecida enquanto tal, permita-me pois, oferecer-Lhe um belíssimo trecho das célebres variações de Bach, que, tal como eu, de certo apreciará e é por isso o objecto desta preferência.

Escolhi para o executar o insigne pianista Daniel Barenboim, um dos meus preferidos, já que nada idêntico encontrei por um pianista português de envergadura, até mesmo da nossa ministra da cultura, a quem teve o prazer de cumprimentar (essa sim uma grande virtuouse du piano em acompanhar alguém, como várias vezes tive o privilégio, uma vez que por essa e outras artes frequentei as melhores classes das melhores escolas do país), já que eu, por vergonha, por ser apenas um medíocre tocador, constantemente vaiado pelo seu vizinho, nunca coloquei um vídeo meu no Youtube, em virtude de se poder ouvir a marcação de compasso que em certos dias este meu ouvinte insiste em me acompanhar vigorosamente, batendo na parede.

Quero agradecer-Lhe também por ter honrado a mãe que sentiu o avião que o transportava passar-lhe por cima, já com este baixo a não muitos minutos da aterragem. Era Sua Santidade, não era? Ela diz que sim, e creio que não vale a pena contrariar este seu dogma pessoal, uma vez que Vos identificou pela escolta aérea. Sublinho que esta é já uma habitual benesse papal que nos é concedida, uma vez que já o seu predecessor, em 1991, passou por cima da nossa casa - episódio que o pai gosta sempre de lembrar com ênfase quando à mesa se fala de Suas Santidades. Ainda a propósito de histórias familiares, gostaria de lembrar um outro episódio, este apenas protagonizado por mim. Lembrei-me dele quando vi Sua Santidade receber o belo terço oficial do Santuário. Pois bem, em 1982, com a bonita idade de 6 anos, e já um grande fanático por assuntos da religião, ganhei um terço dourado oferecido pela avó - a senhora de quem já aqui contei algumas histórias. A avó,
Santo Padre, que foi zeladora de N. Sr. da Graça, a Padroeira deste blog, incumbiu-me dias antes com mil recomendações de o estrear no dia 12 de Maio desse ano, na novena da igreja paroquial, uma vez que ausente encontrava-se nesse dia em Fátima a saudar o seu predecessor, e, de onde nos haveria de trazer uns lindos postais comemorativos da ocasião. E já que falamos dele, do saudoso Woytila, o João Paulo II de venerada memória, declaro aqui que o avô, também de venerada memória, era um seu sósia tão perfeito nesses anos 80 que impressionava. Mas, lembro-me muito bem de toda essa visita e muito particularmente do dia 12 de Maio e da novena diária das 18 horas. Como criança beata que era, fanática até, estava rejubilante com a estreia do tal terço no dia em que Papa rezava em Fátima. Aliás, era o meu primeiro terço, já que os anteriores eram relíquias de contas desfalcadas, de umas outras avós do tempo do seu predecessor Leão XIII, que serviam sempre em brincadeiras. Lembre-se, Santo Padre, que eu fui o tal menino que queria ser santo. Retomando, nesse dia sentia-me um privilegiado. Depois de me ter enrolado em espiral nos cortinados da sala, como era hábito sempre que me sentia alvoraçadamente feliz, saí de casa e dirigi-me à igreja. Rua abaixo, em comportamentos típicos de um rapaz da minha idade, dando largos passos intercalados por saltos de agilidade caprina, exclamava baixinho, dizendo, em louca ansiedade: Vou rezar com um terço de oiro! Vou rezar com um terço de oiro, vou rezar com... Santo Padre, bem sei que me estou alongar, mas lá estava eu nos meus 6 anos em louca histeria religiosa correndo ao encontro da Virgem (que sempre sorridente lá me esperava para o terço) encontrando-me de repente, no continuado comportamento, num muro desnivelado e de considerada altura que fica por de trás da igreja. De repente, em grande arrebatamento, exclamando cada vez mais alto: VOU REZAR COM UM TERÇO DE OIRO, raiando o delírio em estado de alucinação pareceu-me sentir voar. Ascendia. O chão desaparecera debaixo dos meus pés... e ao invés de Teresa d'Ávila, suspensa no éter, senti-me sugado num precipício de um metro e meio de altura tendo um arrombo contra um chão. Quando caí em mim, surpreso e incredível da perca da percepção do real, estava estatelado na calçada com a minha cabeça de 6 anos aberta a esvair-se em sangue. Por certo, sinal de reprimenda da loucura que me invadia. Levantei-me. Emudecido e a chorar, com o terço quebrado por entre as mãos ensanguentadas, voltei cambaleando para casa, tentando esconder a abençoada "coroa" que trazia na cabeça. Hoje agradeço à Senhora de Fátima por não ter sido pior, se é que ela, tal como ao seu predecessor, interveio com a sua mão de divina embaixadora, segurando o meu pescoço para que de um pequeno golpe na cabeça se tratasse o resultado de tal acidente, assim como do caso não menos grave de me ter salvo nesse Verão, pelas mãos de uma fluente nadadora, de um afogamento numa piscina. Dou graças a Deus e a Ela por esses dois casos e um outro ainda mais melindroso que me sucedeu uns anos a seguir, e já agora outros tantos, que por vezes em tempos recentes me apanham e dos quais tenho saído sempre milagrosamente ileso e sem um arranhão, ainda que com danos materiais.

Aceite então na hora de partida, como aconchego de viagem, esta minha desinteressada oferta, ainda que me desse um certo jeito receber um daqueles cálices. Sim, Santo Padre, um daqueles tão bonitos igual aos que foi retribuindo aos generosos presentes que recebeu. Sabe, Santo Padre, é que já que não vai haver amnistia e eu, pobre de mim em matéria terrena, mas rico em espírito, a desesperar cada vez mais, com lágriams no rosto, vou ficar apertado e asfixiado de contas com umas certas obrigações, coimas, ajustes e a subida dos impostos. Mas sem isso, ou o Euro-Milhões, que não quer nada comigo... corações ao alto! Não há-de ser nada e não importa estar perante sua Santidade a rogar-me de mais misérias e penas... Dou-lhe somente com o coração aberto em troca de nada, já que nestes dias retirei tanto das suas palavras para a minha vida que neste transbordar me fazem, neste gesto e nesta escolha, retribuir.

Eis então, de J. S. Bach, a ária das variações Goldberg:





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Papa agradece "carinho" que recebeu em Fátima

2 comentários:

é texto,e do bom! disse...

MUITO. MUITO. MUITO BOM ! ;)

Parabéns!

Bartolomeu disse...

Olá é texto, e do bom!,

muito obrigado pela apreciação e pelo generoso ênfase que a acompanha.

Bem vindo!

Abraço

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