5 de maio de 2010

BYE BYE CHRISTOPH DAMMANN...


O Senhor alemão da cabeça cortada, numa original ilustração publicada à alguns posts atrás, deixou no início da semana as suas funções de director do Teatro Nacional de São Carlos. Para o seu lugar virá o distinto maestro sinfónico Martin André. Porém a OPART continua e está para durar, e, desta entregue ás mãos do senhor Jorge Salavisa que acumula este título ás suas funções de director do Teatro Municipal São Luíz... com este facto eis-nos num estado declarado superiormente à vista de todos como o país dos tachos... sim, dos tachos assumidos; dos tachos de todas as formas e feitios já para não falar no material em que são feitos, sem por agora qualificar as suas matrizes em escalas habituais de avaliação, naquilo que poderíamos designar por compadrios em hierarquias familiares ou familiarizadas. Eis a oligarquia republicana e ditadura instaurada num refinado sistema coronelístico á la brasileira, que é neste caso protegido pela senhora ministra malgré as pesadas e duras críticas que já se fizeram sentir. Nem de propósito, remeto uma leitura para um texto do Obliviário assaz esclarecedor com tal belicosidade e discernimento que jamais poderia igualar.

Sobre o assunto deste post, o senhor Christoph Dammann está de saída... e em conclusão, em termos de qualidade, a sua direcção foi uma das mais desastrosas que já passaram por este teatro. Sem desculpas, é verdade que a mesma foi sempre afectada pelo espectro negro que se gerou com a saída do senhor Paolo Pinamonti - caso que ademais apaixonou Portugal e fez correr muita tinta na imprensa nacional e verborreias na mesma proporção nos media televisivos.

O senhor Pinamonti, para recordar e melhor perceber a actual situação, regenerou em meia dúzia o teatro nacional de ópera. Com hábil diplomacia projectou-o novamente além fronteiras. Dotou
ponderadamente as temporadas de um sóbrio mas interessante cartaz com boas óperas, boas produções, bons cantores e artistas sem entrar nos excessos dos anos anteriores, que haviam resultado em pesadas dívidas que traduziam o mistério do hedonismo das brilhantes temporadas do senhor seu predecessor. Assim, de cara lavada e de mesa posta, o São Carlos, revitalizado, e aproximado à cidade, voltou a produzir alguma coisa e a gozar de boa fama no plano da rede dos teatros europeus. A pedra do sapato deste director tornou-se as novas vontades ditadas superiormente. Como agente cultural preferiu opor-se com a sua resistência para melhor defender o interesse do público do seu teatro. Porém, com a habilidade de artes palacianas e gestos teatrais perpetradas pelo hermenêutico senhor da Ajuda, caldeirando à moda de Peniche as relações entre o senhor Pinamonti e a sua tutela, viu-se inclementemente afastado pela senhora ministra Pires de Lima que não desejou mais a ver-lhe renovado o seu contrato, colocando assim no seu lugar o senhor Dammann. Tudo porque estava em causa a criação da OPART uma vez que a emergência do seu aparecimento desmerecia o senhor Pinamonti que anteviu a precariedade que marcará todo o futuro de que é hoje o presente. A OPART é a junção utópica de duas estruturas paralelas e distintas, o Teatro nacional de São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado, segundo a imitação do modelo austríaco do Wien Staatsoper (ópera de Viena). Belo projecto, mas incongruente e pesado para um pequeno país como Portugal descamado por dívidas.

Durante anos a fio o senhor hermenêutico ossia o senhor Mário Vieira de Carvalho, homem inspirado em convicções vermelhas e marxistas, pregou, do púlpito da sua cátedra da Universidade Nova, o discurso do negativismo da cultura portuguesa, em lacrimosos e quase rudes lamentos, pela inércia de em 2oo anos o teatro lírico de Lisboa nunca ter feito a estrada que alguns seus congéneres europeus haviam trilhado, na transformação das fórmulas italianas em estilos de óperas de compositores, poetas, línguas e artistas nacionais. São curiosas as suas notas e tratados sobretudo na indiferença aos compositores de nomeada como Sousa Carvalho, António Leal Moreira, Marcos Portugal, Alfredo Keil ou Ruy Coelho por simplesmente não terem feito mais do que fizeram, dado os condicionamentos e dificuldades das suas épocas. Lamentos e utopias apresentadas em aspirações desejadas, segundo o que julgara aprender pela sua viandância pela Áustria e Alemanha. Mas esquece-se ele que aqueles países tem uma longa tradição na audição de obras oferecidas por quase uma centena de teatros, enquanto que aqui, teatros organizados só há um e as organizações paralelas que fabricam ópera, grupos e companhias efémeras, onde melhor seria acolhida esta iniciativa, se vê estrangulada e asfixiada pela falta de interesse da tutoria da cultura do estado, excepto aquela, e sublinho aquela e não aquelas, onde se acha laços familiares que com mediocridade servem interesses próprios em vez de uma política de educação cultural, subjacente no projecto. É este senhor o responsável pela OPART, o seu idealizador, e à maneira de Pizarro nas Américas, o seu impulsionador no desbaratamento cultural.

Na realidade a ópera de Viena goza de condições excepcionais como nenhuma outra casa de ópera europeia, considerando entre as primeiras o Teatro alla Scala de Milão e a Royal Opera House - Covent Garden de Londres. Por assim dizer, a OPART, a gestora dos organismos, criada na medida de retenção económica portuguesa dos últimos anos, resumiu os dois valores atribuídos a cada organismo num único número reduzido quase ao valor individual que cada uma recebia anteriormente, paradoxalmente pesado pela criação de um terceiro corpo administrativo, ao invés de um único que chegasse ambos pago com atractivos ordenados a roçar o milionário. O senhor Dammann, também contratado a peso de ouro, seguiu os ditames impostos que aliados ao seu gosto germânico, já de fama duvidosa pelo que havia feito no teatro de Colónia, em 3 anos deitou tudo por terra, amargando a sua relação com o público da ópera de Lisboa.

Porém é preciso observar:

Uma vez afastado o senhor Pinamonti e feita tábua rasa ao seu trabalho, instaurou-se a OPART. Por ordem do senhor hermenêutico foi de imediato inserida na temporada a ópera
Das Märchen do compositor português Emmanuel Nunes, que o senhor Pinamonti tanto tinha hesitado dadas várias circunstâncias. Com aparato nunca antes visto a estreia na dourada sala de São Carlos fez-se com transmissão directa pela RTP para 14 Cine-Teatros portugueses tornando-se esta nova ópera, também a primeira do seu compositor, num objecto de larga curiosidade. Iniciativa louvável e rara nos últimos anos. O senhor Emmanuel Nunes é um compositor de musica contemporânea, um vanguardista ou por outras palavras um futurista nada convencional e o seu mérito é reconhecido e aplaudido internacionalmente. Mas falava-se de curiosidade... a mesma levou a uma afluência de publico mal preparado e desconhecedor do obra deste compositor, quase desconhecida no seu país natal excepto pelo público das iniciativas do ACARTE, mas é um público específico e elitista de um género musical ainda pouco ouvido e por consequente pouco apreciado. Desconfortados pelo arrojo e modernidade da musica, na estreia as salas foram sendo abandonadas pelos seus ouvintes até ao vazio. O senhor hermenêutico, segundo ele, por motivos de agenda, também o fez. O senhor Emmanuel Nunes, o senhor Goethe (de quem é o assunto da ópera) e o senhor público não mereciam tal situação e o fracasso destas representações consistiu no escândalo e no despedimento imediato do senhor secretário da cultura Mário Vieira de Carvalho e da senhora ministra da cultura Isabel Pires de Lima e a perca vergonhosa de milhões do erário público. Eis a OPART!

Assim se iniciou as temporadas decadentes do senhor Dammann, também conhecido pelo senhor das casas cheias lá da terra-de-onde-veio. Foram estas épocas, as piores de produção artística que a casa de ópera de Lisboa viu nos últimos anos. Apontem-se os dedos e descubram-se os responsáveis: foi preceito da OPART, agora acusado de um gesto revolucionário em tom de vermelho bolchevista ditado pelas convicções marxistas do senhor hermenêutico, in tempo e postumamente, conspirando e maculando o gesto cultural lírico que Portugal produz. A má qualidade começou a imperar e o Eurotrash entrou na nossa cultura.

Sem aprofundar, falta referir que tal é fruto semeado pelo actual governo de São Bento. Denuncias sobre a qualidade dos espectáculos foram feitas em sessões abertas no hemiciclo parlamentar português e disso o canal da AR é a testemunha mais fiel. Com orelhas moucas todas foram escutadas. Na realidade, nenhum senhor do governo sobe à sala de São Carlos para constatar os factos, e quem diz esta sala diz todas as outras. O desinteresse cultural faz-se sentir nas bancadas parlamentares cada vez mais ocupadas por senhores desprovidos de ideiais, conhecimentos, estética e bom gosto cultural porque os seus cursos de economia e gestão não lhes proporcionaram tais cadeiras
- excepto aquela minoria em que estes valores lhes foram incutidos na educação e que aos olhos da grande maioria são tidos como excèntricos ou antiquados. É esta a política dos relatórios já que hoje a política que se faz é apenas economia e capitalismo na sua forma desbragada e selvagem, uma vez que o governo não legisla convenientemente esta acção e tende por imitação dos seus lucros abraça-la como solução. Assiste assim ao hermetismo político afirmado na oligarquía do negócio entre meia-dúzia de arrivistas que se encerram pela falta de transparência em salas e reuniões sem a clarividência e compreensão do terreno. Tudo, porque o nosso país está convertido e representa-se em relatórios numéricos. Se tal agrada ao nosso prime o mesmo não satisfaz a população que continua a preferir, segundo a máxima: pouco mas bom, do que muito e mau. Na realidade a política dos números e dos relatórios mostrou-se no caso de São Carlos no mínimo insólito. À satisfação do crescimento dos números seguiu-se um manifestado descontentamento traduzido em apupos e pateadas que traduziam a decrescente qualidade e insatisfação dos espectáculos, e insólito porque uma vez dado os magros orçamentos esquartejados para vários lados outra coisa não seria de esperar, facto que qualquer um sabe, adivinha e vê sem passar por nenhuma universidade.

Por fim, a cereja no bolo...

O que se passou, pergunta agora o meu caro leitor. Pois bem, eis uma resumida versão dos factos para o derradeiro golpe final. Com pouca perspicácia e arrogância de sobeja, o senhor Dammann nada fez para mudar convencido de trilhar o melhor caminho para o sucesso. Em cada pateada, julgava este senhor subir mais um degrau no seu Gradus at Parnassus, sem perceber que descia o Gradus at Infernus. No presente ano, para celebrar o centenário da república, projectou-se celebrar o acontecimento com a ópera Dona Branca do compositor português Alfredo Keil, o autor d'A Portuguesa, o nosso hino nacional. Feito o trabalho de recuperação e ensaios. A má preparação e outros propositos começaram a mostrar inviabilidade da ópera em ser apresentada. Na realidade, parece que o tenor incumbido de fazer o herói da ópera adoeceu. A ópera foi cancelada. A república não assinalou o início da sua programação festiva com a pompa e circunstância desejadas, hajam 100 anos dela, portanto o ano jubilar, e passados dias a nova ministra entra em negociações com o senhor Dammann para suspender o seu contrato. Em conversas de corredor disse-se que o teatro, o São Carlos, nas barbas do seu director, fez o boicote à ópera para servir de pretexto a fazer a cama ao senhor Dammann na qual se deitou tranquilamente com a naïfte e arrogância que lhe são compreendidas, já que não mostrou compreensão pela nossa forma de ser e sentir cultural.

Assim se conta a história de um director de um teatro de ópera que por se achar superior a tudo e a todos nunca olhou de perto para as necessidades do seu público. Despachado pela actual ministra da cultura, ei-lo a partir. Por amizade, a ministra junta-se a nós neste blog para este assinalamento. Sentada então ao piano executa com um gracioso e delicado soprano um conveniente e encenado adeus de despedida, e aqui, uma vez mais com musica do nosso maestro Keil:



Adieu


Musica:
Alfredo Keil


Soprano:
Ana Ferraz


Pianista:
Gabriela Canavilhas


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2 comentários:

Nuno Resende disse...

Eis um belo post a esgrimir as razões deste país nepotista. Sic transit gloria mundi. Obrigado pela referência e pela qualidade das suas intervenções !

Bartolomeu disse...

Caro Nuno,

eu é que agradeço a sua presença e interesse.

Abraço

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