8 de abril de 2010

O PALÁCIO DA RAINHA

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Enquanto no extremo norte do concelho da Azambuja, no alto-concelho, no sítio do antigo Alcoentrinho, hoje Manique do Intendente, definha o magno colosso de grossas paredes deixadas por Pina Manique (recentemente enxertadas com 100 mil € para a sua conservação), no sentido oposto a este neo-clássico Versailles para uma sonhada Paris do Ribatejo a ser povoada de iletrados agricultores e colonos de sotaque flamengo, no lado sul deste concelho junto à sumptuosa vala-real da Azambuja, na confluência com o largo Tejo, jaz o Palácio da Rainha ou Palácio das Obras Novas. Ei-lo:




Na imensidão do espaço que esta vista aérea revela pode o meu leitor ter a percepção do famigerado complexo. A casa que se distingue é o edifício. A seu lado a vala-real no seu início junto ao Tejo. E o traço branco que segue paralelo à vala, a longa estrada ladeada de uma impressionante alameda de palmeiras.

O leitor que desejar visitar este lugar deverá seguir a EN3 até à Azambuja.
 

É um passeio a fazer, pondere! Uma recomendação deste vosso Bartolomeu que desde menino conhece bem estes locais, e que ainda se deixa fascinar por eles, uma vez que em cada visita algo de novo há para ler ou decifrar nos objectos já vistos, certo que no futuro uma nova leitura ou olhar aos mesmos outros segredos irão desvendar. Portanto, uma deslocação a considerar. Aliás, caro leitor, actualmente esta ruína só subsiste para ser visitada por si e não está lá para outra coisa se não para isso. Assim, ajude desta maneira a justificar teimosias e as avultadas somas gastas na preservação do decadente edifício.




Saia então de casa caro leitor, e de onde quer que venha desloque-se até à Azambuja. Antes de trilhar o caminho que o levará a este lugar à beira-de-água, aproveite a proximidade e visite Manique deslumbrando-se com a mole do Intendente (recomendo-lhe entrar nesta vila pela estrada que vem da Maçussa para ficar estarrecido com o impacto paisagístico e perceber a megalomania de Diogo Ignacio de Pina Manique). 

Faça então o seguinte percurso: Azambuja, Aveiras-de-Baixo, Aveiras-de-Cima - (tome a direcção do Cartaxo) - Pontevel, Ereira, Maçussa e Manique. Se percorrer a A1 e usar a saída de Aveiras, na rotunda tome a direcção do Cartaxo e siga a indicação já dada.




Escolha para isso um bonito dia ensolarado de temperatura aprazível para poder desfrutar dos prazeres de viajar no seu automóvel ao encontro destas esquecidas maravilhas portuguesas. Não custa muito, mesmo nada. Apenas sair do estado letárgico de que é acometido em dias ociosos.

Se para qualquer um destes destinos tiver de atravessar o Carregado não se deixe entusiasmar logo pela vista do tendencioso Campera. É um oásis de enganos. Guarde esse ensejo para o fim do dia, na envolvência do calor do fim-da-tarde e do conforto do lusco-fusco crepuscular, no qual depois de se refrescar com uma gasosa ou um gelado pode entregar-se ao vício perdulário do gasto, perdendo-se ali enchendo-se do que não precisa.

Para se dirigir ao Palácio da Rainha deve na Azambuja procurar a rotunda junto ás bombas da Galp onde irá achar uma indicação apontando para a direcção da vala-real.
Na elevação do viaduto, que sobre-passa a linha férrea, avistará com maior clareza o campo da lezíria ribatejana. Com sorte, verá, em algum canto da extensão do que a sua vista alcança, cavalos aos pinotes com algum campino no dorso vigiando ganadarias de toiros pastando pachorrentamente como se o mundo não existisse. Rica vida para um animal sem aparente função: pastar; dormir refastelado; ser catado pelas aves; e quando exorcizados, correr para desentorpecer as mãos e patas traseiras ao som dos brados dos campinos,aquele linguarejar incompreensível ao entendimento do toiro bravo que o pobre bicho não entende  e a toma como insolente maçada, ganhando percepção do todo quando se depara com a derradeira hora da sua pacata existência ante o público de uma arena.  Mas  que dizer da a raça bovina. Nem a vaca leiteira ou charolesa têm melhor sorte. Em oposição à morte coroada com farpas, esta segunda e terceira espécie
acabam, depois de uma explorada existência a encher pacotes - garantindo pequenos almoços, galões e outros tantos apreciados produtos de cafetaria resultantes do impacto da revolução industrial que se resumem a uma máquina manual, eléctrica ou a moedas, acabam redundantemente mortas ao choque eléctrico levando-se à mesa em bifes com ovo-a-cavalo ou coroando-se de grão-de-bico as suas macientas mãos, para satisfazer neste caso o gosto de um mais exigente comensal.

Deixando por ora a sorte destes bichos, uma vez entregues a si e quem direitos sobre eles têm, adiantarei ao caminho antes que o texto faça delonga.

Passado o viaduto a urbe azambujense é agora apenas uma miragem que vibra no outro lado da linha. Nas traseiras da estação ferroviária eis o primeiro sinal da razão desta viagem: um canal. Um canal que liga a vala à vila, e que na realidade não é mais do que isso, não vá o meu caro leitor julgar que tal é a majestosa vala da Azambuja. Hoje, neste canal, quase sem água, subsiste uma leve massa viscosa e lodosa na qual serpenteia um fio de água que nas marés cheias se engrossa, sem dar razão a que nada ali passe sem encalhar.


São estes canais também frequência de uma espécie animal. Uma antiga temida ameaça bíblica, as pragas de rãs. Hoje, desaparecido Moisés e o seu ameaçador e imperativo bastão, este anfíbio já nada faz e ninguém amedronta. Eventualmente, qui ça, causar asco a uma senhora elegante. Mas cara senhora elegante, não se afronte a tão soberana e principesca presença... estes esverdeados seres, rãzinhas gordas e opulentos sapos, dedicam-se a uma vida tão banal como é a natureza do dia, limitam-se a existir! De receio apenas temem serem uso de práticas locais de superstições
infalíveis e duvidosas bruxarias de mulheres da labuta do campo despeitadas pelas acções das outras, no olhar favorecido do moço mais garboso do rancho a uma outra, definhando-lhe o viril vigor, ou em vingança à falta de palavra dos patrões enfiando pela goela abaixo do batráquio indefeso encómios praguejados em tiras de papel, impedindo-o de as cuspir pela sua costurada boca. Um crime, uma chacina em massa! Uma negra verdade aqui denunciada. Não é pois de admirar que durante o dia vivam escondidos dos olhares humanos, adivinhando-se a sua invisível presença através de um tímido e pouco sonoro ressoar coaxado. Porém, quando se acerca a noite, grasnando, rompem o silêncio dos campos e dos pantanosos canais. Com seu som, atraem a simpatia do canto dos insectos. Desta feliz sorte, toda a bicharada iluminada pela lua ou pela intermitência de caga-lumes, transformam os canais em palcos musicais de onde saem longas e harmoniosas sinfonias, e, que a Bruckner fariam inveja, e, que só no alvorecer acham termo.
São ainda estes canais pastos de outras espécies de pequenos animais,
de que agora não há memória, tal o seu desagrado, e que beleza ou bem estar nada dão. São estes as malévolas e ameaçadoras as pragas de melgas, mosquitos e afins arraçadas de vampiros malignos desvairados, que quando não são repasto da raça anfíbia se repastam na pele humana deixando-a com bexigosas marcas.
No passado eram ainda visíveis nestes canais barcaças ancoradas, transportes de desaparecidos pescadores de sável. Hoje nada! Eventualmente uma quilha... Os pescadores
com melhor lucro para as suas vidas labutam hoje no Sr. Amorim ou no Sr. Luís Simões, que não longe destas paragens se estabeleceram. Labutam também na época estival para o Sr. Ortigão Costa - senhor da Sugal, das ganadarias de toiros já avistadas e de largas parcelas dos campos que o meu leitor eventualmente irá atravessar. Mas não desespere nem se desencante com estas ausências, caro leitor. Estes homens, sem os antigos rigores, pescam hoje à cana somente nas folgas ou fins-de-semana. Se o meu estimado leitor for um comensal apreciador de iguarias confeccionadas dos frutos do rio, no encalço deste passeio, desvie-se no seguimento da estrada do campo que já percorre e siga até Valada ou à aldeia da Palhota. Aí é possível encontrar quem lhe sirva uma boa açorda-de-sável ou um delicioso sável-na-telha.

Voltando à estrada uma vez mais, numa jornada já tão descarrilada, o meu caro leitor segue agora um longa recta cercada de árvores frondosas que acolhem na sua fresca ramagem um extenso parque de merendas, onde se trouxe lanche aí poderá merendar condignamente, caso não traga consigo uma permissiva manta alentejana de o fazer descansar tranquilamente à sombra do palácio ou de uma palmeira. Parque de merendas de dia, estacionamento de namorados à noite em busca do frenesim da descoberta dos corpos.

Ao seu lado direito segue sorridente o tal canal que num ponto ou noutro se abre em braços mais estreitos. Não vamos desembocar em Veneza, é certo. Magari... São apenas canais de irrigação. Peccato... Pouco depois a estrada ganha nova elevação. Neste ponto, caro leitor, abrande. Atravesse esta ponte lentamente e vislumbre a grande vala-real da Azambuja em toda a sua pompa. Belo é o seu caudal e copada as suas margens.

Passado este marco, o campo abraça-o. Abra a janela do seu automóvel e deixe-se envolver pelos cheiros e odores que permanecem no ar. Revigore-se! Agora o que vê são campos, fazendas e quintas. Poucos quilómetros adiante e uma nova indicação do palácio.

A estrada que agora deve seguir é de terra batida. É uma estrada de campo que conhece de cór o som e
o pisar agreste de máquinas de lavoura, assim como tagarelar de figuras humanas rudes que aí ainda trabalham de sol-a-sol. Novos canais cercam a estrada, que em alguns pontos se assemelha de estreita e escorregadia. Ao longe avistam-se os primeiros sinais de arvoredo envolvendo a estrada o levarão até longa e majestosa alameda de palmeiras. É este o primeiro sinal da segunda maior grandeza que este local encerra e a primeira surpresa ao segredo que se acha no seu termo.




Uma vez lá, não espere porém encontrar se não uma ruína tão sumptuosa como a de Manique. Ambas são construções neo-clássicas e enquanto a primeira foi interrompida por morte do seu senhor em 1805, esta foi concluída e teve esplendor até que a importância do caminho-de-ferro viesse sobrepor-se ao dos caminhos fluviais. Interessantes analogias que merecem um melhor e aprofundado estudo das entidades que lhe são correspondentes.





O Palácio das Obras Novas ou Palácio da Rainha, assim denominado por ter sido na época do reinado da Sr. D. Maria I a sua conclusão, e como os populares locais o lembram carinhosamente, fez parte de um projecto chamado de obras novas o qual pretendia modernizar nessa época o país colocando-o na primazia europeia do desenvolvimento. Com a construção deste edifício concluiu-se assim o plano da obra da vala-real da Azambuja iniciado por ordem do ministro de D. José, Sebastião Carvalho e Melo, ou segundo outros por D. João V (uma vez mais a falta de estudos rigorosos a condicionar a veracidade dos assuntos). Curiosamente, foi Pina Manique quem super-intendeu os aspectos conclusivos deste importante posto situado a cerca de 20 km da sua vila tal como em 1788 havia ordenado melhoramentos e obras na estrada real para as Caldas da Rainha, que, em São Salvador, se acha a menos de 10 km da mesma. Nada ao acaso, assim parece.






Serviu o edifício da vala até à sua falência como estalagem, armazém de mercadorias, posto administrativo e de controlo do tráfego do transporte de mercadorias e de passageiros, que por meio de faluas ou outras embarcações faziam as carreiras do Tejo entre Lisboa e Constância. O declínio desta estação foi progressivo a partir de 1860 com o gradual expansão da linha-do-norte para lá do Carregado. Por fim, com o desaparecimento das rotas fluviais e da Companhia dos Canais de Azambuja, o edifício ficou resumido a estalagem até ao seu abandono.




Nela se hospedaram viajantes e ilustres, é certo. Contam-se o rei D. Carlos, Sr. D. Amélia e o principe-real D. Luís Filipe como alguns dos seus últimos hóspedes.
Ferenc Liszt, acima de qualquer soberano português que tenha descansado nesta paragem, deve ter sido o hóspede mais ilustre que nesta casa passou. Célebre pianista aprendeu também a arte da composição com o italiano António Salieri (compositor contemporâneo, colega e ainda segundo as lendas rival de Mozart). Conheceu toda a nata da musica do século XIX: Beethoven, Rossini, Chopin, Berlioz, Verdi, Gounod ou Meyebeer tendo sido ainda cunhado de Wagner e na velhice quando concentrava em torno de si jovens promessas europeias, professor do nosso Vianna da Motta. 


Em 1845 deslocou-se a Lisboa para um série de concertos, no qual promovia uma dada marca de pianos que trouxe consigo e que ofereceu um exemplar à rainha D. Maria II - instrumento no qual já toquei, vejam só, e que hoje se guarda no Museu da Musica, ao Alto dos Moinhos, em Lisboa. Consistiu esse um dos momentos mais mediáticos e cosmopolitas que a capital do nosso país conheceu em quase todo o século XIX. Liszt era uma celebridade e um dos maiores artistas peregrinos do mundo, mas não se espante caro leitor, e, acaso não se lembre Lord Byron também andou por Portugal, e sabe-se lá com que comportamentos. É sabido que nesta viagem Liszt se deslocou ao Cartaxo onde no Palácio dos Chavões deu um concerto (facto sobre o qual não consegui apurar os porquês e razões). 

Esta deslocação, um convite pago a peso de oiro, torna certo que na estalagem das «Obras Novas» tenha o músico tenha passado, descansado ou pernoitado. Aliás para chegar aos Chavões não havia modo melhor, seguro ou mais eficiente sendo a opção secundária aventurar-se pelos trilhos do famosérrimo pinhal da Azambuja, do qual sabemos bem o que lá se passava. De facto todo este assunto no trajecto fluvial acha reforço pelo melhor e mais condigno meio de deslocação disponível, pelo facto do Palácio dos Chavões se situar num serro à beira da vala e pelo facto picaresco que já irei narrar. Antes de avançar é preciso lembrar ao estimado leitor que a vala-real se navegava por 17 km e compreendia ainda a vala de Santana e a ribeira d´Asseca - local nas imediações do qual Junot foi ferido no rosto -, uma vez que se o projecto tivesse sido concluído teria a vala-real chegado por esta confluência de classificações a Rio Maior.

Na margem esquerda da vala ergue-se então o Palácio dos Chavões com o seu solarengo terraço, visível e observável da linha férrea em viagem, apesar das grandes velocidades a que os comboios praticam. Casa tão antiga que o seu principal biografo, Teixeira de Sampaio, a apalavrou por vontade do povo ser do tempo do mouros, já que para o povo tudo quanto era antigo assim era comummente designado. Por fim, Liszt, uma vez no Palácio das Obras Novas, ou da Rainha, foi então conduzido aos Chavões numa deslocação nocturna da qual não há memória de homenagem para nenhum outro ser vivo. De ambos os lados da vala foram mandados acender archotes que alumiassem o caminho, o qual fez um enorme corredor ornado de luz-de-fogo de uma considerada extensão de quilómetros. 

Uma vez lá, deu um brilhante concerto a uns quantos convivas seguramente encabeçados pelo Marquês de Nisa, na época o seu proprietário; quem sabe acompanhado do melómano Conde de Aveiras, impulsionador da construção do Real Teatro de São Carlos e por agora senhor das duas Aveiras já referidas (onde possuía dois solares ou palácios); de uma dúzia de "surdos-mudos" fidalgos e lavradores locais para compor a sala; e, do bom ouvido de Passos Manuel, se não fora por seu intermédio tal deslocação como manobra da sua influência apesar de deambular nessa época por Santarém como um rico lavrador.





Hoje está em ruínas e é o passeio domingueiro dos locais. Ritualmente esta paragem enche-se em cada quinta-feira da espiga de cada ano de populares que aí procuram descansar nesse dia, acarinhando-a com vestígios da sua passagem. É ponto de reunião de pescadores. É ainda o refugio de amantes fortuitos ou premeditados que aqui vêm esconder o seu crime de posse de bem humano de outrem. E é simplesmente o passeio de uma qualquer ave rara indiscreta ávida deste género de curiosidades. Também é certo, caro leitor, que se visitar este local e o seu belo edifício, aventurando-se no seu interior, não está isento, mesmo com a segurança das recentes obras, de ser abalrroado por um pedra menos fixa ou desaparecer num dos muitos buracos do chão. É a aventura no perigoso desconhecido. O ir e poder não voltar... pelo menos no estado em que se chegou!



 

 

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4 comentários:

António Rosa (Tib) disse...

Bartolomeu

Muito agradecido pela recomendação e o excelente guia que é o seu texto. Já o imprimi para o levar comigo nessa descoberta.

Saudações

António

Bartolomeu disse...

Olá A. R.,

sempre simpático, obrigado.

Na volta, passe por cá e conte-nos as suas impressões!

Bem-haja.

Abraço

Gastão de Brito e Silva disse...

Fantástico post....uma "orgia" de informações bem valiosas...

Já agora aproveitem bem o passeio e sigam até Valada do Ribatejo, com paragem obrigatória na aldeia lacustre da Palhota, seguindo essa mesma estrada... Há ainda praias praias fluviais muito agradáveis.

Bartolomeu disse...

Ó Gastão,

obrigado por sublinhar a preciosa referência da ida a Valada, que, aliás, só vem reforçar a importância deste passeio.

Quanto ás praias... é um género e há quem goste, exacto! Porém, é de lembrar que devido à extracção de areias as águas do Tejo perigosas e traiçoeiras.

Malgré la situation, são frequentadas pela classe imigrante aqui estacionada oriunda outro lado do atlântico ou dos países eslavos.

Abraço

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