9 de março de 2010

UM APANHADO DO DIA...

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Refeito da maratona nocturna de ontem, com os pés macerados pelas virtudes de uns sapatos de trazer por casa, calçados por complacência ao seu pouco uso, lá repus entretanto a ordem nas coisas e agora, novamente harmonizados, voltamos à vidinha normal.
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Para compensar o meu tão amado vizinho, que me odeia e fulmina com o seu olhar-de-trolha-ainda-por-ter-30 anos, ante os meus prazenteiros e ruidosos saraus musicais, hoje predispus-me a tocar-lhe Chabrier.
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Ora, para o meu caro leitor, de certo mais ávido de uma boa e erudita curiosidade do que o meu empedrado vizinho, que me aplaude quando a noite já vai longa com fortes, estimadas e educadas pancadas de parede, de fazer tremer o candeeiro do meu piano, e de me por os nervos em franja - só fleumatizados com 3 iogurtes enquanto me deleito com episódios seguidos de Brothers & Sisters, como entertenimento das minhas insónias -, Chabrier, como avançava, foi um compositor romântico frânces que nos deixou muita e boa musica, que os diletantes da prática de tocar piano, como eu, podem exprimir dando vida à obra e espírito deste considerado homem correndo os seus dedos pelo teclado, se partituras e graça para isso tiverem.
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É assim este um caso ainda mais raro de audição, pois bem. Onde ouvir hoje Chabrier? É comum ouvir-se a quem sabe tocar piano Mozart, Chopin ou Beethoven, ou outras coisas mais difíceis em versões faceis e simplificadas de origem espanhola. Muitos hoje, ou melhor, poucos hoje expostos a este nome saberão quem foi Chabrier. Nem mesmo o mais presunçoso Dandi pseudo-erudito, à imagem de Narciso se enamorando do seu reflexo, que se gosta de exibir em público como um génio-sabe-tudo-e-mais-do-que-os-especialistas-que-leêm-coisas-sérias e/ou que da mesma forma se masturba enfaticamente escrevendo em blogues, a menos que tivesse um Pc à mão para consultar a falaciosa Wikipédia, arriscaria em dizer e teimar, ou teimar dizendo, cioso da sua ideia, como piéce de resistence, por semelhança de palavras ou associação de idéias, que Chabrier só pode ser uma distinta e famosa marca de automóveis. Chevrolet, meu caro-mais-que-tudo, Chevrolet certamente é o que lhe ocorrera na sua confusa mente. Pacovisses!
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Apesar dos meus esforços em aperfeiçoar-me na Patetique de Beethoven, que muito me tem arreliado desde Agosto último, e também desde lá ao meu vizinho ainda mais, pu-la a repousar, satisfeito por lhe arremessar já com espírito um 2º e 3º andamento que não envergonham ninguém. Por isso, descanso agora no ecletismo de um Chabrier na sua suite de valsas espanholas. Algo menor em virtuosismo, mas de grande efeito dado a simpatia da musica e fluência de agradáveis e repetidas melodias, com algum salero, capazes de fazer sorrir muitas senhoras e cavalheiros indiferentes à arte dos sons, excepto o meu vizinho.
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É ja dado adquirido, a sua antipatia. E o meu precioso orgulho uma pérola manifestada, pois se a mísera renda que paga pela sua casa chega ao seu senhorio para pagar essa necessidade, a mim muito deve de horas de musica gratuita que lhe entra casa a dentro pelas paredes. E musica boa, entenda-se, ainda que bem ou mal tocada. Ao passo que a dele, aliado ao seu virtuoso gesto de bater na parede, sabe-se lá com quê, mesmo antes das 22h, de bonito nada tem.
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Um dia, com a calma que todo este ser e assunto merece, dedicarei um post mais elaborado a este meu vizinho, a quem já apanhei com os seus amigos da varanda da casa onde vive de renda a fazer concursos, passo a expressão, de cuspidelas - ahimè!
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Por agora Chabrier, no tema que lhe dediquei com tanto carinho, afecto e larga expressão como se fosse um Rubinstein ou um Baremboim, num piano de concerto, numa qualquer sala de concertos do mundo.
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