1 de dezembro de 2009

O HINO DA RESTAURAÇÃO - A VERDADEIRA HISTÓRIA



Música:
Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida
(1826 - 1898)


Poema:
Francisco Duarte de Almeida Araújo
Francisco Joaquim da Costa Braga





Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Ás armas, ás armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.


Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
"Sempre, sempre te amarei"
O povo diz a Bragança
"Sempre fiel te serei"

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta c´roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.

Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemispherios
Tem mil povos dominado!

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta música foi composta em 1861 sobre uma peça-teatral escrita para a ocasião, intitulada de comédia-drama com o nome 1640 ou A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA, para ser apresentada no Teatro da Rua dos Condes (antigo Cinema Condes, hoje Hard Rock Café).

Dedicada ao Rei D. Pedro V, foi estreada no dia 29 de Outubro desse mesmo ano, no dia do aniversário natalício de sua majestade o Rei-Viúvo D. Fernando II
- malgrado este acontecimento cultural, esta peça/libreto seria publicada a de 28 de Novembro, escassas semanas após a morte prematura do então rei de Portugal (pelo que se seguiu nova regência do Sr. D. Fernando até à coroação do novo soberano, no mês seguinte).


Frontispício do Libreto
(3ª peça dramática, pág. 84)


Na trama desta opereta, para melhor denominar o género musical em questão, dado que todo o texto não seria segundo a forma musicado, o trecho correspondente ao hino é o momento que encerra esta peça musical.

Seguindo a estrutura do arquétipo francês de ópera-comique,
que não significa a tradução literal de ópera cómica (assuntos burlescos e engraçados com o intuito de fazerem rir), mas sim de obra musical intercalada com diálogos falados, geralmente com a divisão da práxis em 4 actos - ainda que ulterior a esta data, tome-se a título de exemplo a famosa Carmen de Bizet, apesar de posteriormente terem sido musicados os seus diálogos, ou as operetas de Offenbach, como La Grand-Duchesse de Gerolstein -, o enredo cruza cenas e hábitos da vida popular com factos históricos romantizados, com deixas bem ao estilo de Garret, resultando numa comédia de costumes na qual se enaltece permanentemente a Casa de Bragança e o seu paternalismo, como elemento soberano de ligação entre as várias classes, e assim, em espelho entre o palcoscenico e o palco reale, o regime e família real reinante ao ano de 1861. Um golpe de propaganda política para impressionar as massa com um texto ambíguo cheio de advertências e duplos sentidos evocando sempre a supremacia do estado monárquico, perante o adivinhado advento republicano.

A cena final, a coroação de D. João de Bragança como rei de Portugal, é recriada seguindo os protocolos, juramentos, vivas tal como o descrevem os escritos e gravuras da época, conforme se crê nos quadros que se encontram no Palácio Nacional da Ajuda. Entre cada par de estrofes seguem-se em cenas faladas, para melhor fazer chegar a mensagem ao público, discursos e honras ante a dramatização de uma majestosa cena triunfal, simples mas digna de uma ópera de Verdi, com solistas e coros cantado e bradando vivas em crescente clímax, incendiando o público do teatro de fervoroso e enaltecido sentimento patriótico, dando vida e calor às tais espectaculares e garridas recriações que constituíram a única coroação em cerimónia pública de um soberano português perante o entusiasmo do povo na sua aclamação - curiosamente também a última da história de Portugal.



Pintura da Sala D. João IV, do Palácio Nacional da Ajuda
sobre a qual foi reproduzida a cena tal e qual

Sendo música de carácter marcial, apropriada por isso ao registo das bandas militares e filarmónicas, foi adaptada pela então recém-criada Sociedade Histórica da Independência de Portugal de Alexandre Herculano, como hino /marcha oficial das comemorações das festas da Restauração, para a execução em conjunto com o hino nacional vigente, na inauguração do monumento que esta sociedade fez erguer em 1886 no espaço de permeio entre o Rossio e a Avenida da Liberdade que se passou a designar de Praça dos Restauradores.


A partir de então e por imitação a estas celebrações, que se passaram a assinalar anualmente por todo o país, como festa regimental civil, a divulgação desta peça musical em situações protocolares ou em arruadas tornou-a num dos mais estimados hinos populares portugueses (tal como tinha acontecido com Hino do Minho, vulgo Maria da Fonte, do maestro Frondoni - criado em circunstâncias semelhantes, e adaptado na altura dos motins).

Durante o Estado-Novo, na sequência de alguns procedimentos herdados da 1ª República no remate drástico ou na transformação escamoteada de acontecimentos, instituições ou edifícios públicos, religiosos e civis como de formas e agentes culturais populares e eruditos associados ao anterior regime, quando na criação da Mocidade-Portuguesa este hino viu-se adoptado por este ideário como um dos seus hinos/cânticos. Com a antiga letra convenientemente alterada perdeu-se subtilmente daí em diante o carácter e a memória da intenção dos versos originais, tal como após 1910 fora o caso da alteração da festa da Restauração por festa da Bandeira Nacional (processo que entretanto revertera na compressão inicial), já que esta era uma celebração de tal forma enraizada e incontornável para os populares, sobretudo quando a mesma estimulava a criação no imagético português o mito do super-histórico Lusitano a pontapetar o Castelhano na alusão do pequeno mas valente e vencedor - tal como nos anos oitenta do século anterior ainda se arreigava às crianças nas lições académicas de história.

Uma vez achadas estas conclusões, torna-se agora fácil repor a verdade sobre este assunto. No ano anterior, quando publiquei pela primeira vez este texto, agora modificado, publiquei também uma partitura do hino
que habilmente tentei restaurar, a partir da construção Salazarista, uma vez que nem no arquivo musical da Biblioteca Nacional se encontrava localizado único exemplar fidedigno do original. Como seria possível, uma vez que este hino permanece tão popular como A Maria da Fonte ou A Portuguesa, e até mesmo o esquecido Hino da Carta, dos quais se encontram com facilidade as várias versões? Dias depois tive a notícia de que, durante as Cerimónias do dia da Restauração de 2008, foi depositado na biblioteca do Palácio da Independência uma partitura de Canto e Piano da versão original deste hino. Prevalecendo agora este instrumento de verdade acima de qualquer especulação, deixei o meu tímido esboço sem as reinvenções possíveis, e não tendo até hoje indagado o referido documento, faço-o localizar a todos os curiosos.

Uma vez que em mais um ano não verifiquei novidades sobre o assunto, pelo que li e constatei noutros blogues, com esta análise deixo aqui o meu modesto contributo para este dia.


Sem comentários:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails