30 de dezembro de 2009

NATAL DE 2009, EM RESUMO DAS CALAMIDADES

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Ainda em convalescença das agruras do mau tempo,
pois a memória é sempre mais longa quando os assuntos são desagradáveis, no tornado da semana passada, a quem num quase um bem sucedido eufemismo chamaram de mini-tornado, que na realidade consistiu em neuróticos momentos de pânico, terror e mau-estar para todos aqueles que passaram pelas horas de inquietude, vendo o mundo envolvente desabar e transformar-se de calmo e harmonioso num espaço caótico, triste e sem bem-estar.

Comparativamente aos Estados-Unidos e a alguns países da América-do-Sul, habituados a estes rigores com efeitos devastadores largos e inimagináveis à nossa imaginação, embora condicionada e elucidada pelas imagens que os media transmitam.
Obviamente que assim, o que aqui se passou, o tal vento, como manifestação maior da natureza enfurecida, teria as feições de um mini-tornado. Mas não há comparação possível. É verdade que vivemos a aldeia global, mas dada a sua vastidão há comparações impossíveis e ilógicas. Não se pode nunca, em qualquer caso que seja, tomar a parte pelo todo, da mesma forma que numa estatística a primeira casa de uma rua, quarteirão ou bairro não caracteriza o todo dessa vasta amostra, ainda que seja um todo muito peculiar, dada a pluralidade de situações, indivíduos, famílias e grupos. Portanto não se pode comparar apesar de o actual sistema ser o da politica dos números, da indiferenciação e de outros propósitos universalistas e nada particulares, como mais adiante darei a entender ao meu estimado leitor. Assim, proceder desta forma é zombar da população, ou como numa evolução retrograda hoje se diz, do povo, ignorante e desprotegido de uma tal ocorrência, manipulada agora no que chamaram de mini-tornado.

É verdade que vivemos no país das minis, e que estas são um bem de consumo no dia-a-dia de muitos portugueses,
helás!... Mini, caros Senhores-que-nem-o-espanta-espíritos-em-tal-noite-se-agitou-e-assim-dormiram-profundamente-tomando-conta-do-assunto-no-dia-seguinte, foi o terremoto da semana anterior, que comparativamente com o de 1755 e o de Benavente/Salvaterra, que há rigorosamente 100 anos incomodou vivos e mortos exumando cadavares que por todo o lado atingiram a superfície em êxodo, num abandono involuntário dos seus perpétuos lugares - tal como conta o pai, em testemunho do que a sua avó presenciara ao reencontrar uns quantos antepassados seus, putrefactos ou despidos de carnes, ressurgidos à luz solar. São realmente tétricos e bizarros tais acontecimentos quando comparados a outros de maior amplitude que a nossa vivência pessoal ou colectiva tem registados. São casos ímpares, muitas vezes espaçados entre si, numa falaciosa convenção, em cerca de 50 anos (2009, 1969, 1909, 1859, 1755, 1597/98, 1531, 1355/56, 1337,...), pelo que a presente tabela tão bem demonstra com o rigor cientifico de então, num relato que vai do ano 500 D.C. a 1909.

Nós não temos em matéria de tornados um tal histórico, tal como nos Estados-Unidos e no Brasil, sendo que neste ultimo país entre 1985 e 2009, registaram-se quase 50, o mesmo número que em Portugal entre 1936 e 2008, sendo que o de maior amplitude entre nós, à escala geral, foi em 1954, que por todo o lado ficou conhecido por ciclone, o que em matéria de escala de vida, em termos de grandes tornados, dá 1,5 tornados globais por existência individualizada.

O tornado ou o vendaval, vento forte, ou mini-tornado como poetas, políticos e makers media gostaram de suavizar, caros senhores, e caro leitor, para todos os casos ainda não teve fim por estas bandas. Tornado pois, e será teima minha o querer na verdadeira acessão da palavra e da sua força, quanto mais para me fazer a vontade já que ainda na vida não tinha passado por tal experiência.

As consequências ainda se fazem sentir, sendo que as mais gravosas já se redimiram novamente em bens úteis e essenciais. Durante quatro longos dias a luz esteve ausente; os multibancos e as redes móveis não funcionaram. Posto isto, questiona-se a arrogância massiva de alguns destes serviços quando se recusam com pseudo-assertividade em dar resolução aos problemas expostos num atendimento ao cliente e com desconfiança avança-se neste momento para tempos de discutível credibilidade face a infalibilidade dos mesmos. E enquanto que as redes móveis se mostraram mais resolvidas, apesar da demora, a EDP, como empresa única ou maioritária no fornecimento de energias em Portugal, mostrou-se incapacitada de colocar termo ao caos tornando o Natal num acontecimento escuro, frio e triste como não havia memória em Portugal - dado que a electricidade retirou das casas portuguesas a necessidade de uma grande lareira, hoje objecto de luxo, fonte de energia artificial motriz de uma casa, capaz de responder a todas as necessidades. Obviamente que mil soluções poderiam ser apontadas como objectos de substituição, mas quem disse que os portugueses estavam preparados para tal? Logo o povo que tem o poder do desenrasque, que europeizado por um comportamento de ciosa tecnologia de ponta, falível numa temporada como as lindas e nervosas lâmpadas de árvore-de-natal num mês de escravizado trabalho, nos deixou atónitos face a incapacidade de respostas.

Com: "temos 5000 homens no terreno", justificou-se a operante inoperância dos serviços. Luz de velas, pilhas e petromax, foi a companhia e fonte de calor nestes dias em que as noites pareceram mais escuras que nunca, e todos os coutos e velas decorativas que jamais se pensariam em arder, serviram ao efeito. Retorquindo, foram dias desconfortáveis em que os sorrisos esboçados foram contidos. Como disse o pai,
que desde que há luz foi o primeiro natal sem electricidade, ou como dizia em declarações a um jornal um idoso septuagenário de feições modestas, rudes e rurais habituado a viver sem luxos na sobrevivência da azafama diária: o natal mais triste da sua vida.

E porque razão hoje, neste dia 30 de Dezembro, 7 dias após o tornado, e quase 14 depois do terremoto - só para lembrar o índice de calamidades naturais, que na presente semana a chuva parece concretizar como terceira força natural ameaçando com cheias, os terrenos visivelmente já saturados das águas -, a EDP ainda não resolveu toda a problemática do tal ridicularizado mini-tornado. Sem saber a que ponto já foi resolvida por eles a situação, levantando-me e indo à janela do meu escritório constato que tudo funciona bem nos diversos lares que dela alcanço assim como os semáforos do topo da rua. Porém, verifico que a rua permanece escura e a esta hora só iluminada por parcos metros pelo laranja da intermitente do semáforo, que daqui se assemelha a um farol num promontório numa noite de breu, assinalando ao perigo onde há vida. Pois é, não há luz nas ruas ou em algumas ruas. Mas lá está, algumas... e estas algumas, convertidas em alguns, em matéria de números, como há pouco adverti ao leitor, são a nota positiva num suficiente menos para num relatório Socrático fazer passar como operação de sucesso a mediocridade de um serviço - isto já para não falar do novo sistema de fases imposto pela REN (a tal que se diz de confiança), que deixa num caso de paralisação meia casa sem luz, ou meio prédio ou um quarteirão e meia casa (como é aqui o caso). A este pormenor eléctrico, soma-se a ausência de estabilizadores nos electrodomésticos recentes, permitindo que muitos se degradassem ou estragassem naquele que chegou a ser um vai e vem constante de energia, sempre e cada vez mais enfraquecido. Em suma, tiram-nos os direitos e vão-nos à bolsa!

É a vida, não há nada a fazer, dizem os conformados!
Em bom português, e bem assertivo, são mas é os tomates do padre Inácio! Que belo é o estado da nação que vai acolher o TGV! Já agora, por quantos dias ficará parado este precioso comboio no próximo tornado, se lá na France, quando este tem problemas pára horas e desloca-se à velocidade de um comboio regional? Aposto que dívidas!

Já vai longa a dissertação. Sumariando, facilmente se aceitaria então um mini qualquer coisa, se, pelo contrário do que se observa, tudo se tivesse sido resolvido em horas. Assim teimo, e porque sou casmurro, "e porque eu quero!!!", e já com comprovada razão, admoestando o opositor: foi tornado e acabou-se.



28 de dezembro de 2009

A TOI!



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24 de dezembro de 2009

UM CÂNTICO PARA A NOITE DE NATAL



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FELIZ NATAL




A todos quanto nos seguem, lêem, visitam e comentam:

Um Santo e Feliz Natal
cheio esperança, paz e harmonia.


Grande abraço.


Sempre Vosso, com respeito e admiração



Bartolomeu
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SERÁ CHUVA, SERÁ VENTO... FUI VER E ERA UM TORNADO!




Inerte e sem reacção! Impávido e incrédulo vi os elementos alterarem-se assistindo da janela do meu scriptorium ao poderoso tornado que no cruzamento da rua da minha casa achou eixo e rodopiou como um pião. Do telhado, senti serem arrancadas telhas que pelo sótão se arrojaram o tecto com agudo som; na rua, senti portões caírem e ouvi vidros estilhaçarem-se; vi o enorme e frondoso eucalipto, aqui da frente, com um tronco da grossura de 5 homens adultos, vergar-se como um condenado oprimido perante o seu carrasco; vi os cabos eléctricos aéreos, que cruzam a rua, chicoteando-se uns nos outros riscando faíscas no negro escuro da noite sem luz; vi com horrendo sentir, a natureza acordar e rir-se da fragilidade humana sobrepondo-se autocraticamente sem assertividade nenhuma; não ouvi, como outrora, mulheres gritando que o mundo vai acabar suplicando a intercessão divina através de rezas e rezinhas... já morreram todas! Porém, ouvi uma voz dizer, comentando:

"Será o que Deus quiser,
e sobre isto nada podemos fazer"


(Deus uma vez mais... que quer Ele desta vez? Não saberá Ele que é Natal e por cá queremos, pelo menos nestes dias no ano, harmonia e paz? Quer assim estragar-nos o Natal. Sim, o Natal, a festa do nascimento do seu filhinho, o "Deus menino", aquele que pode ser sinónimo de pandemia. E sobre este aspecto não me quero debruçar mais. A ser Ele o responsável disto tudo, não merecerá mais do que a indiferença a este seu capricho de criança mimada, só para apoquentar e desassossegar o pobre homem que até numa distinta lição de catequese aprendeu a ser tolerante e nunca vingativo...).

Engane-se então o caro leitor, se acha que isto foi um belo espectáculo. Sopro ou não de um Deus aborrecido, o temporal e ontem não foi um belo espectáculo de se ver e de se sentir, foi antes um tempus horribilis que durante uma hora petrificou e enervou quem o presenciou, da mesma forma de quem há uma semana atrás se assustou e assim sentiu com o abalo de terra. É caso para pensar:

"- O que teremos na próxima semana?"


Por agora, melhor espectáculo não houve hoje como assistir à fiabilidade do mundo moderno e tecnológico e suas promessas. Falta de luz, multibancos, redes telefónicas e Internet... vem um vento, e ficamos sem eira nem beira, e como a Alice no belo país das maravilhas, ou aquele que fica por detrás do espelho, mingamos perante tal provação da tirania dessas rainhas de Copas ou de Espadas. Bullshits!... ou em bom português, os tomates do padre Inácio!

Jantar à luz de velas e serão com a Rádio a tocar e assim se recuou no tempo,como disse o pai...

Por agora, como a força da energia que aqui chega é fraca e não tem potência de fazer vibrar um aquecedor, com os pés gelados vou aquece-los no quente da minha cama esperando um noite sossegada sem mais admoestas bizarrias.



23 de dezembro de 2009

POR ENTRE DESCAMPADOS E SOBREIROS EM TELHADOS DO TEMPO DE SÃO MANÇOS




E assim foi o dia de hoje, por entre chuva caída de amiúde percorrendo estradas da vasta planície partilhando este olhar sobre um segundo que captamos.


17 de dezembro de 2009

ADENDA

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Em breve o regresso para mais deambulações e afins...
até lá a vaguear por aí!
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15 de dezembro de 2009

ÉS LINDA... CRISTINA AREIAS


Passou os 40 anos... já lá esteve em casa (hehehehe)... e apesar do Camilo não ter gostado ela foi à avante...
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Brava, Cristina... não envergonhas ninguém!
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A Maitê Proença também pousou depois dos 40 e é certo que veio a Portugal retribuir com a famosa cuspidela outras de tantos admiradores e fãs portugueses nas suas sessões noctívagas extra novelas. Afinal, ela estava no seu pleno direito!
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Ó Cristina! Outra coisa... Só vales 15.000 €????... tantos sorrisos, fama e anos de carreira e com esses magníficos atributos só vales mesmo isso...
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A Maitê valia mais, ora! Pois a Maitê é internacional... será que a Maitê também cuspiu nas fontes famosas de outros países ou será que ela só será mesmo conhecida no Brasil e em Portugal?

Ainda por cuspidelas... terá a nossa Maitê inspirado alguma das personagens do Equador?
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Cristina, és linda!

(Agora vê se reaves o dinheiro que te devem das fotos)
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5 de dezembro de 2009

SUSPIRO...



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BOM DIA!


E assim se cavalga num novo dia!


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4 de dezembro de 2009

NO DIA DE HOJE





Segundo a tradição familiar as decorações natalícias só se realizavam na semana anterior ao natal. Capitulada pela generalização dos novos tempos, fixou-se a 8 de Dezembro, no dia da Srª da Conceição, em que a disponibilidade da tarde desse dia era para essa realização - data que hoje se vê antecipada pela entrada do mês.

Aqui no blogue, impossibilitado de uma temporal tradição secular, aconteceu hoje darmos azo ao zelo natalício inaugurando a nossa ecológica árvore-de natal resumida a uma folha de papel - não reciclado - e a canetas de feltro com tampas ventiladoras, não vá eu engolir alguma.


3 de dezembro de 2009

BOM DIA!


E assim começa o dia de hoje...


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2 de dezembro de 2009

AINDA POR RESTAURAÇÃO





Viva a Restauração... dos bigodes!


1 de dezembro de 2009

BARTOLOMEU DIXIT:


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."


O fim do Eu para um Alter-Ego de si mesmo
e
A perca de um bem comum pela homogenia generalizada!

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UN PEU DE MUSIQUE:


Em dia da restauração de Independência Portuguesa nada como um pouco de música erudita da época, pelo punho de Frei Manuel Cardoso, que foi amigo pessoal de D. João II de Bragança, vulgo D. João IV, e músico da sua Casa - compositor da Capela Ducal e mestre do Colégio dos Santos Reis Magos de Vila Viçosa.




Gloria in excelsis Deo
Et in terra pax homínibus bonae voluntatis.

Laudamus te, benedicimus te,
Adoramus te, glorificamus te,

Gratias agimus tibi
Propter magnam gloriam tuam,

Domine Deus, Rex caelestis,
Deus Pater omnípotens.

Domine Fili unigenite, Jesu Christe.
Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris.

Qui tollis peccata mundi,
Miserere nobis.
qui tollis peccata mundi,
suscipe deprecationem nostram.

Qui sedes ad dexteram Patris,
miserere nobis.

Quoniam tu solus Sanctus,
tu solus Dominus,
tu solus Altíssimus, Jesu Christe.

Cum Sancto Spíritu
in gloria Dei Patris.

Amen.

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O HINO DA RESTAURAÇÃO - A VERDADEIRA HISTÓRIA



Música:
Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida
(1826 - 1898)


Poema:
Francisco Duarte de Almeida Araújo
Francisco Joaquim da Costa Braga





Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Ás armas, ás armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.


Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
"Sempre, sempre te amarei"
O povo diz a Bragança
"Sempre fiel te serei"

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta c´roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.

Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemispherios
Tem mil povos dominado!

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta música foi composta em 1861 sobre uma peça-teatral escrita para a ocasião, intitulada de comédia-drama com o nome 1640 ou A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA, para ser apresentada no Teatro da Rua dos Condes (antigo Cinema Condes, hoje Hard Rock Café).

Dedicada ao Rei D. Pedro V, foi estreada no dia 29 de Outubro desse mesmo ano, no dia do aniversário natalício de sua majestade o Rei-Viúvo D. Fernando II
- malgrado este acontecimento cultural, esta peça/libreto seria publicada a de 28 de Novembro, escassas semanas após a morte prematura do então rei de Portugal (pelo que se seguiu nova regência do Sr. D. Fernando até à coroação do novo soberano, no mês seguinte).


Frontispício do Libreto
(3ª peça dramática, pág. 84)


Na trama desta opereta, para melhor denominar o género musical em questão, dado que todo o texto não seria segundo a forma musicado, o trecho correspondente ao hino é o momento que encerra esta peça musical.

Seguindo a estrutura do arquétipo francês de ópera-comique,
que não significa a tradução literal de ópera cómica (assuntos burlescos e engraçados com o intuito de fazerem rir), mas sim de obra musical intercalada com diálogos falados, geralmente com a divisão da práxis em 4 actos - ainda que ulterior a esta data, tome-se a título de exemplo a famosa Carmen de Bizet, apesar de posteriormente terem sido musicados os seus diálogos, ou as operetas de Offenbach, como La Grand-Duchesse de Gerolstein -, o enredo cruza cenas e hábitos da vida popular com factos históricos romantizados, com deixas bem ao estilo de Garret, resultando numa comédia de costumes na qual se enaltece permanentemente a Casa de Bragança e o seu paternalismo, como elemento soberano de ligação entre as várias classes, e assim, em espelho entre o palcoscenico e o palco reale, o regime e família real reinante ao ano de 1861. Um golpe de propaganda política para impressionar as massa com um texto ambíguo cheio de advertências e duplos sentidos evocando sempre a supremacia do estado monárquico, perante o adivinhado advento republicano.

A cena final, a coroação de D. João de Bragança como rei de Portugal, é recriada seguindo os protocolos, juramentos, vivas tal como o descrevem os escritos e gravuras da época, conforme se crê nos quadros que se encontram no Palácio Nacional da Ajuda. Entre cada par de estrofes seguem-se em cenas faladas, para melhor fazer chegar a mensagem ao público, discursos e honras ante a dramatização de uma majestosa cena triunfal, simples mas digna de uma ópera de Verdi, com solistas e coros cantado e bradando vivas em crescente clímax, incendiando o público do teatro de fervoroso e enaltecido sentimento patriótico, dando vida e calor às tais espectaculares e garridas recriações que constituíram a única coroação em cerimónia pública de um soberano português perante o entusiasmo do povo na sua aclamação - curiosamente também a última da história de Portugal.



Pintura da Sala D. João IV, do Palácio Nacional da Ajuda
sobre a qual foi reproduzida a cena tal e qual

Sendo música de carácter marcial, apropriada por isso ao registo das bandas militares e filarmónicas, foi adaptada pela então recém-criada Sociedade Histórica da Independência de Portugal de Alexandre Herculano, como hino /marcha oficial das comemorações das festas da Restauração, para a execução em conjunto com o hino nacional vigente, na inauguração do monumento que esta sociedade fez erguer em 1886 no espaço de permeio entre o Rossio e a Avenida da Liberdade que se passou a designar de Praça dos Restauradores.


A partir de então e por imitação a estas celebrações, que se passaram a assinalar anualmente por todo o país, como festa regimental civil, a divulgação desta peça musical em situações protocolares ou em arruadas tornou-a num dos mais estimados hinos populares portugueses (tal como tinha acontecido com Hino do Minho, vulgo Maria da Fonte, do maestro Frondoni - criado em circunstâncias semelhantes, e adaptado na altura dos motins).

Durante o Estado-Novo, na sequência de alguns procedimentos herdados da 1ª República no remate drástico ou na transformação escamoteada de acontecimentos, instituições ou edifícios públicos, religiosos e civis como de formas e agentes culturais populares e eruditos associados ao anterior regime, quando na criação da Mocidade-Portuguesa este hino viu-se adoptado por este ideário como um dos seus hinos/cânticos. Com a antiga letra convenientemente alterada perdeu-se subtilmente daí em diante o carácter e a memória da intenção dos versos originais, tal como após 1910 fora o caso da alteração da festa da Restauração por festa da Bandeira Nacional (processo que entretanto revertera na compressão inicial), já que esta era uma celebração de tal forma enraizada e incontornável para os populares, sobretudo quando a mesma estimulava a criação no imagético português o mito do super-histórico Lusitano a pontapetar o Castelhano na alusão do pequeno mas valente e vencedor - tal como nos anos oitenta do século anterior ainda se arreigava às crianças nas lições académicas de história.

Uma vez achadas estas conclusões, torna-se agora fácil repor a verdade sobre este assunto. No ano anterior, quando publiquei pela primeira vez este texto, agora modificado, publiquei também uma partitura do hino
que habilmente tentei restaurar, a partir da construção Salazarista, uma vez que nem no arquivo musical da Biblioteca Nacional se encontrava localizado único exemplar fidedigno do original. Como seria possível, uma vez que este hino permanece tão popular como A Maria da Fonte ou A Portuguesa, e até mesmo o esquecido Hino da Carta, dos quais se encontram com facilidade as várias versões? Dias depois tive a notícia de que, durante as Cerimónias do dia da Restauração de 2008, foi depositado na biblioteca do Palácio da Independência uma partitura de Canto e Piano da versão original deste hino. Prevalecendo agora este instrumento de verdade acima de qualquer especulação, deixei o meu tímido esboço sem as reinvenções possíveis, e não tendo até hoje indagado o referido documento, faço-o localizar a todos os curiosos.

Uma vez que em mais um ano não verifiquei novidades sobre o assunto, pelo que li e constatei noutros blogues, com esta análise deixo aqui o meu modesto contributo para este dia.


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