27 de novembro de 2009

UM ANO DE BLOGOSFERA VI - UMA CONFISSÃO - UM ENSAIO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE QUEM NADA SABE DE SI NUMA DEMORADA INSISTÊNCIA SEM GRAVURAS


Engane-se pois quem julga que com reparos me intimida e me engana com chás de pés de Cerejeira, quando na realidade se tratavam somente de chás de pés de Cereja - a declinação diz e faz toda a diferença, n'est pas mon cher ami?


Ora com um ar de desentendido e dissimulado, certo do meu triunfo guardado nos meandros dos meu punhos de algodão, inquiri o meu sábio interlocutor até se trair em enganos e a verdade se perfilar a meu lado. Surpreendido da sua incapacidade de ter traduzido o assunto em termos correctos, sem se prostar em desculpas da práxis facilmente perdoadas pela tolerância da fiabilidade humana, injuriou-me pois, caro leitor, acusando-me de pouca amizade e de mau feitio. Caro amigo, aprenda com o já sapidus dito:

"O Bartolomeu sabe sempre tudo! Ainda que tenhamos estudado apenas um pouco mais, mas um nadinha de nada, ele sabe sempre mais!"


Não são suas estas palavras, e que seja desde já ponto assente que o Bartolomeu não sabe tudo, apesar de ser certo que no final a razão nunca esteve noutro local se não à sua direita. Tal sentença, foi proferida faz já algum tempo - anos mesmo - responsabilizando-o para sempre de tal máxima, que para seu espanto até hoje se continua a sobrepor àquilo que deveras sabe. Neste momento, qualquer julgamento sobre uma potencial e adivinhada presunção, ré da sua pessoa, cai veemente por terra. Desconhecendo a razão dessa condição à qual poderia com grande audácia chamar de dom ou uma herança inata que lhe permite sentir e viver o mundo de outra forma. É quase como distinguir um asno que caminha unidireccionalmente com palas, de outro que caminha da mesma forma mas sem elas.

Mas recuando nas palavras escritas. E porque razão o Bartolomeu, não se contentado com a tal ideia, achando que ali havia coisa, refutou avançando no apuramento cristalino da verdade? Simples e vulgar de Lineu, não sabe explicar! Sabe apenas que com base na observação e no relacionamento de ideias, revestido de algum sarcasmo joco-sério, vulgarmente denominado por sentido de humor, sendo esta derivação do pathos que o encerra condicionalmente, avançando com uma arte tão antiga quanto é na humanidade a refinada inteligência da manipulação humana, numa técnica simples e pueril. Tal como qualquer "professorinha primária" indaga o seu aluno com hábeis perguntinhas tentando rectificar o seu erro sem o envergonhar (era bom se assim fosse, mas não), levando-o a corrigir-se na verdade, com recuos e avanços, em desentendida e refinada diplomacia até que o inquirido se sinta como presa acercada e caída conscientemente na tal falta ante a sua língua desbocando a emendada verdade. É aqui que todo o tolo se arruína e o qualquer sensato se eleva. E de ambos, cada um escolhe o que mais lhe aprouver, se bem que a tendência ainda é ser tolo.


... ... ... ...


Novembro está quase a acabar e muito texto ainda por publicar, sem que neste momento saiba o que fazer a este rascunho talhado que modificado não para de crescer. Horas de longas ideias que pareciam brilhantes foram aqui decepadas e eliminadas para que fruísse apenas o sumo da mensagem, que, ao caro e interessado leitor, tento fazer chegar. Em cada dia surge pois uma nova ideia que de preambular se transforma em extenso objecto de programa, subjugando e empurrando para novos dias o assunto por publicar. Malfadada é pois esta minha escrita, por não ter ciência nem método obedecendo apenas ao "patético", vulgo sentimental, sabor do que discorre o pensamento.

Coerentemente, voltemos ao rascunho, ou ao tal "protótipo", que se quer desenrolar:

Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos - outra pertinente causa que outro alguém cá veio ditar (desta com idónea cortesia, mas sem chás para rivalizar o meu já bebido chá de Poejo trazido do Algarve), sendo que a primeira combinação é um brasileirismo entranhado nos nossos hábitos linguísticos à força do entretenimento novelista. Aceite o ensinamento, fi-lo de bom grado dado a minha perene insistência na arte de bem dizer e escrever que longe está de alcançar o mais perfeito idílio.

Mas, agora não importa mais: O dia dos Fiéis Defuntos é dia de gente morta daquela que já morreu fisicamente - essas mesmo que ou foram enterradas, colocadas numa simpática prateleirinha ou gavetinha, ou simplesmente queimadas até às cinzas -. Morrer é coisa boa nos tempos que correm. Diz por aí um famoso, e com razão:

"Hoje morre-se muito"


Pois morre-se! E morrer não é só ir para os anjinhos, como diz o eufemismo mais caro à vox populis. Hoje morrer pode ser simplesmente o acto de desistir e fechar-se herméticamente em si mesmo. Desistir, mais que em todas as épocas está hoje na moda, face a democratização da vida... É mania e a nova doença, dada a descredibilização e a indiferença de um mundo nada paternalista e sem objectivos, sendo o maior escândalo a desistência de pessoas como se se tratassem de meros objectos. Objectos defeituosos e impróprios de serem usufruídos. É grave o que por aí vai e o advento virtual o fero cavalo em que se apoia esta nova Babilónia-de-vida-fácil. Os anciãos, outrora fonte de sabedoria, são vistos como dejectos e restos de sombras de vidas. Os adultos laborais digladiam-se entre si, num mundo escravizado por um galopante e impiedoso capitalismo económico selvagem, desmoralizador da dignidade humana. Os adultos caídos na desgraça, destituídos de suas personalidades, sem expectativas e auxílio, vivem a opressão do cárcere existencial em que vegetam. Os jovens, que nada sabem, esperanças do futuro, andam ao engano colidindo uns nos outros ébriamente como sentinelas estropiadas pelos novos ditames sociais. E as crianças... essas são quem hoje detêm o poder como autocratas da nova era, subjugando tudo e todos à sua volta com apurado instinto de sobrevivência em mandar para um bem estar na vida... enfim, nada é já natural. Estamos perante, não de uma sociedade em evolução mas sim uma sociedade contaminada e decrépita sem valores que outrora dignificavam a existência humana - se é que estes valores não são uma utopia de minorias. A valorização, o particular e o pessoal desaparecem para dar lugar a esse colectivo universal que é vício e depravação em sinónimos de falência e desistência como fuga à realidade. É a morte anunciada, por apneia e afogamento!

Perdoe-me caro leitor, se estas palavras se mostram moralistas. Não sou um velho do Restelo, helás. Apenas alguém que observa e critica apesar de já se encontrar enlameado e corrompido por alguns aspectos deste novo mundo, sobretudo por viver e partilhar esse mesmo mundo, local onde vivemos. Restas-nos saber, se valerá a pena ficar com ela apenas pelos tornozelos já que o mundo vive condicionado e viciado por essa pseudo-elite inalcançalvel, novos deuses em profecias já anunciadas, e senhores das novas religiões, que contaminando reduzem e privam o mundo das vidas humanas acicatadas com mil benesses e mil-artes, armas de morte lenta, que se usufrui com sabida ignorância arrogada pela sede do consumismo.

Portanto, por agora e enquanto não morremos, prossigamos noutras variantes, na história dos Fiéis Defuntos:

O dia dos Fiéis Defuntos, é aquele dia em que a grande Igreja de Roma reza por todos quanto já partiram, esperando que assim os menos desfavorecidos alcancem o céu. É o dia em que nos forçam, com mil sentimentos de auto-comiseração, com ameaças de infernos e purgatórios, a uma penitente romagem ou a lembrarmos-nos pelo menos dos nossos familiares que já partiram, malgré tantas fotos em casa enchendo móveis e estantes, às quais passamos o ano a sorrir correspondendo às felizes expressões lá cristalizadas.

Práticos são os Protestantes, haja dois dedos de testa. Práticos e salubres que não perdem tempo em tais lúgubres sensaborias apostando numa ajuizada auto-remissão em vida, uma vez que os mortos sem-vida, que se perpetuam agora numa existência marmórea, lá, ou só têm contas a prestar ou simplesmente erram num lugar comum como cá, pois sejam um ou mais locais, de todas as verdades a mais verosímil é somente aquela que destitui esses sítios do além como providos de diferentes níveis sociais. Por cá, no mundo católico, são só cantigas ao dinheiro gasto em missas, em lápides, em flores... um enterro digno é o máximo que alguém pode desejar, agora a exploração estuprada dessa passagem o revolver do cadáver na urna, lá no escuro da cova funda...

Eu não fiz romagens nenhumas e muito menos me lembrei de gente morta nesse dia. Tenho boas memórias dos meus mortos, e deles são essas as minhas melhores recordações. Estou-me nas tintas para o pecado, se tal o é, da mesma como o Divino-a-ver se está nas tintas para aquele meu incessante pensamento, que ele sabe bem qual é, e nem mesmo com quilos de anti-depressivos já tomados se desvanece. Agora, e em bom jeito de prosseguimento eu poderia seguir para a minha errância e Ele... para onde quisesse, sem ressentimentos e as suas habituais revenges - convenhamos que são sempre resultado de um injusto braço de ferro, pois eu de omnipotência nada tenho, crendo apenas levar-lhe a melhor com a minha indiferença.

O atento leitor, que nos segue há vários meses, de certo compreenderá melhor agora alguns traços desta nossa existência, e desengane-se desde já todo aquele que julgue que me estou a inspirar em Saramago e no seu Caim (basta ir aos Registos). Na realidade posso arrogar primazia, pois a nossa questão antecipa e bem o famoso livrinho. É certo que agora deixo desvelar um pouco deste assunto, mas não mais que isto, ante a vontade regateira, tão cara à raça humana, de algum leitor voyeur! De um poeta, pintor, artista e outros que tantos apenas interessa a sua arte, pois é nela que está o grande contributo à sociedade... nada mais interessa. Usufruir é um grande dom para aqueles que sabem viver e cheio de honras é aquele que viveu in tempus equalis, já que tudo na existência é efémero. Vil será sempre quem agiu em contrário e vem bater em mortos, com pouco respeito à sua memória e arte, pois demonstra com isso que para além de não saber viver, nada sabe ou soube aproveitar. Chorar, gritar, gemer, ganir, escabelar-se só no segredo do quarto, onde ninguém nos escuta e vê. Faze-lo em publico, serve de alguma coisa? É algum orgulho? É bom lembrar que as carpideiras são mercenárias, artistas que choram pelos outros num teatro fingido, e quem da sua vida faz um pranto por tudo e nada, que nem uma carpideira, bons sentimentos não deve ter e nada de favorável pode oferecer ao mundo. Muito ouvi em horas de partida, como aforismos e derramadas lágrimas de crocodilo. Jamais se lamenta o fim de algo bom, de uma existência feliz que de adequado só soube oferecer. O aplauso e o sorriso são a melhor retribuição e as lembranças, memórias e inscrições o melhor conforto.




Pavane pour une Infante Defunte,
em consolo pela desgraça do mundo morto-vivo em que vivemos resignadamente


(continua)


2 comentários:

António Rosa disse...

Caro Bartolomeu,

Um texto muito bem conseguido, sem dúvida, o melhor até agora desta sua série 'aniversário'.

Não creio que seja um 'velho do Restelo', nada disso, mas é considerável, a sua visão bastante pessimista do mundo actual. Encontro-me no sítio oposto, no optimismo de entender que as mudanças são bem visíveis (pelo menos para mim!).

Quanto ao Dia dos Fiéis Defundos - entendi e partilho a sua visão de morte bem explicada neste post, apesar de achar que a seguir a essas 'mortes', há sempre um 'renascimento', que corta com o que é velho e já gasto -, achei interessante a visão de ameaças de infernos e purgatórios... Será que os púlpitos e as sacristias ainda estão cheias dessas ameaças? Fiquei curioso, pois, por me achar distante desses ambientes, nada sei sobre a realidade actual. A única pessoa que eu conheço que me fala dessas coisas é a D. Perpétua, uma simpática octogenária, com quem tomo o meu café da manhã, numa pastelaria na rua onde vivo.

Lápides, meu caro? Isso é para priveligiados com espaços pré-comprados em certos cemitérios de localidades pequenas. Enterrei a minha idosa mãe há 1 ano e meio e lá foi parar a uma gaveta, por falta de espaço. As lápides foram substituídas por tampas dos ditos gavetões.

Nesse dia, o dos finados, não me desloco aos cemitérios onde se encontram os meus defuntos, pois teria que percorrer meio mundo para os visitar - pai, mãe, filho e outros.

Gostei muito da parte final do seu texto. Aqui ficam o aplauso e o sorriso que fala.

Com carinho, um abraço

António

Bartolomeu disse...

Caro A. Rosa,

obrigado pela partilha da sua experiência pessoal, a qual mereceu a minha máxima atenção, e pelo cumprimento, do qual retiro para a minha aprendizagem, a evolução que denota na escrita.

Abrç

Bartolomeu

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