18 de novembro de 2009

UM ANO DE BLOGOSFERA IV - UMA CONFISSÃO - UM ENSAIO CONTINUADO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE UM RAPAZ QUE JÁ NADA SABE DE SI


"São quentes e boaaaaaaaas!!!!



É o pregão certo de um vendedor de castanhas, gritando no meio da mole anónima, de entre tantos mil sons de uma feira das "ricas" feiras de Novembro - onde surgem as esperadas castanhas assadas pela primeira vez no novo ano, acompanhadas por pesadas chuvas ditando que o Outono já chegou.



É o pregão certo... o bradado apelo o marketing, e, a sonoridade esganiçada o multi-colorido que atrai ante o espesso fumo que suspenso, ou passando por entre as gentes, é trilho que nos leva até este pregador. É coisa de feira - dos Santos ou da Golegã; é coisa que se vê nas vilas e nas cidades - como ali no Chiado, na esquina da Custódio Cardoso que agora é a Vista-Alegre. L'ambiance e o leitmotiv são sempre os mesmos onde quer que um vendedor se encontre. Mas num tempo em que a arte da frase slogan apregoada ao ventos já se recolheu, perante a vergonha de fazer notado, como que se escondendo de misérias desconhecidas, o mudo vendedor lá está. Cabisbaixo, e de mãos rudes enegrecidas pelo carvão, apressa-se solicito a atender sem demoras, ou quando não, com o seu olhar farrusco e comiserado atrair os mais sensíveis passeantes. Cada um sabe da sua arte, e triste será aquele que dela não saberá tirar o melhor e maior partido.



Engane-se pois o estimado leitor se esse som não é apetecível. Tão apetecível é, como luxuriante é o prazer de senti-las na mão, tal como indica o pregão. Maior gozo é porém leva-las quentes à boca e no mordiscar procurar o consolo desse vigor prazenteiro que só nesta época sai à rua e que só nesta época faz sentido de existir. Quentes e boas, portanto! Quentes, boas e envoltas pelo sabor do de sal e da fuligem do quente braseiro que metamorfoseou o fruto cru numa arroubada delícia.



Atraído por este pensamento neste som que aqui não chega, ainda que de janela aberta neste dia chuvoso, resigno-me afundando as minhas mãos frias no pesado teclado do meu piano. A ausência desse calor procura conforto nos patéticos acordes arrancados ao teclado, enchendo-me de uma semelhante robustez à medida que esses sons sobem, se delineiam e se vão reconhecendo as melódicas frases de cada andamento de uma qualquer Sonata. São de Beethoven, Mozart ou Dussek os sons que estes dedos percutem, procurando em cada nota, num gradus at parnassus sem fim, o virtuosismo que nunca será comparável ao mais famigerado pianista-de-vão-de-escada.

Sim caro leitor, toco piano! Toco piano em concertos sem público neste auditório confinado a quatro paredes brancas em que a janela faz as vezes da ribalta e as cortinas de sipário, de onde quando não toco escrevo estas frases mudas e sem som; toco piano de janela aberta, fazendo-me escutar aos passeantes naquilo que no momento me apetece tocar; toco com prazer para o meu
empedernido vizinho, certo que o estou a incomodar e a irritar, ante a sua recusa em compreender o que com alguma sensibilidade se ouve do outro lado da parede; toco... imaginando ser um Baremboim, ou algo que me valha, perante a ignorância de quem por aqui me escuta tocar, ludibriando-os e sem humildade enganando-me a mim mesmo, em cada avanço sem retorno sobre uma nota, acorde ou passagem errada. Que concertos estes!

Por isso caro leitor: eu toco piano e nele faço barulho! Pianistas são os Deuses ou Divos que ao piano se sentam e neles fazem magia em cada execução musical. Eu, estimado leitor, como já argumentei, musica de sonho não poderei oferecer a ninguém e nesta arte de tocar piano, sou o terror do meu vizinho mesmo quando toco a peça que este vídeo vai mostrar.




(continua)




2 comentários:

p r a i a disse...

ainda não comi castanhas este ano... qto a este blog, gosto de vir espreitar o modo como trabalhas as tuas fotos e, tb, ver os teus desenhos.
td de bom :)

Bartolomeu disse...

Olá praia,

há quanto tempo!

És sempre bem-vinda por aqui. Obrigado pelo cumprimento e por ainda gostares.

Abrç

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