1 de novembro de 2009

UM ANO DE BLOGOSFERA - UMA CONFISSÃO - UMA REFLEXÃO, UM ENSAIO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE UM RAPAZ QUE JÁ NADA SABE DE SI


Hoje é dia de Todos-os-Santos. Amén. Hoje no passado foi um belo dia de terremoto, onde de uma enfiada apenas o Divino Deus, levou carinhosamente para junto de si, só em Lisboa, aí, umas 10.000 pessoas. Que perturbação! Que tremor de terra este, pensemos! Um facto deveras tão impressionante que incomodou o sossego lá "na France" do velho Voltaire, que apoquentado com tal barbárie, no comovente impacto que escandalizou o mundo inteiro, se sentiu obrigado a tecer considerações panegíricas em questões de moral de índole duvidosa, bem ao jeito de Saramago, atraindo ao maravilhoso abalo de terra o seu errante Candide, num passeio demorado o suficiente para causar uma famigerada picardia religiosa, tal e qual ao modo de Caim! Mas Voltaire deu-se a tais cuidados para espantar o sossego ocioso que lhe devorava a velhice resguardada, num tempo onde o marketing e publicidade eram quase inexistentes e num local onde o abalo de terra nem pestanejou com a graça com que brincou em Lisboa. Com todo o tempo e inspiração, longe dos horrores sentidos por quem cá vivia pode assim, desenhar na sua criativa mente palavras perfeitas e sensaborias, sem uma arte de improviso dignas de uma das maiores máximas desse tempo, sentida com toda a mágoa e realidade vivida, que hoje perdura ainda com a mesma intensidade, frescura e praticabilidade:

"cuidar dos vivos e enterrar os mortos!"


Tivesse, tal susto se abeirado do filósofo que é poeta e que escreveu novelas e sete pés não lhe bastariam para dali fugir - se nos entretantos uma qualquer trave o tivesse levado a ver o Divino mais cedo, e, sem tempo de mais escritas, como consolo e paga de uma vida inquietante que arrecadaram ao mesmo Senhor tanta gente guilhotinada, garrotada, degolada ou enforcada que na sua grande maioria no dia da ressurreição errarão sobre a terra procurando as suas cabeças.




Candide ainda erra.... Da pena do filósofo que é poeta e que escreveu novelas caminhou até se transformar numa partitura, de um genial american Jewish composer. Portanto, Candide ainda erra... em cada nova produção; em cada novo concerto; em cada disco ou DVD comprado numa Virgin ou Fnac; em cada vídeo visualizado no Youtube; fica para sempre, for ever and ever, per saeculum saeculorum ad aeternum, blá, blá, blá... novamente para sempre, etc. e tal, Lisboa fica e ficará imortalizada na opereta que é tocada e ouvida vezes sem conta, como a cidade dos Auto-de-Fé - esse acto purgatório de tornar pura uma alma indigitada como gentia que deve renegar o seu Divino, só por não reconhecer o seu amado Filho. Que gente! Que hipocrisia! Começando lá em cima e acabando cá por baixo - mesmo no deambular dos séculos até aos nossos dias.

Estranho é o desconhecimento e favorecido aplauso a um tal acto musical que os portugueses eruditos conhecem, e se sentem orgulhosos de tal citação. Tolos, ignorantes e iletrados - aqui lhes chamo! O filho de Voltaire no verão passado voltou e passeou-se por entre aplausos no largo de São Carlos sem causar fobia a quantos néscios o foram ouvir. Gentes ignobeis atraídos pelo pitoresco, que se gostam de ver e rever em retratos ridículos de si mesmo. Ainda que sublime, a satírica obra relembra num Auto-de-Fé em Lisbonne, ou seja o primeiro holocausto massivo Jewish de que reza a história ocidental moderna. A mesma vergonha porque é lembrada Auschwitz e outros campos idênticos.




Não é pois de admirar o castigo de Deus sobre a cidade lusa, como sede de vingança pelo acto que condenou centenas do povo eleito. Não é assim de admirar, ou por ignorância destes factos ou por altruísmo católico, as interrogações postas pelo filósofo que também é poeta ao seu Deus por tal cataclisma. Ironia do destino, quis o Senhor, na sua boa sageza e bom humor, fazer chegar a sua justiça no dia católico de Todos-os-Santos... pois a seus olhos não são menos Santos & Santinhos os pobres mártires Jewish consagrados pelas labaredas das funestas fogueiras católicas.




Assim quis o Senhor e assim foi. Amén. Imitando os frondosos e teatrais gestos papais de um Pio XII - que há-de vir -, sem auxilio do auxilio da sétima arte e do pendor de uma conveniente e europeia Cine-Citta, o Senhor lembrando-se do católico dia de Todos-os-Santos depurou a tal cidade lusa em arremessos épicos e bíblicos de tal ordem, capazes de envergonhar e corar de pequenez Sodoma e Gomorra, em favor da memória dos seus mais antigos e muito amados filhos - se não os mais amados, é de desconfiar.


Porém, se esse malogrado dia de setecentos, fosse como um de tantos de antes ou depois, tal dia seria justamente como o de hoje. Assim, por todo o lado o fumo das brasas que fornicam as saltitantes castanhas quentinhas salteadas p'la flor-de- sal, subiria por entre becos e vielas entrelaçando as gentes, perfumando-as e odorando-as no caminho das Igrejas ou no regresso destas, às suas casas ou outras deambulações, por entre sombras altas patrocinadas pelo luz e brilho do já sol-de-inverno ou pelo fresco gotejar das desconfortáveis águas que pairando em cinzentos e negros céus ou caem niagaramente ou lá do alto suspensas sobre as gentes, rindo matreiramente, me partidas ou sustos de gelar o sangue, na ameaça permanente de ruína às cabeças penteadas ou enchapeladas.





(continua)


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