5 de agosto de 2009

BARTOLOMEU AUX ENFERS




Pelo Styx Caronte remou
Sua fatal barcaça imunda,
Pelas escuras e brandas águas
Transporte infectado
De centúrias nauseabundas
De conformados viandantes.

A negra barca dos espíritos
Corre lentamente e com vagar
Para o mundo inferior
Num moto perpetuo
Ondulante e sem movimento
Dos sopros dos Zéfiros ausentes.

No Erebro, na Casa do grande Senhor Hades,
Às sombras tristes sombrias,
Ei-lo chegado para nelas se redimir
E no indistinto maravilhoso mundo,
De espectros sem fim dos confins,
Mergulhar nas tristes e lúgubres águas.

Ei-lo nadando!
Ei-lo lado a lado com eles, elas, eles... whatever
Entrecruzando-se no longo bailado
Na valsa espectral
Extravagante e desprovida
De orientações e sentidos.

(Centrifuga vontade esta
Criada pelo Senhor Hades
De roubar aos seus hóspedes
Histórias, Memórias, Lembranças
Para uma homogénea vivência
Agrilhoada à eternidade.
)

Perde o Norte e a Razão.
Ébrio, cai na confusão
Espiral, novelo, embrulho.
Colado e enrolado,
Revira os olhos enfeitiçados,
No majestoso turbilhão.

Mas antes que tudo fosse
Numa rocha embateu, helás:
TRÀZZZZZZZ - (que choque este! eheheheh).
"Que boas maneiras, tem este Senhor Hades"
Ocorreu-lhe num lampejo
Antes de cair para o lado.

Azamboado, é certo, ficou,
E à rocha de pedra lapado.
Despregou-se do turbilhão
Da maldita valsa danada
Que não era da sua toda vontade
Memoriando-se aos poucos e poucos.

Já consciente, combalido, subiu e trepou
A este lugar mais alto que o rio
Olhando-o, para trás, seu reflexo sentiu
Fugir-lhe para a sua dextra
Recuperando-lhe o brilho
Que a Hades já não irá.

Sentado no topo
Com a meninge agora a funcionar
Lembrou-se, e assim se interrogou:
"Que horas serão?
Deve ser tarde, e a casa devo voltar
Pois ao jantar, não quero faltar!"

Enxergando-se, denota, valerosamente:
"Onde estão as minhas vestes...
as minhas griffes! -bradou.
Estou sem ela... (com espanto) que vergonha!
Porque estou eu assim? Agora, daqui não posso ir!
Mas... é certo que aqui é escuro
E na penumbra, ninguém a sua ausência notará!"

Olho em volta: "- NÃO VEJO NADA!"
E já me maço de aqui estar
Ao rio não voltarei, não quero lá estar.
E ali... parece... é mesmo... há um carreiro
Uma estrada certamente
E para algum lado, não sei onde, é seguro de me levar!

Caminho, passo a passo!
Está escuro: "-
NÃO VEJO NADA!"
(Ninguém merece!)
Porém, não sei como faço ou por onde ando
Também nunca cá estive, é verdade!
E esta estrada parece-me familiar.

Ao fundo não há luz
Tudo é negro como o breu
Aqui...
"- NÃO VEJO NADA!"
Nada e ninguém para passar o tempo,
Distrair-me ou conversar
Ou lúdicamente... me socializar!

Vou gritar a ver se alguém responde:
- Oh Haaaaades... des... des... des... des...
Alguééééém... alguéééém... guéééém... éééém...
...
Espero!
...
Nada!

Uma vez mais:
- Haaaaades... des... des... des... des...
Alguééééém... alguéééém... guéééém... éééém...
...
Espero!
...
Não haverá mesmo mesmo aqui ninguém!

Replico só mais uma vez:
- Alguééééém... alguéééém... guéééém... éééém...
...
Espero!
Ninguém!
Hades nada... afinal já nem sombras ou espectros!

Oh, raios e coriscos me iluminem
Este Inferno é uma treva!
Se estar morto é assim ser
Vou-me já daqui embora!
Mas... sons... que música é esta?
Conheço-a?!?! Parece-me... pois, escutemos!






(Galop Infernal - Casa de Hades - Orpheé aux Enfers - J. Offenbach)



4 de agosto de 2009

MORREU O BARTOLOMEU




ALEGORIA À MORTE DE BARTOLOMEU


Quando este post sair
O seu criador já não vive
A sua existência finou.

De amargura ei-lo caído
Esquecido e pouco compreendido
De um mundo às avessas e deturpado.

Jaz laico numa tumba enegrecida
A 7 chaves fechada a 7 chaves perdidas
Por sua vontade, daí não mais sair.

Horror se sair de lá
Vil e Cruel será
Demolidor de tudo quanto há.

Jaz num buraco frio e lúgubre
Verde de fleuma e de paz
Tranquilo de tristezas e mágoas.

Apodrece o corpo imundo
De uma famigerada alma
Que de sorte nada conheceu.

Já não vive Bartolomeu
Já não vive mais no mundo
Post-mortem, ei-o celebrando este post.

Memorial de uma existência
Do intimo de um ser patético
Se olhos de ver os teve, quem leu, o conheceu.



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