15 de julho de 2009

O VIGÁRIO


O VIGÁRIO


Rolf Hochhuth

5º Acto

Auschwitz ou a pergunta feita a Deus


Cena II

(Continuação)

Riccardo: Não tenho a menor intenção de ser o seu bobo de corte, para alegrar as horas em que estiver entregue a si mesmo. Jamais vi um homem num sofrimento tão profundo; porque o senhor sabe o que faz...
Doutor (desagradavelmente tocado): Vou ter de o decepcionar uma vez mais: toda a sua fé, como a esperança de que eu esteja entregue ao sofrimento, constitui uma desesperada ilusão com que o senhor se conforta. É certo que me aborreço com facilidade. É só por isso que me distrai o nosso debate, única razão pela qual o senhor continuará vivo. Mas, sentir-me em tormento? Não. Estou a estudar a fundo o homo sapiens. Ainda ontem observava um trabalhador dos fornos crematórios: à medida que ele ia retalhando os cadáveres para que caibam pela porta fornos, deu de caras com o cadáver da esposa. Qual seria a reacção dele?
Riccardo: Não me parece que esse estudo o alegre particularmente... O senhor mesmo não é mais feliz do que o tal trabalhador.
Doutor: Não? Eu também tenho lido os meus livros. Agora estou mesmo ocupado em averiguar quanto tempo foi necessário, após a morte desse patife chamado Napoleão - que certa vez disse a Metternich "estar-se nas tintas para a morte de um milhão de homens" -, quanto tempo foi necessário para se converter no ídolo da posterioridade. É uma questão muito interessante no que respeita a Hitler... É claro que este enjoativo vegetariano não seduziu todas as irmãs, como o fez Napoleão. Esses rasgos tão bonitos faltam-lhe por completo. Mas, de todas as formas, é mais simpático (pega num livro intitulado "Hegel") que os filósofos, que fazem passar por circunvalações cerebrais todos os horrores da História Universal, até que se possam encarar como aceitáveis. Não faz muito, relia eu Nietzsche, o eterno caloiro de escola primária, pois um colega tinha de levar a Mussolini, como presente de Hitler no seu sexagésimo aniversário, as suas obras completas impressas em papel bíblia!... (Ri sem graça).
Riccardo: Que culpa tem Nietzsche se os fanáticos, as bestas e os assassinos entraram no seu jardim? Só os loucos o tomariam à letra...
Doutor: Exacto, só mesmo os loucos, os homens de acção. A estes agrada-lhes que Nietzsche tivesse medido as virtudes do homem pela escala das feras. Provavelmente, porque sentia em si tão pouco de animalesco que nem conseguia encantar uma rapariga. Grotesco: a Besta Loura ou a Consequência da Timidez Vitalícia. Resultado: o massacre de milhões de seres. (Ri como se lhe fizessem cócegas). Não, a crítica mais refinada da Europa não foi o que fascinou Hitler. O que o excitou foi a besta-fera, o belo animal feroz, porque o inventor desse monstro escrevia num alemão tão sonoro, tão principesco e arrogante que parecia molhar a pena em Champanhe e mulheres. Hoje ao meio-dia, enquanto essa família que veio consigo desaparecer no crematório, eu também desaparecerei, mas por entre as pernas de uma qualquer rapariga de dezanove anos. É um consolo melhor do que a sua fé, porque realmente o "temos" com o coração, a boca e as mãos. E o temos na terra, quando faz falta. Mas o senhor conhece tudo isso...
Riccardo (em tom distraído): Claro, é um belo consolo - mas que não dura muito...
Doutor (calçando as luvas, quase triunfante): Entendemos-nos maravilhosamente. Terá no laboratório duas belas rapariguinhas, mas o senhor achará mais interessantes os últimos livros... Habent sua fata divini... os santos caem de nariz. A luz da razão cai sobre os Evangelhos. No ano passado fiz uma peregrinação a Marburg, para ouvir Bultmann. É algo muito audaz para um teólogo a sua forma de dissecar o Novo Testamento. Já nem sequer a Anunciação requer que o homem tome por verdadeira a imagem mítica do mundo...

Durante as últimas frases voltou a soar lá fora o zumbido do misturador de concreto. Não se vêem ainda deportados, mas ao fundo, à extrema direita, o reflexo do resplendor de um fogo imenso brilha de novo, poderoso e ameaçador. Ouve-se o ruído de dois camiões. Apitos estridentes. Riccardo levanta-se de um salto, escancara a porta, aponta para a luz do mundo subterrâneo e grita com desprezo, enquanto o Doutor se aproxima lentamente dele:

Riccardo: Lá... lá em baixo... eu estou lá, eu estou no meio deles! Que necessidade tenho eu agora de crer no Céu ou no Inferno? (Fleumático, mais próximo ao Doutor): O senhor sabe, já sabe por São João, que o Juízo Final não será nenhum acontecimento cósmico. (Forte, destacando as palavras): O seus esgares instintivos, imundos e idiotas, põem de lado todas as dúvidas... todas! Se o Diabo existe, é porque Deus também existe - se não, há muito que o senhor o teria vencido!
Doutor (toma-o pelo braço, rindo às gargalhadas): Aí está como gosto de o ver, na fanática dança de São Vito.

Retém Riccardo por ambos os braços, pois Riccardo quer precipitar-se para o fundo, onde aparece um novo grupo de deportados, esperando em silêncio. /.../ Riccardo, sem oferecer resistência, é impelido pelo Doutor a sentar-se forçadamente. Uma vez sentado, oculta o rosto nas mãos, apoiando os braços nos joelhos.

Doutor (apoiado com um pé no banco, em tom de camaradagem): Esgotamento total. O senhor está a tremer, não é? Tem tanto medo que nem consegue manter-se em pé.
Riccardo (retrocede porque o Doutor aproximou demais o seu rosto, e diz com tranquilidade): Nunca disse que não tinha. A coragem, no fundo, não passa de uma questão de vaidade.
Doutor (Riccardo comtempa as vítimas que esperam, mal o escuta a princípio): Dei-lhe a minha palavra de que nada lhe acontecerá. Tenho outros projectos para o senhor... A guerra está perdida, os Aliados vão enforcar-me. Arranje um esconderijo em Roma, num convento. O comandante também ficará agradecido por tirar do campo o enviado do Santo Padre, que não está aqui precisamente a convite. Certo?



/.../


Riccardo: Não... jamais! Tudo o que o senhor quer é que eu fuja outra vez. Mas não andaria cem metros. Seria abatido por tentar fugir...
Doutor (tira uma carteira e mostra-lhe um passaporte): Compreendo perfeitamente que duvide da minha oferta. Mas, veja aqui: não é um passaporte da Santa Sé? Só lhe faltam as datas... Ponho-as quando for necessário... Agora, vamos ao nosso acordo: o senhor descobre-me um esconderijo em Roma, até que eu possa fugir para a América do Sul.
Riccardo: Como imagina poder desertar? Roma está ocupada de alemães!
Doutor: Por isso me seria tão fácil ir lá em peregrinação. Com uma ordem de viagem perfeitamente legal. Dentro de uma semana estou lá. Depois desapareço... com a sua ajuda. Certo?

Riccardo mantém silêncio.

Doutor (impaciente, insistente, aliciante): Sim... pense apenas na sua pessoa, então... e na sua alma ou seja lá o que o senhor chame. Chega a Roma e pendura a sua mensagem nos sinos de São Pedro...
Riccardo (hesitante): Que diria ao Papa que ele ainda não saiba? Pormenores, claro. Mas que na Polónia os Judeus são mortos em câmaras de gás... já se sabe há mais de um ano.
Doutor: Sim... mas o Vigário de Cristo deve falar! Porque se cala?
Riccardo: Já pedi ao Papa para fazer um protesto, mas ele só faz politica.
Doutor (com uma gargalhada infernal): Política!... Claro, se não serve para outra coisa, esse prega sermões!
Riccardo: Não o julguemos.

Durante a última frase o misturador de concreto silencia. Ouvem-se toques de apitos, vindo do lado das fogueiras. O "kapo" empurra as vítimas expectantes. O Doutor chama o "kapo" com um toque de apito. Os deportados desaparecem, descendo a rampa. O fogo alcança extraordinário resplendor.


- Fim -


2 comentários:

António Rosa, José disse...

Olá Bartolomeu,

Antes de mais, dizer-lhe que foi um belo trabalho bloguístico. Parabéns por isso. Por outro lado, imagino que trasncrever tudo isto tenha sido uma tarefa difícil, demorada e muito sacrificada da sua parte. Mas isso mostrou-nos a sua têmpera pessoal, na sua capacidade de levar a bom cabo uma tarefa difícil como esta. Característico de Saturno natal está em Caranguejo. Um Saturno forte.

A parte final deste 5º acto deixou claro uma parte significativa da natureza humana: ambos terminam a pensar em sobreviver. Como sobreviver, para ser mais exacto. Isso humanizou-os, para além do terrível drama que foi o holocausto.

Riccardo termina com enorme bom senso.

Apreciei muito.

Abraço

António

Bartolomeu disse...

Olá António,

tão forte que me obriga a aprender e apreender tudo, ao modo antigo, ou seja lentamente . É imperdoável a sua acção sobre mim (sabia tão bem Mercúrio!)

Em diante... obrigado pelo cumprimento. Tarefa fácil, porém monótona e de bastante exigente, mas apesar das contrapartidas... ufa, ufa... "prazenteira". Eh eh eh!

Riccardo, é o personagem mais humano de toda a peça. O único que olha o seu igual como tal. Porém, um utópico. Não terá coragem de ir até ao fim, pois não resiste à sua condição humana quando a morte se afigura. É ainda uma espécie de Hermes, a ligação entre vários mundos. O mensageiro. O portador - porém de algo que ninguém, até o Doutor, não quer tomar responsabilidades. Portanto o mais sensato. Morrerá no fim, num acto heróico. Ao tentar alvejar o Doutor, é baleado por um soldado. Agonizante, sofrerá a indiferença impiedosa do Doutor - o Anti-Deus -, que enviando o seu cadáver para o forno, exclamará:

"O fogo é um excelente médico. Fundirá o Cristão e o Judeu"

Abraço,


Bartolomeu

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