26 de junho de 2009

O VIGÁRIO


O VIGÁRIO


Rolf Hochhuth

5º Acto

Auschwitz ou a pergunta feita a Deus


Cena II

(Continuação)


Riccardo (tenta mofar dele, acabando por gritar para não chorar): Redenção da dor! Uma conferência humanística proferida por um sádico homicida! Salve uma criança, uma só, para que se veja que o senhor é um ser humano.
Doutor (disciplinante): Com que direito os padres olham de cima para as S.S.? Nós somos os Dominicanos da era tecnológica. Não é por simples acaso que tantos colegas meus provêm das boas cepas católicas. Heydrich era judeu, está certo, Eichmann e Goering são protestantes. Mas, Hitler, Goebbels, Bormann, Kaltenbrunner... Hoess, o comandante de campo, quis ser padre. E o padrinho de Himmler é o Bispo-Coadjutor de Bamberg! (Ri). Os Aliados juraram solenemente que nos enforcariam a todos... se nos agarrarem. É lógico - no fim da guerra o uniforme das S.S. será veste dos condenados ao patíbulo. Todavia, a Igreja, que durante séculos praticou o crime no Ocidente, agora quer representar o papel de instância moral de uma parte do mundo. É um absurdo! São Tomás de Aquino, um místico intoxicado de Deus como Heinrich Himmler, que também diz uma porção de disparates bem intencionados, perseguia os inocentes tal como esses idiotas que perseguem os judeus... E, todavia, vocês não o recebem os templos católicos! Nesse caso, por que não deverão ser incluídos, nas futuras antologias alemãs, os discursos de Himmler em louvor das mães das famílias numerosas? (Está muitissimo divertido). Uma civilização que entrega as almas de seus filhos nas mãos de uma Igreja em cujo passado existem os Senhores Inquisidores, chega a seu fim lógico quando vai buscar às nossas fogueiras humanas as tochas para as suas exéquias. Concorda com isto? Não, é claro. (Cospe e toma um "schnaps"). Um de nós é honesto... o outro crente. (Malévolo): Foi a sua Igreja a primeira a provar que se podia queimar os homens como carvão. Somente na Espanha, e sem fornos crematórios, vocês queimaram trezentas e cinquenta mil pessoas. E quase todos forma queimados vivos. Para isso é preciso a ajuda de Cristo.
Riccardo (indignado, em voz alta): Sei tão bem como o senhor quantas vezes a Igreja tem sido, e é, culpada. Senão, não estaria aqui. E não direi mais nada se fizer Deus responsável pelos crimes da sua Igreja. Deus não preside à história. Ele participa doq ue é finito. N'Ele se resumem todos os sofrimentos do homem.
Doutor (cortando-lhe a palavra): Sim sim, também já me ensinaram isso. O sofrimento d'Ele na terra acorrenta o princípio do mal. Mas, de que forma? Onde... onde é que eu fui jamais accorentado? Lutero era menos presunçoso: Não é o homem, e sim Deus, quem enforca, suplicia na roda, estrangula e faz a guerra... (Dá uma pequena palmada no ombro de Riccardo, rindo. Este retrocede)
. Acho graça na sua cólera. O senhor é um bom parceiro, percebi-o desde logo, Vai auxiliar-me no Laboratório, e todas as noites debateremos sobre esse produto da fraqueza nervosa que o snehor chama provisóriamente Deus, ou sobre qualquer outra trica filosófica.


(continua)


1 comentário:

António Rosa, José disse...

Caro Bartolomeu,

Já tinha lido ontem à noite e cheguei a pensar em comentar, mas o que iria sair era demasiado sem jeito e, de maneira alguma, pretendo retirar valor ao diálogo. Por isso, esperei pelo dia claro, pois talvez surgisse outra ideia. Infelizmente, não aconteceu.

Como no post diz 'continua', vou aguardar pelos próximos, pois pode ser que as coisas mudem.

Aquilo que me desassossegou no post anterior, pelo rigor do diálogo, nesta parte, o autor não se conteve e dissertou sobre aquilo que é habitual nos inúmeros conceitos sobre o assunto.

De qualquer forma, temos que contextualizar o texto, naquilo que era o pensamento na década de 60.

Quase meio século depois, somos forçados a pensar de outra maneira. As coisas e o mundo não são imutáveis. Pelo contrário, tudo se movimenta e tudo evolui. É-me muito difícil ler e situar-me na década de 60, pelo simples facto que vivemos no hoje e no agora.

A lista enumerada pelo Doutor, contra a Igreja e os padres, é demasiado curta em termos históricos e não serve para nada, pois haveria muito a dizer sobre o assunto. Até Riccardo o reconhece.

Não querermos admitir que a própria Igreja e os seus homens também evoluíram, tal e qual como o resto do mundo. A Igreja - mesmo a dos anos 60 -, aprendeu com os seus erros.

Portanto, invocar erros trágicos do passado (Inquisição e outros assuntos) e fazer comparações com acontecimentos dramáticos do século XX (o holocausto) com um larguíssimo intervalo de séculos, é conversa mundana.

Conversa mundana, não no sentido de coisa cor-de-rosa, mas no sentido do 'mundo'. Mundano, de mundo. O mundo dos homens e das suas fragilidades.

Quem é quem para apontar o dedo ao outro?

Um diálogo - repito, neste episódio do post -, sem fulgor. Apenas uma enorme listagem de julgamentos. Julgar, julgar e mais julgar. É o que o Homem sempre fez, mas em simultâneo tem sabido ter rasgos de genialidade e avançar. Veja-se a música que o Bartolomeu coloca neste seu excelente blogue. Basta esse exemplo, para percebermos como a humanidade tem sabido avançar.

São Tomás de Aquino pode ter feito tolices, e fez. Era um homem. Mas, em simultâneo, apresentou 'pensamento' evoluidíssimo. Não é em vão que é considerado um dos Doutores da Igreja. As suas Summae são obras notáveis que o Mundo ganhou. Quando as li, há muitos anos, sofri imenso com essa aprendizagem. Foi muito importante para mim.

O próprio Tomás de Aquino advogou duas razões para o homem: 'fé' e 'razão'. Infelizmente, o homem usa muito a razão e pouco, a fé.

O nazismo não apresentou nada que justificasse os seus actos. nem através da razão.

Sabe o que notei nesta parte do diálogo, de ambos os dialogantes? Falta de fé.

Muita conversa sobre a 'razão' sem o conteúdo da 'fé'.

Em ambos, apenas a 'crença'. É pouco.

Aguardo o resto do diálogo.

Em termos contemporâneos, o que importa não é o que a Igreja fez. Mas sim, o que ela pode fazer hoje em dia.

Bartolomeu, um bom fim-de-semana para si, desejando-lhe que afaste de si as tais vicissitudes que lhe provocam o incómodo da insónia.

Não sei porquê, mas estimo-o, como se o conhecesse pessoalmente.

Abraço amigo de alguém que se afastou da Igreja de Roma, mas não da fé em quem devo ter. Essa fé, é o meu maior tesouro.

António

P.S.: será que o blogger vai aceitar um comentário tão grande? veremos.

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