22 de junho de 2009

O VIGÁRIO


O VIGÁRIO


Rolf Hochhuth

5º Acto

Auschwitz ou a pergunta feita a Deus


Cena II

(Continuação)


Riccardo: O que pretende de mim, afinal?
Doutor: A minha oferta foi séria; senão sabe verdadeiramente o que o espera?

Entram em casa. O Doutor mexe numa caixa de "pronto-socorro" doméstica. Riccardo sobe as escadas e deixa-se cair na primeira cadeira que encontra.

Doutor (falando com duvidosa seriedade, enquanto lhe faz um curativo): Há pouco tempo, essas bestas tiveram a alegria de torturar durante dez dias um Padre Polaco, enfiando-o no porão da fome. Isso porque ele, tal como o senhor, também era voluntário e queria morrer no lugar de um detido que tinha família. No fim, chegaram a coroa-lo com uma coroa de arame farpado. Bem... teve o que queria, o que vocês todos querem: O martírio de Cristo. E mais tarde ou mais cedo, não nos restam dúvidas que Roma irá canoniza-lo. Foi uma morte muito peculiar - um bom martírio à moda antiga. Mas o senhor, meu caro amigo, será apenas gaseado. Pura e simplesmente gaseado, sem que nenhum outro homem, nem o Papa, nem Deus, venha jamais a saber. Na melhor das hipóteses, será dado como desaparecido, como um Cabo na frente do Volga ou um tripulante de um submarino no Atlântico. Se persistir nessa atitude, morrerá aqui... morrerá como um caracol esmagado pelo pneu de um automóvel, morrerá como os heróis de hoje, anónimos e aniquilados por forças que nem sequer conhecem, e muito menos ainda que poderiam combater. Por outras palavras, sem finalidade.
Riccardo (com desdém): Crê que Deus não assinala as vítimas senão quando são mortas com fausto e espectacularidade? As suas ideias não podem ser assim tão primitivas!
Doutor: Ah, ah! Então Deus assinala as vítimas! A sério? No fundo, todo o meu trabalho repousa nessa questão... É verdade, faço tudo o melhor que posso. Desde Julho de 1942, faz uns quinze meses, todos os dias úteis e santificados, envio homens a Deus. O senhor crê que ele já me mostrou o seu reconhecimento? Nem sequer me fulminou com um raio. Como explica isso? O senhor deve saber... Ultimamente, num só dia, foram nove mil pessoas.
Riccardo (gemendo contra a sua própria opinião): Não é verdade, não pode ser...
Doutor: Nove mil num dia. E criaturas tão encantadoras como a menina que o senhor trazia ao colo... mesmo assim, no espaço de uma hora estavam inconscientes ou mortas. Em qualquer um dos casos, prontas para o forno... As crianças mais pequenas muitas vezes vão para o forno desmaiadas, sobretudo as crianças de peito. É um fenómeno interessante. Por estranho que pareça, o gás nem sempre as mata.

Riccardo esconde a sua face nas mãos. Refeito precipita-se para a porta, mas o Doutor rindo puxa-o para trás.

Doutor: Ora, o senhor não pode viver fazendo sempre o bem! Pare de tremer assim. Palavra de honra que o manterei vivo... Que diabo de diferença pode ter para mim mandar uma peça a mais ou menos pela chaminé?
Riccardo (grita): Viver... para ser seu prisioneiro!
Doutor: Meu prisioneiro, não: meu sócio.
Riccardo: Pensa pois que abandonar um mundo onde o senhor e Auschwitz são possíveis, é mais difícil do que viver nele?
Doutor: O mártir prefere sempre morrer a raciocinar. Valéry tinha razão. Dizia ele: "O anjo - e talvez o senhor seja um anjo - (ri) "distingue-se de mim, do Diabo, somente pela reflexão, que ainda lhe é falha". Vou entrega-lo a essa faculdade que é o raciocínio da mesma forma como se lança um nadador no imenso oceano. Se a sotaina se mantiver à tona, então deixar-me-ei arrastar pelo senhor ao seio da Igreja de Cristo. (Ri alto). Quem sabe, quem sabe? Mas primeiro o senhor tem de se exercitar na celebrada tolerância dos agnósticos. Primeiro, o senhor tem de me observar aqui durante um ano, realizando a experiência mais audaciosa que o senhor jamais ousou empreender. Somente uma natureza teológica como eu... (dá um cauduço no pescoço de Riccardo)... ouve um tempo em que usei cabeção... somente uma natureza teológica como eu, se arriscaria a assumir o peso de tão grande culpa...
Riccardo (bate na fronte em desespero e grita): Mas porquê... porquê... Porquê faz isso?
Doutor: Eu queria uma resposta - uma resposta! E assim, arrisquei o que mais ninguém arriscou ainda desde que o mundo começou a girar... Jurei que havia de provocar o velho Deus tão desmedidamente, tão para além de todos os limites, que ele teria que dar uma resposta. Mesmo que fosse apenas negativa, que é a única capaz de desculpa-lo, no dizer de Sthendal: que Ele não existe.
Riccardo (sarcástico): Uma píada de consultório... que milhões de seres pagam com a vida. Então o senhor não é... sequer... um criminoso? É apenas um tolo, um idiota? Tão primitivo como Virchow, quando dizia ter dissecado dez mil cadáveres e neles não ter encontrado vestígios da alma...
Doutor (ferido): Alma! Não é isso um pouco primitivo? Não é uma leviandade monstruosa estar sempre a recorrer a tais figuras de retórica? (imita um sacerdote em oração): Credo quia absurdum est. Sempre o mesmo? (Sério): Escute a resposta: nem um suspiro veio do Céu, nem um único suspiro em quinze meses, desde que comecei a enviar turistas para essa Ascensão.
Riccardo (irónico): Tamanha selvageria... e só para conseguir o que qualquer mestre-escola inofensivo consegue com o menor preço, se este for bastante limitado para testa-lo: querer demonstrar o incompreensível...
Doutor: Então o senhor acha mais consolador que Deus em pessoa toste o homem na grelha da História? A História será a Teodicéia, acha realmente? (com uma risada de verdugo): O que é a História? Pó e altares, miséria e violações. E a glória é sempre o escárnio das suas vítimas. Na realidade, Auschwitz nega o Criador, a Criação e a Criatura. A vida como idéia está morta. Isso poderia ser o início de uma grande conversão, a redenção da dor. Depois dessa instituição, só restará um pecado: maldito seja quem cria a vida. Eu suprimo a vida, o que é a forma actual de ser humano, a única salvação para o futuro. Digo isto com inteira seriedade, mesmo no íntimo. Em bondosa piedade, eu próprio sepultei os meus filhos em preservativos.

Silêncio


(continua)


2 comentários:

António Rosa, José disse...

Bartolomeu,

Nunca vi representada esta peça. Também nunca a li, em nenhum idioma.

Até agora, e lido apenas aqui no seu blogue, provoca-me um enorme desassossego.

Lerei o resto, quando os colocar.

«Jurei que havia de provocar o velho Deus tão desmedidamente, tão para além de todos os limites, que ele teria que dar uma resposta.»

Não me parece conversa teológica.

Tem estado a escrever à mão? Se sim, é impressionante.

Abraço

António

Bartolomeu disse...

Caro Antonius

há já algum tempo que tenho vindo citar este assunto neste blog com os seguintes posts:

http://santossantinhos.blogspot.com/2008/12/horas-abenoadas-horas-de-terror.html

http://santossantinhos.blogspot.com/2009/06/ler.html

Faço aqui menção à resposta ao seu comment quando publiquei a primeira parte do 5º acto do Vigário, no qual me falou num outro livro que com este só têm de comum o assunto.

Reitero: não vou revelar nem antecipar o que aí vem. Reafirmo que todo este Acto me impressionou bastante. Por esta razão, e pelo "desassossego" que me fez verter lágrimas de aflição, decidi publica-lo. Não o vou fazer na íntegra, mas relatar apenas diálogo entre o Doutor e o Padre Riccardo Fontana.

Também não vou recorrer a imagens como na série anterior. Como disse, estas frases são tão ricas e têm tanta força que qualquer imagem arruinaria o seu efeito.

Sim, tenho feito a transcrição à mão a partir de um livro que adquiri na Feira da Ladra (há já algum tempo que o procurava, e foi uma surpresa o seu achamento).

Esta peça, apesar de actualmente permanecer convenientemente esquecida foi publicada e representada pela primeira vez em 1963.

Teve grande fama em todo o mundo, incluindo em Portugal, e, hoje permanece no processo de beatificação de Pio XII, como o principal inconveniente(também o primeiro) do seu desenrolar.

Curiosamente o Vaticano não a considera fonte fidedigna, rematando-a como um documento fictício romanesco. Porém, também lhe reconhece a inconveniência já referida, por ter exposto um Papa publicamente num assunto tão delicado.

Depois desta publicação, coincidente com o Concilio, o mundo nunca mais foi o mesmo para Pio XII, iniciando uma nova era (um dia publicarei o Acto de Pio XII).

Por isso, e na minha modestíssima e frágil opinião o "Papado" amoleceu após 1939, e é seguro que esteja a ser fortificado nessas boas convicções actualmente - se não for demasiado, veja também:

http://santossantinhos.blogspot.com/2009/02/somos-todos-espiritualmente-semitas-pio.html

Abraço


Bartolomeu

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