21 de junho de 2009

O VIGÁRIO


O VIGÁRIO

Rolf Hochhuth

5º Acto

Auschwitz ou a pergunta feita a Deus


Cena II


(Riccardo Fontana, padre Jesuíta - filho do conselheiro papal Conde Fontana -, enquanto adido do Núncio de Berlim presencia à denuncia por Gerstein - Tenente das SS Hitlerianas -, sobre as atrocidades feitas aos Judeus nos campos de concentração polacos. Regressado a Roma alerta a seu pai e a um Cardeal os factos que ouviu narrar, com ímpeto e paixão. O Cardeal aconselha prudência, e como o jovem não se retrata em obediência envia-o para Lisboa - o ostracismo. Em Outubro de 1943 os Judeus de Roma começam a ser enviados para os campo de concentração. Riccardo Fontana, regressado a Roma, encontra-se em conjunto com Gerstein, o Cardeal e o Abade Geral, onde sugerem um plano que obrigue a Pio XII, perante o seu silêncio sobre os Judeus, a denunciar os factos publicamente com o intuito de fazer recuar Hitler. Em audiência Papal, Fontana e o Cardeal informam da presença de Riccardo. Uma vez na presença do Papa, Riccardo impele a este que se apresse, mas Pio XII reitera a sua posição de silêncio e neutralidade - para si basta-lhe esconder os refugiados nos Conventos e Igrejas romanas. Riccardo, enfia-se então nos vagões das deportações e chega a Auschwitz).


Oficial: Sturmbannführer, uma informação!

Prende o cão às pernas do banco.

Fritsche: Tão de madrugada? Que houve?
Oficial: Uma grande surpresa na plataforma da estação externa, Sturmbannführer. O Papa mandou-nos pessoalmente um padre...
Fritshe: O Papa fez o quê?
Oficial: O Papa mandou um padre acompanhar os Judeus baptizados. Esses Judeus vêm de Roma, afinal! Vinha com eles como director espiritual, claro. E vai...
Fritshe: E vai o quê?
Oficial: E vai daí, algum idiota embarcou o homem em Roma como se fosse um desses porcos. Amontoado junto com eles, lá no vagão, de sotaina, claro... E não é judeu, é italiano... e além disso dizem que é amigo do Pacelli.
Fritsche: Maldito! Que merda!!



/.../




(Helga e o Doutor - médico do campo que dá ordem de execução -, são amantes apesar de esta estar noiva. Passam a vida em encontros furtivos. Cheia de ciúmes, por este ter usar de uma Judia como sua amante, protesta-lhe ameaçando não mais voltar num ciclo de amor-ódio paradoxal).

Helga: Olha! Olha lá no fundo! O Padre!
Doutor: (afastando-se /.../): Ora... Vai, vai dormir, Helga.
Helga: Não, escuta... Fritsche deu ordem para que o Padre - acho que deve ser esse - não entrasse no campo! Foi deportado por engano!
Doutor (voltando-se): Aqui é tudo igual para todos, todos são obrigados a entrar!
Helga: Parece que ele não é Judeu!
Doutor: Eu decido quem é Judeu - dizia Goering. Não te preocupes, já estou a par do assunto.


/.../



(Riccardo acompanhando uma família de Judeus)

Doutor: Tu aí! Vossa santidade! Ó de preto, vem cá um pouco. Vamos, vem cá!

/.../

Júlia: Não vá! Fique aqui, fique connosco!
Doutor (ameaçador, como se falasse a um cão): Vem cá, já disse!

Riccardo avança um pouco mais. Agora ele e o Doutor estão frente a frente /.../. Riccardo tem sangue na cabeça e no rosto. Foi espancado.


Doutor: Foste tu que fizeste esses bonitos arranhões?
Riccardo (maldoso): Os alemães mataram o pai dela com pancadas, porque acharam graça ao facto de ele usar óculos.
Doutor: Gente terrível, esses alemães. (Com pingalim, dá uma pequena pancada quase amistosa no peito de Riccardo) . Que é da tua estrela de David?
Riccardo: Tirei-a porque queria fugir...
Doutor: Ouvi dizer que não eras Judeu? E contaste ao pessoal na plataforma que o Papa te enviou para cuidar dos Judeus.
Riccardo: Disse isso apenas para escapar. Acreditaram e deixaram-me em liberdade. Mas eu sou judeu como os outros.
Doutor: Os meus respeitos! Aí está uma peça digna de um jesuíta! Mas, então... como é que voltaram a agarrar-te?
Riccardo: Ninguém me agarrou. Eu mesmo me enfiei novamente no meio dos outros.
Doutor (sarcástico): Olhem bem para isto, quanta nobreza! Estamos com falta de voluntários e padres. Pode ser que algum morra por aqui de vez em quando. O clima em Auschwitz tem dessas coisas. Mas é claro que tu não és judeu... (Riccardo cala-se. O Doutor senta-se num banco e contínua, com ironia profunda): Um mártir, será?... Mas, então, porque resolveste fugir?
Riccardo: O senhor não ficaria assustado se o trouxessem para aqui?
Doutor: Assustado? Porque razão? É um campo de internamento. E quando se está tão perto de Deus como tu!...
Riccardo (muito incisivo): Aqui queimam-se seres humanos... o cheiro de carne e cabelos queimados...
Doutor (agora trata-o por "senhor"): O senhor não sabe o que diz. O que vê são apenas fábricas de lubrificantes e crina de cavalo, medicamentos, azôto, borracha, granadas de mão... Aqui está a nascer uma nova Bacia do Ruhr. A IG Farben e a Buna têm aqui filiais, e a Krupp irá tê-las num futuros breve. Os ataques aéreos não nos alcançam e a mão-de-obra é barata.
Riccardo: Já vai para um ano que sei o que se passa aqui. Mas a minha imaginação não era superior. E hoje, de repente, não tive mais coragem... para continuar.
Doutor: A sério! O senhor já está ao corrente de tudo! Muito bem... Compreendo o seu desejo de ser crucificado, mas vou dar-me ao prazer de esvaziar a sua soberba em nome de Deus, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Tenho outros projectos para o senhor.

/.../

Riccardo (a voz rouca de horror): Seja breve.

/.../

Doutor: Vejo que o senhor está muito cansado. Sente-se...
Riccardo: O senhor é... é o Diabo!
Doutor: Diabo?... Fabuloso! Eu sou o Diabo, o senhor o capelão da minha casa. Façamos um trato: salve a minha alma. /.../



(continua)


6 comentários:

António Rosa, José disse...

Bartolomeu,

Bonito post que, aparentemente terá continuação.

«Salve a minha alma» (aguardemos, então).

Apesar deste livro - «Pie XII et la seconde guerre mondiale d’après les archives du Vatican» (Paris, Perrin, 1997) -, mantém-se a ideia do silêncio de Pio XII sobre a questão tratado no seu post.

Mesmo assim, o pedido de perdão veio muitos anos depois. Tempos difíceis para todos.

Abraço e bom domingo.

Pedro Antônio disse...

Olá, Bartolomeu!

Sempre leio seus posts e fico impressionado com a vastidão de conhecimento que publica e de enorme qualidade também!

Parabéns! Dá gosto voltar por aqui!

E muito obrigado por sua presença repleta de carinho!

Um abração!

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA

Bartolomeu disse...

Caro Antonius

não vou revelar o que aí vem, mas direi apenas que me impressionou bastante esta passagem. Por esta razão decidi publica-la.

É bastante longa e exaustiva, daí voltar aos episódios, mas desta vez sem imagens pois é sobretudo uma questão psicológica e não visual.

Abraços


Bartolomeu

Bartolomeu disse...

Ola Pedro Antonio,

sabes é um gosto recíproco. A tua forma de ser no teu blogue é fascinante sobretudo pela ambiência que crias em cada post na reunião de palavras e imagens.

Irradias tanta jovialidade de alma e boa energia, por isso volto sempre com muito prazer. Obrigado!

Longo abraço,


Bartolomeu

Pedro Antônio disse...

Mais uma vez, muito obrigado, Bartolomeu! Você é muito gentil!

Um abração!

Pedro Antônio

Bartolomeu disse...

Ola Pedro Antônio,

tu é que és gentil... de verdadeira e pura simpatia de coração.

Uma vez mais, muito obrigado. Fico feliz, por ter a tua amizade.

Abraço


Bartolomeu

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