17 de janeiro de 2009

"PARA UMA HISTÓRIA DOS SANTUÁRIOS PORTUGUESES"


"[...] Os ecos das aparições marianas em França (Rua do Bac, La Salette e Lourdes), as notícias das peregrinações massivas que lhes sucederam, contribuíram para o aumento do fascínio do culto da Virgem em Portugal e para o revigoramento dos seus principais santuários. Cada vez mais, a élite católica nacional rendia-se aos encantos do modelo cultual que vinha de Lourdes, onde se salientava uma espiritualidade penitencial e sacramental de revigoramento dos fiéis. As suas peregrinações distanciavam-se do desregramento e do predomínio de actividades profanas que caracterizavam as "festas-romaria" portuguesas.

As primeiras tentativas para implementar o novo modelo no santuário do Sameiro parecem ter decorrido em 1876. Segundo o relato de um jornal católico da época "alli não havia arraial nem a illuminação vistosa, nem tão pouco se ouvia o entoar dos morteiros, e o tanger das violas e dos tambores, que costumam annunciar as festas do nosso Minho ... mas, em troca, viam-se centos de pessoas acercando-se dos confessionarios e depois chegarem à mesa sancta da Comunhão cheias de fervor e respeito. Alli não se viram as dansas, nem se ouviram as cantigas ..., mas via-se uma devota peregrinação e ouviam-se canticos fervorosos dos piedosos peregrinos" (COUTINHO - Como nasceu, p. 318).

A dificuldade em manter este tipo de comportamento religioso, de forma perdurável, levou a que muitas vezes não fosse possível muito mais do que canalizar a imitação das novas peregrinações francesas para aspectos exteriores da estrutura dos santuários.

No santuário dos Remédios de Lamego armava-se uma gruta em cortiça representando a de Massabielle, com as figuras da pastorinha Bernardette e de Nossa Senhora de Lourdes. Na gruta da Penha (Guimarães), era inaugurada, em 1892, a imagem desta Senhora, passando o santuário a ter a sua invocação. A peregrinação do ano seguinte era protagonizada pelas várias associações e congregações religiosas da cidade vimaranense.

Outras vezes, o fascínio pelos santuários franceses conduzia ao aparecimento de novos locais de culto sob alguma das suas invocações. Em 1880, perto de Oliveira de Azeméis, no Monte dos Crastos, era inaugurada a capela de Nossa Senhora de La Salette e entronizada a sua imagem, facto que trouxe cerca de 15 a 20 mil devotos ao local. Note-se que a introdução do caminho de ferro em Portugal tinha permitido alargar o número de visitantes de alguns santuários. Em 1876, já era possível, por meio do comboio, visitar os centros de peregrinação nortenhos situados nas redondezas de Braga e do Porto. Em 1884, este meio de transporte tinha trazido a Braga 16800 passageiros durante as comemorações do 1º centenário do Bom Jesus do Monte.

O fulgor das peregrinações portuguesas do último quartel do século constituía uma forte reacção ao aparecimento, nas décadas de 1870-1880, dos partidos republicano e socialista, e à difusão dos seus ideais. Nos vinte anos que antecedem a instauração da República, ser partidário deste regime equivalia a lutar contra a monarquia e a Igreja e acender o rastilho anti-clerical ou mesmo, apontar baterias contra o catolicismo. Por isso, assistiu-se, neste período, ao reforço da ligação entre a monarquia constitucional e os principais santuários portugueses.

Esta ligação manifestou-se sobretudo de duas formas: através da protecção régia às suas confrarias, que assim se demarcavam daquelas que começavam a ser ocupadas por republicanos e mações, e ainda pelas constantes visitas da família real e entregas de importantes dádivas aos referidos centros de peregrinação. Estas eram geralmente compensadas pelos responsáveis dos santuários, através de um excelente acolhimento às principais figuras do regime. Entre as confrarias de protecção régia contavam-se a Senhora do Sameiro (1888), Senhora da Agonia de Viana do Castelo (1890), Senhora do Rosário do Barreiro (1890) e Senhora da Rocha (1898). Pela Real Casa de Nossa Senhora de Nazaré, que possuía um palácio preparado especialmente para o alojamento da realeza, passaram todos os monarcas portugueses depois de D. Maria II. A presença régia nas festas da Senhora da Nazaré e da Rocha, dos Círios do Cabo e da Arrábida, entre outras onde se deslocava a corte lisboeta, teve particular incidência nos anos em que cresceram de tom os ataques à Monarquia [...]".

(Excerto da comunicação apresentada no Colóquio Internacional "Piedade Popular. Sociabilidades. Representações. Espiritualidades", organizado pelo Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa).






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