14 de janeiro de 2009

GRITO SURDO NA OPERA!


Ir a São Carlos assistir a uma ópera já não é o mesmo.


Entusiasmo de uma época que já lá vai, iniciada em 1997, com um debute apoteótico numa das mais emblemáticas óperas – La Traviata. Assim começou a grande paixão, passada do ecrã para o compact disc, e agora do compact disc para as salas - presenciando orquestras, cantores e cenários num local tão deslumbrante.

Sentia-se um pequeno príncipe. Um deslumbrado. Um rapazola que concretizava um sonho – ver uma ópera! Sentia-se um primo da sua pacata urbe a arribar àquele local, tal era o fascínio, ignorando que a mãe na companhia dos R. C., que viviam no Chiado, já lá tinham estado tantas vezes, e antes dela outros mais – como a avó e o seu grande amigo conterrâneo, o Embaixador T. S.

O mundo girava nesse dia em seu redor. Até o grandioso lustre assim parecia... Na realidade e em realidade era un petit burgeois de olhos grandes e cheios de vida chegado de uma pequena vila, a poucas dezenas de quilómetros a norte da grande urbe, com uma educação mediana impregnada de misticismos religiosos, uma grande sede de conhecimento e uma grande vontade de expansão que o levaram até ali. Anos grassos de euforia, de alegria, de corridas aos bilhetes sucedidos de outros tantos anos, mas em menor numero, de correrias noutros espaços e alas em grande e ainda maior alegria. Tudo era um sonho! Anos transbordantes vilmente decepados.

Passados estes anos, ei-lo regressado à plateia da ópera. Tudo brilha de uma outra forma. É um brilho escuro : "È bruno"! É a cor etária e experimentada que já não transparecem o tal junior fulgor. Os olhos cabisbaixos transbordam de dor e tristeza!

Cada acorde é sentido nas vísceras. Cada som vocal um pulsar exaltado do coração. Segundos de existência convertidos em horas. Horas em eternidades... Tudo hoje, mais que nunca, é ouvido, é visto e é sentido como se o mundo fosse acabar de seguida. A vivência é outra e os olhos de hoje transbordam a saudade da vontade privada.


Grito exasperante de dor lancinante!




1 comentário:

Zé Miguel disse...

Olá...
Do que leio, sinto alguma tristeza "nessa personagem" facilmente identificada!
Que se passa com o entusiasmo de outrora? Que se passa com a vontade de superar tudo e todos? "Essa personagem" tem novamente de renascer e tornar-se capaz de glórias antes atingidas!
Para terminar, espero que a "imagem/quadro de Edward Munch" represente um grito de dor, seguido de grito de vitória!

Seguir em frente também é sinónimo de GRITO - FORÇA!!!!

Abraços

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