4 de janeiro de 2009

ALEGREM-SE OS CÉUS E A TERRA





ALEGREM-SE OS CÉUS E A TERRA


Alegrem-se os céus e a terra,

Cantemos com alegria,

Já nasceu o Deus menino,

Filho da Virgem Maria.


Ó meu menino Querido

Ó meu lindo amor perfeito!

Tendes frio, ó vinde,

Chorai aqui no meu peito. (refrão)


Entrai pastores, entrai

Por esse portal sagrado,

Vinde adorar o menino

Numas palhinhas deitado. (refrão)


Só tenho para ofertar-Vos

Uma alma que vos quer bem:

Prenda melhor não a tenho,

Tomai-a, meu doce Bem! (refrão)


(do livro CANTEMOS TODOS)


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Entrai pastores entrai

Por estes portais sagrados

Vinde adorar o menino

Numas palhinhas deitado. (refrão)


Ó meu menino Jesus

Delícia do coração

Só por vós se pode estar

Toda a noite em oração. (refrão)


Ó meu menino Jesus

Convosco é que eu estou bem

Nada deste mundo eu quero

Nada me parece bem. (refrão)


Ó meu menino Jesus

Descalcinho pelo chão

Metei os Vossos pezinhos

Dentro do meu coração. (refrão)


Entrai pastores entrai

Por esses portais a dentro

Vinde adorar o menino

No seu lindo nascimento. (refrão)


Os filhos de gente rica

Dormem em berços dourados

Só o menino Jesus

Numas palhinhas deitado. (refrão)


Apanhar florinhas no campo

Colhendo prendas de amor

Vinde trazer ao bendito

Ao divino Redentor. (refrão)


O menino está deitado

Nas palhinhas sobre a cama

Os Anjos lhe estão cantando

Ditoso de quem o ama. (refrão)


A noite é escura e cerrada

Só brilham astros nos céus

Vinde adorar o menino

O Redentor que nasceu. (refrão)


Da vara nasceu a vara,

Da vara nasceu a flor,

Da flor nasceu Maria

De Maria o Redentor. (refrão)


Adeus noite de Natal

Noite de tanta alegria

Foi a noite em que nasceu

Filho da Virgem Maria. (refrão)


(versos populares manuscritos recolhidos em V.P.)



Segundo a tradição local, este é o cântico da adoração do Menino realizado após a missa do dia de Natal. A tradição é já antiga. As mulheres iniciavam este canto com verdadeiro fervor e marcado peso. Os homens pouco participavam na parte musical, limitavam-se a seguir na fila para beijar o Menino, sussurrando entre dentes este cântico de natal.


Na altura o Sr. Vigário, o prior local, colocava-se no centro da Igreja de costas para o altar, mesmo por debaixo do fecho da abobada rosada da ordem de Cristo. Com o Menino nos braços oferecia-o para o beija-mão, beija-pé ou beija-face – consoante os gostos – aprontando-se logo a limpar, com lenço alvo, ladeado por duas crianças com pequenas cestas de vimes ofertoriais, que recebiam a esmola consequente do doce e terno beijo – quase em simultâneo a boca beijava e a mão dava!


....................................


Secular tradição, a qual a avó repetia anualmente, retirava o Menino dos braços da formosa Nossa Senhora da Graça. Em seu lugar era colocado uma flor. Poucos dias antes do Natal era a ida à Igreja. Combinada a hora com as "ajudantas" de açafatas - prima D..., a prima E... e a prima D... - sendo que a avó era sem duvida a única e a mor açafata de N. Sr. da Graça - lá iam tirar o Menino. Bartolomeu assim que se apercebia, seguia a avó para ver os tais mistérios que o cativavam.


Uma vez na Igreja, sentavam-se todos nos grandes bancos sem ordem de sair – pois muitas vezes também iam os primos. Estes mais alheios a tudo, desistiam a meio. Não nos era permitido mais do que assistir. A avó com mil vénias trocava o vestido a N. Sr. da Graça com ajuda da prima D…, a costureira – pois a Senhora trocava de vestido 2 vezes ao ano; e a prima D…, a que ainda estava por casar, e a mais nova das açafatas, era quem vestia o Menino.


Bartolomeu com a desculpa para se levantar, começava a fazer o seu rol habitual de perguntas. Assim corria todas as primas açafatas e a avó, que com dedicada paciência iam muitas vezes inventando respostas para justificar o espírito curioso da pequena criança:


“Ó ‘vó a Nossa Senhora já teve pézinhos?”

– dizia olhando para debaixo das combinações, procurando-os.


Menino Jesus de V.P.


O despir e vestir do Menino era ritualmente feito com mil adorações e beijos - entre os rituais e os furtivos. Logo que avó retirava o menino dos braços da Senhora beijava-o, depois, de mão em mão era beijado por todas as açafatas. Aí, a avó chamava Bartolomeu e dava-o a beijar, tal como aos primos. Acolhido pela primeira açafata, era beijado por esta como pedido de licença para se lhe tirar a roupa. Uma vez nu, era beijado por esta, em sinal de ter terminado a sua parte e dado à segunda açafata (caso existisse) que o beijava na recepção. Uma vez vestido era beijado por esta em sinal de conclusão.


Neste tempo, a mana começou a ser iniciada nestes ritos, e o menino Jesus de V.P. passou a ter 2 açafatas, sempre ajudadas e vigiadas pelas primas açafatas mais velhas. Obviamente que se geravam umas pequenas indisposições disfarçadas com sorrisos dissimulados e íntimos conselhos sobre conselhos, para conquistar o favor e preteriemnto. A razão de tal era porque a avó queria transmitir o seu cargo à mana e à mãe, a descendente e a esposa do seu varão mais velho, tal e qual como lhe tinha sido incumbido por sua mãe e as suas predecessoras. As primas açafatas ambicionavam o mesmo. A avó sempre alheada em redor da sua Senhora, sentindo algum burburinho que fosse, em poucas palavras sempre autoritárias e inquestionáveis, intervia apenas para colocar a ordem:


“É a R… que veste o menino!”


E elas obedeciam, não fosse a avó a avó!


Bartolomeu presenciando tudo, mostrava-se impaciente e ansioso. Também ele desejava participar:


"Ó 'vó, posso tirar a combinação do menino?"


Avó respondia logo:


“Isto são coisas de mulheres!”


Bartolomeu não desistia. Intentando fazer algo, insistia. Até que a avó dizia:


“Bartolomeu, vai à sacristia buscar o berço!”


E todos os anos era assim! Bartolomeu seguia contente, porém não satisfeito, porém realizado. As primas açafatas mais velhas, mal aparecia Bartolomeu com o berço, tiravam-no da mão e começavam a fazer-Lhe a caminha. No seu intimo, gostaria de fazer o que as açafatas faziam - despir o Menino até à nudez e tornar a vesti-lo. Afinal o menino era um menino como ele - e não guardava boas recordações de ser despido quer no Jardim de Infância ou na praia por olhares femininos indiscretos e flamejados de risotas. Se Nossa Senhora era coisa de mulheres, o Menino havia ser assunto de homens. Cada um com os seus! Porém, sabia que não podia nem tinha lugar na hierarquia das açafatas e que aquilo seria eternamente um mundo de mulheres - para a Senhora a avó, para o Menino: havia a açafata que despia e a açafata que vestia era a mana, e as primas açafatas auxiliavam tudo: recolhiam, davam e arrumavam as roupas, assim como tratavam da cama.


Uma vez vestido, era permitido a Bartolomeu de segurar no Menino, mas só por uns instantes. Olhando-o enchia-se de ternura. Beijando-o assaltava-se de verdadeiro amor de irmão o apertava-o nos braços, amarrotando as vestes tão cuidadosamente passadas a ferro pela avó, para o proteger das açafatas que só o queriam para elas. Ao gesto da avó o Menino saí-lhe dos braços e ia para o berço, entre os mil cuidados e mil beijos das despeitosas primas açafatas. Uma vez deposto no berço a avó vinha verificar tudo e por tudo a seu gosto. Por fim cobrindo o Menino e o berço com grande véu encerrava este ritual.


O Sr. Vigário não era muito amigo deste menino Jesus. Durante 30 anos fez adorar e beijar um Menino "estrangeiro", enquanto este, o verdadeiro Menino, permanecia no esplendoroso berço prateado e acolchoado de formosas rendas e preciosos e ricos tecidos. Apesar disso nunca deixou de ser adorado. Não sendo apresentado para adoração era beijado no seu berço em todos os dias do natal, com ternos e repetidos beijos " de velha" e com doces esmolas – desta, colocadas por debaixo do rico bercinho.


Quando o Sr. Vigário faleceu, o novo Padre sempre em posses majestáticas de Pio XII, recuperou a antiga tradição de se beijar o verdadeiro Menino devolvendo-o ao seu povo.


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Mas voltando ao cântico: cantado por intuição e de memória, as estrofes eram conduzidas por uma líder natural pela qual toda a assembleia seguia o canto. Por vezes, o canto faccionava-se. Havia confusão e embrulhada no início de novas estrofes. As facções davam-se porque haviam entre a assembleia outras mulheres, com espírito de liderança. Estas eram as cantadeiras oficiais. Mulheres que tinham naturalmente boas vozes – vozes naturalmente colocadas - e quer nas Missas como nos Ranchos de mulheres que labutavam nos mais diversos trabalhos do campo eram elas o grande motor e promotor musical vocal. Portanto vozes de fibra e sadias. Aos grupos, eram nos campos que iniciavam a lembrança das melodias e das sagradas letras do Natal, ensaiando-os por vinhas, vales e charnecas. Aquelas que não trabalhavam no campo tinham por sua vez vozes delicadas, finas, agudas, desafinadas e com pouca força soando sempre num canto débil, submetido às cantadeiras dos ranchos.


Com o aparecimento do hinário CANTEMOS TODOS e de um grupo coral organizado de jovens senhoras, da segunda linhagem, livres destas convenções seculares, estas passaram a determinar as escolhas musicais e a criar uma melhor organização. A praxis então modernizou-se em função de um gosto musical moderno, pós-concilio, mais adequado à doutrina do que à devoção.


Assim este canto cumprindo a tradição floreada da inspiração popular, conforme a crença popular como reflexo do quotidiano rural, passou a iniciar-se segundo as estrofes do tal compêndio cantadas exemplarmente pelas senhoras. Uma vez concluídas, seguem-se estas nas quais as vozes das mulheres de mãos postas em oração e olhos brilhando mais que as velas, ainda bradam em fé entre verdadeira exaltação, louvor e lágrimas.



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