30 de dezembro de 2009

NATAL DE 2009, EM RESUMO DAS CALAMIDADES

.
Ainda em convalescença das agruras do mau tempo,
pois a memória é sempre mais longa quando os assuntos são desagradáveis, no tornado da semana passada, a quem num quase um bem sucedido eufemismo chamaram de mini-tornado, que na realidade consistiu em neuróticos momentos de pânico, terror e mau-estar para todos aqueles que passaram pelas horas de inquietude, vendo o mundo envolvente desabar e transformar-se de calmo e harmonioso num espaço caótico, triste e sem bem-estar.

Comparativamente aos Estados-Unidos e a alguns países da América-do-Sul, habituados a estes rigores com efeitos devastadores largos e inimagináveis à nossa imaginação, embora condicionada e elucidada pelas imagens que os media transmitam.
Obviamente que assim, o que aqui se passou, o tal vento, como manifestação maior da natureza enfurecida, teria as feições de um mini-tornado. Mas não há comparação possível. É verdade que vivemos a aldeia global, mas dada a sua vastidão há comparações impossíveis e ilógicas. Não se pode nunca, em qualquer caso que seja, tomar a parte pelo todo, da mesma forma que numa estatística a primeira casa de uma rua, quarteirão ou bairro não caracteriza o todo dessa vasta amostra, ainda que seja um todo muito peculiar, dada a pluralidade de situações, indivíduos, famílias e grupos. Portanto não se pode comparar apesar de o actual sistema ser o da politica dos números, da indiferenciação e de outros propósitos universalistas e nada particulares, como mais adiante darei a entender ao meu estimado leitor. Assim, proceder desta forma é zombar da população, ou como numa evolução retrograda hoje se diz, do povo, ignorante e desprotegido de uma tal ocorrência, manipulada agora no que chamaram de mini-tornado.

É verdade que vivemos no país das minis, e que estas são um bem de consumo no dia-a-dia de muitos portugueses,
helás!... Mini, caros Senhores-que-nem-o-espanta-espíritos-em-tal-noite-se-agitou-e-assim-dormiram-profundamente-tomando-conta-do-assunto-no-dia-seguinte, foi o terremoto da semana anterior, que comparativamente com o de 1755 e o de Benavente/Salvaterra, que há rigorosamente 100 anos incomodou vivos e mortos exumando cadavares que por todo o lado atingiram a superfície em êxodo, num abandono involuntário dos seus perpétuos lugares - tal como conta o pai, em testemunho do que a sua avó presenciara ao reencontrar uns quantos antepassados seus, putrefactos ou despidos de carnes, ressurgidos à luz solar. São realmente tétricos e bizarros tais acontecimentos quando comparados a outros de maior amplitude que a nossa vivência pessoal ou colectiva tem registados. São casos ímpares, muitas vezes espaçados entre si, numa falaciosa convenção, em cerca de 50 anos (2009, 1969, 1909, 1859, 1755, 1597/98, 1531, 1355/56, 1337,...), pelo que a presente tabela tão bem demonstra com o rigor cientifico de então, num relato que vai do ano 500 D.C. a 1909.

Nós não temos em matéria de tornados um tal histórico, tal como nos Estados-Unidos e no Brasil, sendo que neste ultimo país entre 1985 e 2009, registaram-se quase 50, o mesmo número que em Portugal entre 1936 e 2008, sendo que o de maior amplitude entre nós, à escala geral, foi em 1954, que por todo o lado ficou conhecido por ciclone, o que em matéria de escala de vida, em termos de grandes tornados, dá 1,5 tornados globais por existência individualizada.

O tornado ou o vendaval, vento forte, ou mini-tornado como poetas, políticos e makers media gostaram de suavizar, caros senhores, e caro leitor, para todos os casos ainda não teve fim por estas bandas. Tornado pois, e será teima minha o querer na verdadeira acessão da palavra e da sua força, quanto mais para me fazer a vontade já que ainda na vida não tinha passado por tal experiência.

As consequências ainda se fazem sentir, sendo que as mais gravosas já se redimiram novamente em bens úteis e essenciais. Durante quatro longos dias a luz esteve ausente; os multibancos e as redes móveis não funcionaram. Posto isto, questiona-se a arrogância massiva de alguns destes serviços quando se recusam com pseudo-assertividade em dar resolução aos problemas expostos num atendimento ao cliente e com desconfiança avança-se neste momento para tempos de discutível credibilidade face a infalibilidade dos mesmos. E enquanto que as redes móveis se mostraram mais resolvidas, apesar da demora, a EDP, como empresa única ou maioritária no fornecimento de energias em Portugal, mostrou-se incapacitada de colocar termo ao caos tornando o Natal num acontecimento escuro, frio e triste como não havia memória em Portugal - dado que a electricidade retirou das casas portuguesas a necessidade de uma grande lareira, hoje objecto de luxo, fonte de energia artificial motriz de uma casa, capaz de responder a todas as necessidades. Obviamente que mil soluções poderiam ser apontadas como objectos de substituição, mas quem disse que os portugueses estavam preparados para tal? Logo o povo que tem o poder do desenrasque, que europeizado por um comportamento de ciosa tecnologia de ponta, falível numa temporada como as lindas e nervosas lâmpadas de árvore-de-natal num mês de escravizado trabalho, nos deixou atónitos face a incapacidade de respostas.

Com: "temos 5000 homens no terreno", justificou-se a operante inoperância dos serviços. Luz de velas, pilhas e petromax, foi a companhia e fonte de calor nestes dias em que as noites pareceram mais escuras que nunca, e todos os coutos e velas decorativas que jamais se pensariam em arder, serviram ao efeito. Retorquindo, foram dias desconfortáveis em que os sorrisos esboçados foram contidos. Como disse o pai,
que desde que há luz foi o primeiro natal sem electricidade, ou como dizia em declarações a um jornal um idoso septuagenário de feições modestas, rudes e rurais habituado a viver sem luxos na sobrevivência da azafama diária: o natal mais triste da sua vida.

E porque razão hoje, neste dia 30 de Dezembro, 7 dias após o tornado, e quase 14 depois do terremoto - só para lembrar o índice de calamidades naturais, que na presente semana a chuva parece concretizar como terceira força natural ameaçando com cheias, os terrenos visivelmente já saturados das águas -, a EDP ainda não resolveu toda a problemática do tal ridicularizado mini-tornado. Sem saber a que ponto já foi resolvida por eles a situação, levantando-me e indo à janela do meu escritório constato que tudo funciona bem nos diversos lares que dela alcanço assim como os semáforos do topo da rua. Porém, verifico que a rua permanece escura e a esta hora só iluminada por parcos metros pelo laranja da intermitente do semáforo, que daqui se assemelha a um farol num promontório numa noite de breu, assinalando ao perigo onde há vida. Pois é, não há luz nas ruas ou em algumas ruas. Mas lá está, algumas... e estas algumas, convertidas em alguns, em matéria de números, como há pouco adverti ao leitor, são a nota positiva num suficiente menos para num relatório Socrático fazer passar como operação de sucesso a mediocridade de um serviço - isto já para não falar do novo sistema de fases imposto pela REN (a tal que se diz de confiança), que deixa num caso de paralisação meia casa sem luz, ou meio prédio ou um quarteirão e meia casa (como é aqui o caso). A este pormenor eléctrico, soma-se a ausência de estabilizadores nos electrodomésticos recentes, permitindo que muitos se degradassem ou estragassem naquele que chegou a ser um vai e vem constante de energia, sempre e cada vez mais enfraquecido. Em suma, tiram-nos os direitos e vão-nos à bolsa!

É a vida, não há nada a fazer, dizem os conformados!
Em bom português, e bem assertivo, são mas é os tomates do padre Inácio! Que belo é o estado da nação que vai acolher o TGV! Já agora, por quantos dias ficará parado este precioso comboio no próximo tornado, se lá na France, quando este tem problemas pára horas e desloca-se à velocidade de um comboio regional? Aposto que dívidas!

Já vai longa a dissertação. Sumariando, facilmente se aceitaria então um mini qualquer coisa, se, pelo contrário do que se observa, tudo se tivesse sido resolvido em horas. Assim teimo, e porque sou casmurro, "e porque eu quero!!!", e já com comprovada razão, admoestando o opositor: foi tornado e acabou-se.



28 de dezembro de 2009

A TOI!



.
.

24 de dezembro de 2009

UM CÂNTICO PARA A NOITE DE NATAL



.
.

FELIZ NATAL




A todos quanto nos seguem, lêem, visitam e comentam:

Um Santo e Feliz Natal
cheio esperança, paz e harmonia.


Grande abraço.


Sempre Vosso, com respeito e admiração



Bartolomeu
.
.

SERÁ CHUVA, SERÁ VENTO... FUI VER E ERA UM TORNADO!




Inerte e sem reacção! Impávido e incrédulo vi os elementos alterarem-se assistindo da janela do meu scriptorium ao poderoso tornado que no cruzamento da rua da minha casa achou eixo e rodopiou como um pião. Do telhado, senti serem arrancadas telhas que pelo sótão se arrojaram o tecto com agudo som; na rua, senti portões caírem e ouvi vidros estilhaçarem-se; vi o enorme e frondoso eucalipto, aqui da frente, com um tronco da grossura de 5 homens adultos, vergar-se como um condenado oprimido perante o seu carrasco; vi os cabos eléctricos aéreos, que cruzam a rua, chicoteando-se uns nos outros riscando faíscas no negro escuro da noite sem luz; vi com horrendo sentir, a natureza acordar e rir-se da fragilidade humana sobrepondo-se autocraticamente sem assertividade nenhuma; não ouvi, como outrora, mulheres gritando que o mundo vai acabar suplicando a intercessão divina através de rezas e rezinhas... já morreram todas! Porém, ouvi uma voz dizer, comentando:

"Será o que Deus quiser,
e sobre isto nada podemos fazer"


(Deus uma vez mais... que quer Ele desta vez? Não saberá Ele que é Natal e por cá queremos, pelo menos nestes dias no ano, harmonia e paz? Quer assim estragar-nos o Natal. Sim, o Natal, a festa do nascimento do seu filhinho, o "Deus menino", aquele que pode ser sinónimo de pandemia. E sobre este aspecto não me quero debruçar mais. A ser Ele o responsável disto tudo, não merecerá mais do que a indiferença a este seu capricho de criança mimada, só para apoquentar e desassossegar o pobre homem que até numa distinta lição de catequese aprendeu a ser tolerante e nunca vingativo...).

Engane-se então o caro leitor, se acha que isto foi um belo espectáculo. Sopro ou não de um Deus aborrecido, o temporal e ontem não foi um belo espectáculo de se ver e de se sentir, foi antes um tempus horribilis que durante uma hora petrificou e enervou quem o presenciou, da mesma forma de quem há uma semana atrás se assustou e assim sentiu com o abalo de terra. É caso para pensar:

"- O que teremos na próxima semana?"


Por agora, melhor espectáculo não houve hoje como assistir à fiabilidade do mundo moderno e tecnológico e suas promessas. Falta de luz, multibancos, redes telefónicas e Internet... vem um vento, e ficamos sem eira nem beira, e como a Alice no belo país das maravilhas, ou aquele que fica por detrás do espelho, mingamos perante tal provação da tirania dessas rainhas de Copas ou de Espadas. Bullshits!... ou em bom português, os tomates do padre Inácio!

Jantar à luz de velas e serão com a Rádio a tocar e assim se recuou no tempo,como disse o pai...

Por agora, como a força da energia que aqui chega é fraca e não tem potência de fazer vibrar um aquecedor, com os pés gelados vou aquece-los no quente da minha cama esperando um noite sossegada sem mais admoestas bizarrias.



23 de dezembro de 2009

POR ENTRE DESCAMPADOS E SOBREIROS EM TELHADOS DO TEMPO DE SÃO MANÇOS




E assim foi o dia de hoje, por entre chuva caída de amiúde percorrendo estradas da vasta planície partilhando este olhar sobre um segundo que captamos.


17 de dezembro de 2009

ADENDA

.
Em breve o regresso para mais deambulações e afins...
até lá a vaguear por aí!
.
.

15 de dezembro de 2009

ÉS LINDA... CRISTINA AREIAS


Passou os 40 anos... já lá esteve em casa (hehehehe)... e apesar do Camilo não ter gostado ela foi à avante...
.
.
Brava, Cristina... não envergonhas ninguém!
.
A Maitê Proença também pousou depois dos 40 e é certo que veio a Portugal retribuir com a famosa cuspidela outras de tantos admiradores e fãs portugueses nas suas sessões noctívagas extra novelas. Afinal, ela estava no seu pleno direito!
.
Ó Cristina! Outra coisa... Só vales 15.000 €????... tantos sorrisos, fama e anos de carreira e com esses magníficos atributos só vales mesmo isso...
.
A Maitê valia mais, ora! Pois a Maitê é internacional... será que a Maitê também cuspiu nas fontes famosas de outros países ou será que ela só será mesmo conhecida no Brasil e em Portugal?

Ainda por cuspidelas... terá a nossa Maitê inspirado alguma das personagens do Equador?
.

Cristina, és linda!

(Agora vê se reaves o dinheiro que te devem das fotos)
.
.

5 de dezembro de 2009

SUSPIRO...



.
.

BOM DIA!


E assim se cavalga num novo dia!


.
.

4 de dezembro de 2009

NO DIA DE HOJE





Segundo a tradição familiar as decorações natalícias só se realizavam na semana anterior ao natal. Capitulada pela generalização dos novos tempos, fixou-se a 8 de Dezembro, no dia da Srª da Conceição, em que a disponibilidade da tarde desse dia era para essa realização - data que hoje se vê antecipada pela entrada do mês.

Aqui no blogue, impossibilitado de uma temporal tradição secular, aconteceu hoje darmos azo ao zelo natalício inaugurando a nossa ecológica árvore-de natal resumida a uma folha de papel - não reciclado - e a canetas de feltro com tampas ventiladoras, não vá eu engolir alguma.


3 de dezembro de 2009

BOM DIA!


E assim começa o dia de hoje...


.
.

2 de dezembro de 2009

AINDA POR RESTAURAÇÃO





Viva a Restauração... dos bigodes!


1 de dezembro de 2009

BARTOLOMEU DIXIT:


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."


O fim do Eu para um Alter-Ego de si mesmo
e
A perca de um bem comum pela homogenia generalizada!

.
.

UN PEU DE MUSIQUE:


Em dia da restauração de Independência Portuguesa nada como um pouco de música erudita da época, pelo punho de Frei Manuel Cardoso, que foi amigo pessoal de D. João II de Bragança, vulgo D. João IV, e músico da sua Casa - compositor da Capela Ducal e mestre do Colégio dos Santos Reis Magos de Vila Viçosa.




Gloria in excelsis Deo
Et in terra pax homínibus bonae voluntatis.

Laudamus te, benedicimus te,
Adoramus te, glorificamus te,

Gratias agimus tibi
Propter magnam gloriam tuam,

Domine Deus, Rex caelestis,
Deus Pater omnípotens.

Domine Fili unigenite, Jesu Christe.
Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris.

Qui tollis peccata mundi,
Miserere nobis.
qui tollis peccata mundi,
suscipe deprecationem nostram.

Qui sedes ad dexteram Patris,
miserere nobis.

Quoniam tu solus Sanctus,
tu solus Dominus,
tu solus Altíssimus, Jesu Christe.

Cum Sancto Spíritu
in gloria Dei Patris.

Amen.

.
.

O HINO DA RESTAURAÇÃO - A VERDADEIRA HISTÓRIA



Música:
Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida
(1826 - 1898)


Poema:
Francisco Duarte de Almeida Araújo
Francisco Joaquim da Costa Braga





Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Ás armas, ás armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.


Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
"Sempre, sempre te amarei"
O povo diz a Bragança
"Sempre fiel te serei"

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta c´roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.

Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemispherios
Tem mil povos dominado!

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Ás armas, ás armas
etc, etc...


Esta música foi composta em 1861 sobre uma peça-teatral escrita para a ocasião, intitulada de comédia-drama com o nome 1640 ou A RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA, para ser apresentada no Teatro da Rua dos Condes (antigo Cinema Condes, hoje Hard Rock Café).

Dedicada ao Rei D. Pedro V, foi estreada no dia 29 de Outubro desse mesmo ano, no dia do aniversário natalício de sua majestade o Rei-Viúvo D. Fernando II
- malgrado este acontecimento cultural, esta peça/libreto seria publicada a de 28 de Novembro, escassas semanas após a morte prematura do então rei de Portugal (pelo que se seguiu nova regência do Sr. D. Fernando até à coroação do novo soberano, no mês seguinte).


Frontispício do Libreto
(3ª peça dramática, pág. 84)


Na trama desta opereta, para melhor denominar o género musical em questão, dado que todo o texto não seria segundo a forma musicado, o trecho correspondente ao hino é o momento que encerra esta peça musical.

Seguindo a estrutura do arquétipo francês de ópera-comique,
que não significa a tradução literal de ópera cómica (assuntos burlescos e engraçados com o intuito de fazerem rir), mas sim de obra musical intercalada com diálogos falados, geralmente com a divisão da práxis em 4 actos - ainda que ulterior a esta data, tome-se a título de exemplo a famosa Carmen de Bizet, apesar de posteriormente terem sido musicados os seus diálogos, ou as operetas de Offenbach, como La Grand-Duchesse de Gerolstein -, o enredo cruza cenas e hábitos da vida popular com factos históricos romantizados, com deixas bem ao estilo de Garret, resultando numa comédia de costumes na qual se enaltece permanentemente a Casa de Bragança e o seu paternalismo, como elemento soberano de ligação entre as várias classes, e assim, em espelho entre o palcoscenico e o palco reale, o regime e família real reinante ao ano de 1861. Um golpe de propaganda política para impressionar as massa com um texto ambíguo cheio de advertências e duplos sentidos evocando sempre a supremacia do estado monárquico, perante o adivinhado advento republicano.

A cena final, a coroação de D. João de Bragança como rei de Portugal, é recriada seguindo os protocolos, juramentos, vivas tal como o descrevem os escritos e gravuras da época, conforme se crê nos quadros que se encontram no Palácio Nacional da Ajuda. Entre cada par de estrofes seguem-se em cenas faladas, para melhor fazer chegar a mensagem ao público, discursos e honras ante a dramatização de uma majestosa cena triunfal, simples mas digna de uma ópera de Verdi, com solistas e coros cantado e bradando vivas em crescente clímax, incendiando o público do teatro de fervoroso e enaltecido sentimento patriótico, dando vida e calor às tais espectaculares e garridas recriações que constituíram a única coroação em cerimónia pública de um soberano português perante o entusiasmo do povo na sua aclamação - curiosamente também a última da história de Portugal.



Pintura da Sala D. João IV, do Palácio Nacional da Ajuda
sobre a qual foi reproduzida a cena tal e qual

Sendo música de carácter marcial, apropriada por isso ao registo das bandas militares e filarmónicas, foi adaptada pela então recém-criada Sociedade Histórica da Independência de Portugal de Alexandre Herculano, como hino /marcha oficial das comemorações das festas da Restauração, para a execução em conjunto com o hino nacional vigente, na inauguração do monumento que esta sociedade fez erguer em 1886 no espaço de permeio entre o Rossio e a Avenida da Liberdade que se passou a designar de Praça dos Restauradores.


A partir de então e por imitação a estas celebrações, que se passaram a assinalar anualmente por todo o país, como festa regimental civil, a divulgação desta peça musical em situações protocolares ou em arruadas tornou-a num dos mais estimados hinos populares portugueses (tal como tinha acontecido com Hino do Minho, vulgo Maria da Fonte, do maestro Frondoni - criado em circunstâncias semelhantes, e adaptado na altura dos motins).

Durante o Estado-Novo, na sequência de alguns procedimentos herdados da 1ª República no remate drástico ou na transformação escamoteada de acontecimentos, instituições ou edifícios públicos, religiosos e civis como de formas e agentes culturais populares e eruditos associados ao anterior regime, quando na criação da Mocidade-Portuguesa este hino viu-se adoptado por este ideário como um dos seus hinos/cânticos. Com a antiga letra convenientemente alterada perdeu-se subtilmente daí em diante o carácter e a memória da intenção dos versos originais, tal como após 1910 fora o caso da alteração da festa da Restauração por festa da Bandeira Nacional (processo que entretanto revertera na compressão inicial), já que esta era uma celebração de tal forma enraizada e incontornável para os populares, sobretudo quando a mesma estimulava a criação no imagético português o mito do super-histórico Lusitano a pontapetar o Castelhano na alusão do pequeno mas valente e vencedor - tal como nos anos oitenta do século anterior ainda se arreigava às crianças nas lições académicas de história.

Uma vez achadas estas conclusões, torna-se agora fácil repor a verdade sobre este assunto. No ano anterior, quando publiquei pela primeira vez este texto, agora modificado, publiquei também uma partitura do hino
que habilmente tentei restaurar, a partir da construção Salazarista, uma vez que nem no arquivo musical da Biblioteca Nacional se encontrava localizado único exemplar fidedigno do original. Como seria possível, uma vez que este hino permanece tão popular como A Maria da Fonte ou A Portuguesa, e até mesmo o esquecido Hino da Carta, dos quais se encontram com facilidade as várias versões? Dias depois tive a notícia de que, durante as Cerimónias do dia da Restauração de 2008, foi depositado na biblioteca do Palácio da Independência uma partitura de Canto e Piano da versão original deste hino. Prevalecendo agora este instrumento de verdade acima de qualquer especulação, deixei o meu tímido esboço sem as reinvenções possíveis, e não tendo até hoje indagado o referido documento, faço-o localizar a todos os curiosos.

Uma vez que em mais um ano não verifiquei novidades sobre o assunto, pelo que li e constatei noutros blogues, com esta análise deixo aqui o meu modesto contributo para este dia.


30 de novembro de 2009

UM ANO DE BLOGOSFERA VII - UMA CONFISSÃO - UM ENSAIO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE QUEM NADA SABE DE NADA EM DESFECHO


21 de Novembro de 2008...


Um antagónico momento de solidão crescente haveria de lançar no éter informático um blogue. Um blogue premeditado! Uma ideia de mural internético de aforismos curtos ou alargados no qual haveria de fazer chegar a algures ou nenhures uma pequena voz, e, em lives de megalomania obsessiva e excêntrica, quanto um doido pode alcançar, ser tão popular como antes e depois não haveria de existir outro igual, helás! Cheio de genica o arremessei, e pois bem, qual Spuntik, ei-lo no ar!


29 de Novembro de 2009...

30 é o número estatístico de visitas diárias. Ah pois, somos tão procurados nesta blogosfera que até o Pacheco Pereira se envergonha do seu tão afamado blogue. Ele e o mediático 31 da Armada, naquele famoso dia em que redundantemente embadeiraram de azul e branco o céu de Lisboa.

Apesar do extenso rascunho, que hoje ganha o seu término, este acto em cada instante parece um exercício sem fim. Sem inspiração, escravo da minha vontade ante a obrigação que me impus, desespero perante este bloco de matéria-prima, sem que o mesmo se capacite, como que por artes mágicas, de uma auto-transformação ou ainda em suaves toques de perlim-pim-pim de se fazer fluir prazenteiramente dos dedos para o teclado como nas anteriores composições. Carpindo copiosamente, tentando sensibilizar o leitor num ludibriante esquema de comiseração, já irritado até à alma, penso: que bom era estar munido de uma técnica infalível que neste momento seriam socorro a esta monótona campanha, aihmè, onde somar 1+1 ou 2+2, ou qualquer outra reflexão de resposta directa e pragmática, seriam o fármaco a esta indisposição. Lá diz a vox populis
, que é força de lei neste sítio:

"Quem de bom instrumento excretor é desprovido, não se investe em sodomita"


21 de Novembro de 2008...

Com timidez segui a minha estrada. A net, caro leitor é pois ainda um mundo sem regras nem doutrinas fixas de leis imperiosas, onde tudo é
sem norma expressão máxima de alguém. Nela misturam-se e entrecruzam-se modelos e conceitos, estilos e modas num aprumado ecletismo, sem policiamento ou comissões inspectoras, onde o único critério nesta arte de combinar é por excelência o emprego do bom-gosto. O bom-gosto, no sentido aqui empregue, na capacidade de exposição das mais diversas matérias, é o único artifício capaz de garantir a atracção e interesse ao comum visitante. Assim a graça, o humor, a espontaneidade, a audácia, a originalidade ou efeitos surpresa são características essenciais a qualquer verborreia que não têm a força de lei como os media institucionalizados - como imposições obrigatórias enquanto veículos sorrateiros de informação a quem quer estar à melhor altura de poder deslizar e competir socialmente. Mas isso são coisas do mundo real... aqui, neste horizonte sem fronteiras, convenientemente luso, já que se refere ao espaço virtual da nossa nação, em que se escreve quase exclusivamente em português, todos somos Camões ou Pessoa, ou ainda neste idioma num gosto estrangeirado de influências, todos somos literáriamente um Camões - outra vez Camões, que admiramos e desprezamos, por isso criticamos -, um Garret, um Herculano, um Eça, um Virgílio Ferreira ou qualquer outro nobre nome literário idealizado segundo esta cláusula, a seu preceito. Nutrimos de uma especial admiração por Saramago, apesar de não gostarmos da totalidade da sua obra. Simpatizamos ainda com um Lobo Antunes e os seus confusos arremessos que nos dão a volta à meninge, assim como de tantos outros que agora serão demais aqui citar. Gosto destes, dos implícitos anónimos, e acabou-se!


29 de Novembro de 2009
...

O dia caminha ainda para a hora terça, e espero finalizar este rosário antes que chegue o almoço dominical de um esperado prato no forno, que hoje se adivinha Bacalhau - pelo peixe que se deixou expiar enquanto nadava morto, ali num recipiente na cozinha. Iguarias comensais duplamente em vias de extinção, sendo uma delas o simples facto de ainda não ter dedicado tempo e atenção à sua confecção - pelas mais honrosas e caras mãos que conheço. Não há, nem nunca haverá melhor sabor do que a comida da nossa materna casa. Resquícios da ligação umbilical que nos une a esse ser extraordinário e que o torna tão singular. Uma manipulação natural, é certo, ao retorno pavloviano de um filho à asa maternal.




21 de Novembro de 2008...

Retomando!


29 de Novembro de 2009...

Não consigo adiantar-me. Tudo me distrai... O mês está mesmo mesmo a finalizar e só voltará no próximo ano! Até lá, a continuar nesta morosa lenga-lenga cansaria o leitor, levando-o a fugir destas entediantes pachochadas de trazer-por-casa sem novidade, que se sabem capazes de enfastiar o mais farrusco e menos dotado Diabo, alinhado no topo inferior da longa hierarquia demoníaca, tendo no lamechismo o Divino-lá-de-cima como coaching de cada jornada. Ele gosta destas promiscuas parolices bem meladas, já se sabe, e isso caro e apreensivo leitor-que-expressa-por-Ele-grande-afinidade - pois há leitores para tudo -, não O
descredibiliza nem O faz menos do que Ele é. É apenas O seu bom-gosto, tal como inspira ao povo leigo e aos sapientíssimos artistas seus serviçais, tão leigos quantos os anteriores, pela régia e magna influência do Espírito Santos, hoje coordenador pedagógico de certos cursos de arquitectura, como defende Pedro Abreu, deixando-nos adivinhar que pela mesma arte tal como deve ter iluminado o excelso Troufa Real na sua galharda ideia.

Eles dizem, para não variar, que nós não percebemos nada e que muito menos compreendemos, ante a vénia forçada a umas tais distinções académicas. Porém, se a casa de Deus deverá ser um local atractivo e confortável a todos os sentidos humano na sua forma mais pura ou seja a intimidade dos lares, que como foi muito bem lembrado, trataram-se dos primeiros locais de culto Cristão (discurso que em 1994 a Igreja aludia no regresso à primeira forma, como reforma interna que se estendia aos fiéis - tal como ouvi de Dom António Francisco Marques, um discípulo de São Francisco, na minha Missa Crismal), se assim é do que é que esperam? Um regresso definitivo ao rito Tridentino cheio das promiscuidades pagãs dos conceitos do édito de Constantino?


21 de Novembro de 2008...

Retomando!



29 de Novembro de 2009...

Cada um é Senhor do seu espaço gerindo-o como quer em regime de autoridade absoluta! Sem mais misérias supérfluas, em torno de conclusões já conhecidas de todos, avanço, para satisfação do leitor, como penhor de ter aqui chegado, com un peu d'histoire canonique. Porquê este blogue? Porquê a temática religiosa? Porquê tudo isto?


3 meses antes de 21 de Novembro de 2009...

Quando... No tempo bom, aquele em que ainda fazia sol... Cur... melindrado e perturbado por tantos factos, já no auge de uma galopante crise existencial, ante uma disputa interior queimando as entranhas acrescidas da gestão de temperamentos tão dispares de uma muito altercada gente... Ubi... vagueando numa dessas tantas redes sociais, conversando com um desconhecido do qual hoje não conheço o futuro... Quis... podia ter sido um anjo, uma aventesma de um meu qualquer antepassado ou quiça apenas um ventinho, estou qcerto que não... Quomodo... no prazer da conversa, numa noite de teimosa espertina já pisando a madrugada... Quid... debatendo-nos com confortantes palavras, aspectos e experiências com base no existencialismo em torno dos "ditos" bons e verdadeiros valores - se é que eles existem -, concluindo-se sem grande surpresa que estes cada vez menos se acham, não só nas transformadas novas gerações, mas sobretudo naquelas ais próximas à nossa idade.

Tendo em conta que uma boa educação à portuguesa no seio do lar passa sempre por crenças e também princípios religiosos, não é de estranhar o novo rumo da conversa. Detentor na minha experiência vitae de um curioso curriculum, conferida por um destacamento de avós beatas que remontam ao tempo das famigeradas invasões francesas, relatei somente a influência que esta herança genética teve em mim, aninhanda na minha infância, onde ela sem dúvida tinha sido mais influente. Sem dar por isso, relembrei toda a estória do menino que queria ser santo e das suas conclusões.


29 de Novembro de 2009...

Passou a sexta e a nona
hora, e esta publicação ainda a ser matizada!


2 meses antes de 21 de Novembro de 2008...

Caro leitor, se ainda me acompanha, obrigado por ter chegado até aqui. Estou a falar declaradamente de mim com toda a pujança e cagança, sem o mínimo de educação e respeito pelo universalismo anódino de assuntos . Mas há mais...


Com o reforço das festas da minha aldeia natal - sim caro leitor, uma aldeia de ilustre gente, sobre a qual não interessa dizer mais do que aqui se disse, e que nos tempos do ancien régime era muito frequentada pelo ditador em pessoa, que em visitas ao seu amigo Embaixador assistia sempre à missa dominical antes de se refastelar à mesa, bem regada com o afamado vinho da região, da frondosa quinta do seu antigo ministro. Não pretendemos com isto, caro leitor, mostrar favor a simpatias a esse tempo político mas contar algo. Mas dizia, com o reforço das festas das quais a componente religiosa é dedicada a N. Sr. da Graça, com o fervor bairrista habitual deste tempo, empreendi recuperar uma antiga ideia de publicar na Wikipédia uma informação sobre este vulto mariano local. O processo era demasiado burocrático e daí até à concretização a criação de um blogue assemelhou-se como o melhor e mais alargado meio. Foi um instante! A história da Senhora que conheceu Salazar, e, que não arredou pé diante de um verdadeiro cavalo alvoraçado, pouco oneroso de tal presença, como as histéricas raparigas de hoje entrando em debanda, por fim iria ser do conhecimento geral!




21 de Novembro de 2008...


Blogue semi-sério de inspiração católica sobre tudo e nada, inspirado num engraçado e famoso blogue, do qual não revelarei o nome. Blogue que toma a Senhora da Graça como protectora e que em vez de falar sobre seus vestidos e jóias, ou de como os franceses a violentaram, em que cada passo resolveu-se a contar egoistamente histórias do pequeno rapaz, relatar histórias alheias católicas, modas, brincar com os Papas e os seus gostos e atitudes excêntricas, etc... Porém a partir de um dado momento, imbuído de cada vez maior religiosidade e encontro com Divino, o rumo mudaria e se tornaria em cada dia algo cada vez mais sério e de reflexão interior.


29 de Novembro de 2009...

Mas agora, o resistente e curioso leitor, de certo se interrogará já bastante ávido de saber mais. E porquê esta corrente e não outra? Segundo as minhas crenças todos os portugueses são religiosos. Ser português é ser religioso, e, até o mais descrente ou apóstata ser desta nacionalidade é temente a algo de definição religiosa. O mais snob intitula-se de agnóstico para assim poder fugir às responsabilidades quotidianas. E de todos só há um ateu convicto, o neo-ateísta Saramago, que insiste em fazer vénias ao Divino. O português não gosta de admitir que é religioso. Não gosta de ir à missa, mas corre para Fátima, em tortuosa ou confortável peregrinação, chorando copiosamente na sua bipolarizada forma de fé, sempre pautada pelo joco-sério das atitudes e posturas até do mais circunspecto peregrino, civis ou religiosos. Já Júlio César dizia:

"O estranho povo que não se governa e não se deixa governar"


21 de Novembro de 2008...

SANTOS & SANTINHOS
UM SANTUÁRIO DE BEATITUDES


Assim foi a primeira denominação, um Santuário onde se procurava a libertação do eu como no tratamento psicoterapeuta de um divã que o purgaria e lhe traria a libertação e o reencontro como lemas. Bartolomeu, sofreu à vista de todos enfeitando a sua decadência num rosário de posts publicados diariamente em caminhos sobre os quais pudesse trilhar sem que fosse ridicularizado pelo facto de se expor tanto, com estórias que caídas em mãos perniciosas haveriam de alimentar muitas conversas.


29 de Novembro de 2009...

É noite!

Eis caro leitor, simpatizante ou não da nossa causa, a nossa história ainda que contada sem sábia destreza em argumentos e vocábulos, construções semânticas, erros ortográficos, taipings e tantos outros horrores gramaticais considerados de fracos fraquinhos. Com toda calma encerro este ciclo num até para o ano.


THE END



28 de novembro de 2009

TAKE A DRINK!





E é tão bom!


27 de novembro de 2009

DESCARTES DIXIT:


"Quando começo a descobri-las [as ideias inatas], não me parece aprender nada de novo, mas recordar o que já sabia. Quero dizer apercebo-me de coisas que já estava no meu espírito, ainda que não tivesse pensado nelas. E o que é mais notável, é que eu encontro em mim uma infinidade de ideias de certas coisas que não podem ser consideradas um puro nada. Ainda que tenham talvez existência fora do meu pensamento elas não são inventadas por mim. Embora tenha a liberdade de as pensar ou não, elas têm uma verdadeira natureza e imutável"

Méditations Métaphysiques, “Méditation cinquième”, p. 97-99.
.
.

UM ANO DE BLOGOSFERA VI - UMA CONFISSÃO - UM ENSAIO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE QUEM NADA SABE DE SI NUMA DEMORADA INSISTÊNCIA SEM GRAVURAS


Engane-se pois quem julga que com reparos me intimida e me engana com chás de pés de Cerejeira, quando na realidade se tratavam somente de chás de pés de Cereja - a declinação diz e faz toda a diferença, n'est pas mon cher ami?


Ora com um ar de desentendido e dissimulado, certo do meu triunfo guardado nos meandros dos meu punhos de algodão, inquiri o meu sábio interlocutor até se trair em enganos e a verdade se perfilar a meu lado. Surpreendido da sua incapacidade de ter traduzido o assunto em termos correctos, sem se prostar em desculpas da práxis facilmente perdoadas pela tolerância da fiabilidade humana, injuriou-me pois, caro leitor, acusando-me de pouca amizade e de mau feitio. Caro amigo, aprenda com o já sapidus dito:

"O Bartolomeu sabe sempre tudo! Ainda que tenhamos estudado apenas um pouco mais, mas um nadinha de nada, ele sabe sempre mais!"


Não são suas estas palavras, e que seja desde já ponto assente que o Bartolomeu não sabe tudo, apesar de ser certo que no final a razão nunca esteve noutro local se não à sua direita. Tal sentença, foi proferida faz já algum tempo - anos mesmo - responsabilizando-o para sempre de tal máxima, que para seu espanto até hoje se continua a sobrepor àquilo que deveras sabe. Neste momento, qualquer julgamento sobre uma potencial e adivinhada presunção, ré da sua pessoa, cai veemente por terra. Desconhecendo a razão dessa condição à qual poderia com grande audácia chamar de dom ou uma herança inata que lhe permite sentir e viver o mundo de outra forma. É quase como distinguir um asno que caminha unidireccionalmente com palas, de outro que caminha da mesma forma mas sem elas.

Mas recuando nas palavras escritas. E porque razão o Bartolomeu, não se contentado com a tal ideia, achando que ali havia coisa, refutou avançando no apuramento cristalino da verdade? Simples e vulgar de Lineu, não sabe explicar! Sabe apenas que com base na observação e no relacionamento de ideias, revestido de algum sarcasmo joco-sério, vulgarmente denominado por sentido de humor, sendo esta derivação do pathos que o encerra condicionalmente, avançando com uma arte tão antiga quanto é na humanidade a refinada inteligência da manipulação humana, numa técnica simples e pueril. Tal como qualquer "professorinha primária" indaga o seu aluno com hábeis perguntinhas tentando rectificar o seu erro sem o envergonhar (era bom se assim fosse, mas não), levando-o a corrigir-se na verdade, com recuos e avanços, em desentendida e refinada diplomacia até que o inquirido se sinta como presa acercada e caída conscientemente na tal falta ante a sua língua desbocando a emendada verdade. É aqui que todo o tolo se arruína e o qualquer sensato se eleva. E de ambos, cada um escolhe o que mais lhe aprouver, se bem que a tendência ainda é ser tolo.


... ... ... ...


Novembro está quase a acabar e muito texto ainda por publicar, sem que neste momento saiba o que fazer a este rascunho talhado que modificado não para de crescer. Horas de longas ideias que pareciam brilhantes foram aqui decepadas e eliminadas para que fruísse apenas o sumo da mensagem, que, ao caro e interessado leitor, tento fazer chegar. Em cada dia surge pois uma nova ideia que de preambular se transforma em extenso objecto de programa, subjugando e empurrando para novos dias o assunto por publicar. Malfadada é pois esta minha escrita, por não ter ciência nem método obedecendo apenas ao "patético", vulgo sentimental, sabor do que discorre o pensamento.

Coerentemente, voltemos ao rascunho, ou ao tal "protótipo", que se quer desenrolar:

Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos - outra pertinente causa que outro alguém cá veio ditar (desta com idónea cortesia, mas sem chás para rivalizar o meu já bebido chá de Poejo trazido do Algarve), sendo que a primeira combinação é um brasileirismo entranhado nos nossos hábitos linguísticos à força do entretenimento novelista. Aceite o ensinamento, fi-lo de bom grado dado a minha perene insistência na arte de bem dizer e escrever que longe está de alcançar o mais perfeito idílio.

Mas, agora não importa mais: O dia dos Fiéis Defuntos é dia de gente morta daquela que já morreu fisicamente - essas mesmo que ou foram enterradas, colocadas numa simpática prateleirinha ou gavetinha, ou simplesmente queimadas até às cinzas -. Morrer é coisa boa nos tempos que correm. Diz por aí um famoso, e com razão:

"Hoje morre-se muito"


Pois morre-se! E morrer não é só ir para os anjinhos, como diz o eufemismo mais caro à vox populis. Hoje morrer pode ser simplesmente o acto de desistir e fechar-se herméticamente em si mesmo. Desistir, mais que em todas as épocas está hoje na moda, face a democratização da vida... É mania e a nova doença, dada a descredibilização e a indiferença de um mundo nada paternalista e sem objectivos, sendo o maior escândalo a desistência de pessoas como se se tratassem de meros objectos. Objectos defeituosos e impróprios de serem usufruídos. É grave o que por aí vai e o advento virtual o fero cavalo em que se apoia esta nova Babilónia-de-vida-fácil. Os anciãos, outrora fonte de sabedoria, são vistos como dejectos e restos de sombras de vidas. Os adultos laborais digladiam-se entre si, num mundo escravizado por um galopante e impiedoso capitalismo económico selvagem, desmoralizador da dignidade humana. Os adultos caídos na desgraça, destituídos de suas personalidades, sem expectativas e auxílio, vivem a opressão do cárcere existencial em que vegetam. Os jovens, que nada sabem, esperanças do futuro, andam ao engano colidindo uns nos outros ébriamente como sentinelas estropiadas pelos novos ditames sociais. E as crianças... essas são quem hoje detêm o poder como autocratas da nova era, subjugando tudo e todos à sua volta com apurado instinto de sobrevivência em mandar para um bem estar na vida... enfim, nada é já natural. Estamos perante, não de uma sociedade em evolução mas sim uma sociedade contaminada e decrépita sem valores que outrora dignificavam a existência humana - se é que estes valores não são uma utopia de minorias. A valorização, o particular e o pessoal desaparecem para dar lugar a esse colectivo universal que é vício e depravação em sinónimos de falência e desistência como fuga à realidade. É a morte anunciada, por apneia e afogamento!

Perdoe-me caro leitor, se estas palavras se mostram moralistas. Não sou um velho do Restelo, helás. Apenas alguém que observa e critica apesar de já se encontrar enlameado e corrompido por alguns aspectos deste novo mundo, sobretudo por viver e partilhar esse mesmo mundo, local onde vivemos. Restas-nos saber, se valerá a pena ficar com ela apenas pelos tornozelos já que o mundo vive condicionado e viciado por essa pseudo-elite inalcançalvel, novos deuses em profecias já anunciadas, e senhores das novas religiões, que contaminando reduzem e privam o mundo das vidas humanas acicatadas com mil benesses e mil-artes, armas de morte lenta, que se usufrui com sabida ignorância arrogada pela sede do consumismo.

Portanto, por agora e enquanto não morremos, prossigamos noutras variantes, na história dos Fiéis Defuntos:

O dia dos Fiéis Defuntos, é aquele dia em que a grande Igreja de Roma reza por todos quanto já partiram, esperando que assim os menos desfavorecidos alcancem o céu. É o dia em que nos forçam, com mil sentimentos de auto-comiseração, com ameaças de infernos e purgatórios, a uma penitente romagem ou a lembrarmos-nos pelo menos dos nossos familiares que já partiram, malgré tantas fotos em casa enchendo móveis e estantes, às quais passamos o ano a sorrir correspondendo às felizes expressões lá cristalizadas.

Práticos são os Protestantes, haja dois dedos de testa. Práticos e salubres que não perdem tempo em tais lúgubres sensaborias apostando numa ajuizada auto-remissão em vida, uma vez que os mortos sem-vida, que se perpetuam agora numa existência marmórea, lá, ou só têm contas a prestar ou simplesmente erram num lugar comum como cá, pois sejam um ou mais locais, de todas as verdades a mais verosímil é somente aquela que destitui esses sítios do além como providos de diferentes níveis sociais. Por cá, no mundo católico, são só cantigas ao dinheiro gasto em missas, em lápides, em flores... um enterro digno é o máximo que alguém pode desejar, agora a exploração estuprada dessa passagem o revolver do cadáver na urna, lá no escuro da cova funda...

Eu não fiz romagens nenhumas e muito menos me lembrei de gente morta nesse dia. Tenho boas memórias dos meus mortos, e deles são essas as minhas melhores recordações. Estou-me nas tintas para o pecado, se tal o é, da mesma como o Divino-a-ver se está nas tintas para aquele meu incessante pensamento, que ele sabe bem qual é, e nem mesmo com quilos de anti-depressivos já tomados se desvanece. Agora, e em bom jeito de prosseguimento eu poderia seguir para a minha errância e Ele... para onde quisesse, sem ressentimentos e as suas habituais revenges - convenhamos que são sempre resultado de um injusto braço de ferro, pois eu de omnipotência nada tenho, crendo apenas levar-lhe a melhor com a minha indiferença.

O atento leitor, que nos segue há vários meses, de certo compreenderá melhor agora alguns traços desta nossa existência, e desengane-se desde já todo aquele que julgue que me estou a inspirar em Saramago e no seu Caim (basta ir aos Registos). Na realidade posso arrogar primazia, pois a nossa questão antecipa e bem o famoso livrinho. É certo que agora deixo desvelar um pouco deste assunto, mas não mais que isto, ante a vontade regateira, tão cara à raça humana, de algum leitor voyeur! De um poeta, pintor, artista e outros que tantos apenas interessa a sua arte, pois é nela que está o grande contributo à sociedade... nada mais interessa. Usufruir é um grande dom para aqueles que sabem viver e cheio de honras é aquele que viveu in tempus equalis, já que tudo na existência é efémero. Vil será sempre quem agiu em contrário e vem bater em mortos, com pouco respeito à sua memória e arte, pois demonstra com isso que para além de não saber viver, nada sabe ou soube aproveitar. Chorar, gritar, gemer, ganir, escabelar-se só no segredo do quarto, onde ninguém nos escuta e vê. Faze-lo em publico, serve de alguma coisa? É algum orgulho? É bom lembrar que as carpideiras são mercenárias, artistas que choram pelos outros num teatro fingido, e quem da sua vida faz um pranto por tudo e nada, que nem uma carpideira, bons sentimentos não deve ter e nada de favorável pode oferecer ao mundo. Muito ouvi em horas de partida, como aforismos e derramadas lágrimas de crocodilo. Jamais se lamenta o fim de algo bom, de uma existência feliz que de adequado só soube oferecer. O aplauso e o sorriso são a melhor retribuição e as lembranças, memórias e inscrições o melhor conforto.




Pavane pour une Infante Defunte,
em consolo pela desgraça do mundo morto-vivo em que vivemos resignadamente


(continua)


26 de novembro de 2009

BOHEMIAN RHAPSODY


Foi no já passado dia 24 que se assinalou da seguinte forma a imortalidade de Freddie Mercury:



Thanks Muppet Show!


25 de novembro de 2009

A POUCO E A POUCO...





... com Favas com Chouriço ao jantar, constrói-se na cama um amor com cheiro a refogado e de beijos jactados a alho e outros condimentos, já para não falar das flatulências. Ahimè!

É o sonho de infância de qualquer de qualquer um,
está-se mesmo a ver!

24 de novembro de 2009

UM ANO DE BLOGOSFERA V - UMA CONFISSÃO - UM ENSAIO SOBRE A PARVOÍCE EXISTÊNCIAL DE UM RAPAZ QUE JÁ NADA SABE DE SI EM DEMORADA INSISTÊNCIA


Et voilá
, quem diria que seria em Novembro que Bartolomeu criaria um blogue... e sobre esse blogue o que dizer? O que se lhes reserva? De nada serve conjecturar ou mesmo delinear pois a imprevisibilidade e a inconstância, filhas do tempo e do temperamento, muitas vezes ditam coisas de imutabilidade tão inesperada como surpreendente. É mesmo assim caro leitor: qual de vós nunca foi vítima destas duas irmãs siamesas gémeas siamesas, aberrações da natureza, tão antigas quanto Cronos e que nos cornos deste viajam pelos tempos fora como parasitas indesejados. Cornos, caro leitor, cornos - palavra altaneira a um nado-ribatejano que se arroje das suas origens e zele pela sua na arte de bem dizer como um quase estrangeirismo soando a pérolas,
num real ou hipotético polido palaciano salão de um meio urbano ou cosmopolita, a menos que tal singularidade na realidade conste aos delicados auditores como de um consentido aforismo dissonante e desbragado, tolerado somente pela arte de bem estar ou mesmo pela satisfação dos que encaram como brejeirice, admirando tal audácia por um gosto decrépito de viver no fio-da-navalha ou no gosto decadente. Engane-se o leitor se tal assim pensa. Cornos, tal como ser ribatejano, é uma palavra salubre que dá vigor e estimulo a qualquer assunto, e por agora por aqui ficamos.

Cronos, essa criatura que a mitologia assim definiu, está viva e de boa saúde. Atleta voraz não descansa nunca, malhando no mundo de todas as épocas os seus minotauricos cascos levando desenfreadamente tudo à frente, qual touro embravecido. Impiedoso senhor. Impiedosa essência que envolve herméticamente o mundo e a nós, regulando-nos pela lei expressa por esses instrumentos que definem momentos e que do alto dos campanários soam melindrando as gentes.
Cronos não é matéria; Cronos é a reincidência aqui já debatida; Cronos é aquilo que em cada ano impiedosamente nos faz redundar em torno de nós sempre com uma nova e mais gasta aparência. Cronos é a antítese do género humano, retraçando-o e envelhecendo-o; Cronos é a anti-criação de um Divino que o isolou fora do Éden, e que por vingança lhe entregou o homem; Cronos é a mais crua e dura verdade; Cronos é a sabedoria; Cronos é o cansaço; Cronos é demolidor; Cronos é o Diabo; Cronos é o pranto, a desgraça, a refinada mentira, a bruta inveja, a destruição e a pandemia infecto-contagiosa de maleitas que atrai a si o mundo e o condena... Cronos é o pai dos males do mundo, a caixa de Pandora de todas essas dicotómicas irmãs bi-polares, que assaltam e se propagam no mundo. Helás!



Cronos é nesta forma de ser ribatejana a "moca" de Rio Maior, que caída em cima da sua vítima a chama à verdade dotando-a, não de um par-de-cornos na têmporas, mas de galos latejantes cantando seráficamente horas a fio, ditando à escrita tais patranhas...

À nossa contrariada vontade, por tal soberano senhor, Doris Day com vestes de grande general romano, admoestou-o com graça e enfraquecendo as imperiosas leis afirmou com maior sapiência, aquilo que a vox populis há muito ensinava:




Assim fala a verdade,
o tempo e arbitrariedade, e nunca a vontade,
tudo determinarão!



(continua)



22 de novembro de 2009

...UMA SALVA DE PALMAS





E antes que o Domingo de Aniversário termine, naquele que foi o primeiro dia após a noite da criação, parto em talhadas o bolo já exibido que agora ofereço a todos o seguidores e visitantes a quem sou tão grato pela companhia que me fizeram neste ano, lembrando, o que nunca é demais, que é a todos vós a quem dedico este espaço e todo o seu conteúdo. Pois é meus caros amigos, segundo as minhas determinações e vontade, este blogue é vosso e feito para vós.

Bem hajam a todos.
Até para o ano!


(entretanto seguem-se até ao fim do mês os preciosos raciocínios existenciais que ainda não saíram e que assinalam este aniversário).


PRÉMIO: OLHA QUE BLOG MANEIRO!


Recebi este prémio há algum tempo atrás. O primeiro de toda a história deste blogue, o que me fez sentir muito honrado pela distinção.

Foi-me atribuído por um jovem rapaz, e seguidor, do blogue ADOLESCENTE GAY, do qual não sabemos o nome. Sabemos que gosta de dançar e tem um enorme fascínio em escrever no seu engraçado blogue onde conta as suas picarescas histórias estudantis e juvenis, num estilo literário jocoso, com engraçadas incongruências gramaticais (tal como todos nós) e outros apanágios da idade, sempre com graça e sentido de humor bem ao género de uma farsa rocambolesca. Quiça um novo e mais bem disposto Saramago!

Obrigado rapaz! Obrigado por gostares do nosso blogue e por o distinguires como um dos que mais gostas, pelo que nos responsabilizas a não descurar nunca o que somos e já achámos.

(Nós por aqui achamos o teu blogue muito divertido).

Ei-lo!



Agora, segundo as regras do prémio, deverei:

- Publicar o selo;
- Exibir o selo na barra lateral;
- Publicar o link da pessoa que nos distinguiu;
- Nomear outros blogues;
- Notificar esses mesmos blogues.


Seguindo uma outra regra, atribuo agora este prémio a blogues de entre os que sigo diariamente ou pelos quais tenho grande admiração, apreço e uma maior afinidade ou afecto especial. Em resumo todos aqueles que têm um significado relevante para mim, nas mais diversas e variadas vertentes - culturais, politicas, sociais, mundanas, religiosas, etc... Distingo então os seguintes blogues:

7 pecados [quase] mortais


A Pipoca mais doce

A Torre Mágica

Abraço-te

BlogoMóvel

Combustões

Cova do Urso

Estado Sentido

Intemporal

Khôra

Luís Marques da Silva, Arquitectura

Makyarim

Muitas Palavras

Padres Inquietos

Piano

Praia

Rabiscos e Safanões

Sair das Palavras

Scala Regia

Sítio Peludo


IL FRATE 'NNAMORATO - MAIS UMA IDA À ÓPERA


Hoje é a noite do nosso primeiro aniversário. Há um ano atrás por esta hora aperfeiçoava o aspecto do blogue - num tom azul celeste e outros pormenores já esquecidos -, delineava e retocava o primeiro post
contemplando o inicio desta laboriosa aventura.

Esta noite, em feição de comemoração, o mais antigo seguidor deste blogue, desde a sua génese, que é também meu amigo pessoal de longa data, companheiro de muitas paródias sérias e jocosas, convidou-me para um serão diferente. Directos a Belém, lá fomos à ópera ao CCB, com bilhetes oferecidos, para ver e ouvir IL FRATE 'NNAMORATO.

Obra de Pergolesi - o célebre autor do mais impressionante
Stabat Mater que o mundo venera como obra ímpar da humanidade, mediatizado na sequência de Amens no filme Amadeus de Milos Forman -, esta ópera, em dialecto napolitano, é uma divertida comédia de boa e grande qualidade de música. Compreender Pergolesi é recuar ao período musical barroco, sendo que foi um dos mais brilhantes compositores de óperas do seu tempo ao ponto de um seu Intermezzo musical, La Serva Padrona, ter originado em Paris um guerra intelectual que dividiu facções entre os interesses da musica francesa versus musica italiana, em lutas verbais e fisicas - bem ao género das hoje conhecidas escaramuças futebolísticas entre claques - que ficou conhecida como La Querelle des Buffons.

Avançando ao dia de hoje. Pois lá estávamos no CCB, onde já cheguei à última da hora quase quase a perder a entrada para o início do espectáculo. Entrado, fiquei sentado na incomoda lateral e de lá vi principiar a ópera. Toca o ensamble barroco Os Músicos do Tejo, que é um grupo de música antiga dirigido pelo jovem maestro Marcos Magalhães, que é também coordenador do grupo e da produção. Os cantores, todos muito bem escolhidos cantavam exemplarmente e com correcção num bem medido sotaque napolitano. De entre todos distingue-se o Baixo João Fernandes, que para além da sua muito boa voz, trabalhada e matizada nas melhores escolas de Londres, mostrou dotes de grande e bom actor na arte da comédia na pele de um jovem galhardo, afectado e garboso, bem ao modo dos "Dandys" de então. Será neste âmbito, com lives de prodígio, na interpretação da dificílima ária Si stordice il Villanello - catalogada no Groove como impossível de ser cantada -, que este brilhante cantor-actor, com suprema inteligência na interpretação e na optimização de toda a extensão que a ária compreende, sem descaracterizar a sua voz - entre o registo de falsete, cabeça, peito, estrionismos vocais diversos sempre justificados nos gestos e na mimetização do papel - levando a melhor às absurdas dificuldades vence a prova com graça conquistando o público que não hesita em rir de satisfação e que no fim o brinda com espontâneo e generoso aplauso. Um belo triunfo. Um momento histórico, dado esta ária, pelas razões apontadas, ser sempre cortada ou excluída da ópera. Por fim, merecem ainda destaque de sobremaneira as duas Servas, os Sopranos Joana Seara e Sandra Medeiros; o Barítono Luís Rodrigues, em plena maturidade vocal com sóbria comicidade, sobretudo pela sua capacidade em agarrar o público; e o Tenor Carlos Guilherme, que apesar da sua veterana idade, possui uma robustez vocal lírica única e exemplar, e uma camaleonica capacidade interpretativa e estilística. O restante elenco é ainda composto pelos graciosos Sopranos Carla Caramujo e Eduarda Melo, estando a cargo desta última uma parte que naquele tempo foi escrita para um Castrati; e pelos Meio-Sopranos Inês Madeira e Sara Amorim.

Sublinhada por uma cenografia minimalista e um guarda roupa estilizado e intemporal, a cena está dirigida com inteligência dando primazia à relação palavra/gesto na construção psicológica dos personagens, em figuras exacerbado bem à maneira mediterrânica, onde foi pena a ausência de mais elementos ou estereótipos da Commedia del'Arte.

Hoje, Domingo, 22 de Novembro de 2009, é a última récita desta ópera de expressão barroca que se recomenda com extremo interesse. O local é o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e principia às 21h. A não perder!

Quanto a nós, destacamos este belo presente que nos foi oferecido e que aqui partilhamos neste comentário tentando suscitar o interesse do leitor a ir ao espectáculo. Apesar de não ser esta produção e esta voz, aqui fica um excerto musical desta ópera:




IL FRATE 'NNAMORATO




CCB
(Centro Cultural de Belém)

...

LO FRATE 'NNAMORATO
(O Irmão apaixonado)

Comédia Musical em 3 actos


...

Música:
Giovanni Battista Pergolesi


....

Direcção Musical:
Marcos Magalhães

Encenação:
Luca Aprea


...

Ascaneo:
Eduarda Melo

Dom Pietro:
João Fernandes

Marcaniello:
Luís Rodrigues

Carlo:
Carlos Guilherme

Vanella:
Joana Seara

Cardella:
Sandra Medeiros

Nina:
Sara Amorim

Nena:
Carla Caramujo

Luggrezia:
Inês Madeira

...

Orquestra Os Músicos do Tejo


LinkWithin

Related Posts with Thumbnails