21 de dezembro de 2008

THAIS - UMA SANTA A RELEMBRAR


A propósito da transmissão da ópera Thaïs de Massenet, que ontem se ouviu em directo do Met de N. York, fica aqui um apontamento sobre a LEGENDA AUREA desta figura, datada do séc. XIII, onde se conta com singeleza assaz comovente a seguinte narrativa - da qual saiu o romance de Anatole France, que gerou a ópera:


Taide ou Thaïs

A Cortesã Thaïs era tão formosa que vários homens se arruinaram por amor a ela, ficando na maior penúria, e à soleira da sua porta o sangue dos quais se degladiavam por ciúmes fazia poças.

Pafúncio, anacoreta, sabendo-o, buscou uma moeda de prata e trajando à secular, veio de longada até à cidade do Egipto, onde ela morava, a fim de lhe dar o dinheiro, para, a troco dele, pecar com ele.
Thaïs uma vez recebida a moeda convidou-o a entrar no seu quarto onde havia uma cama recamada de estofos caros. Pafúncio entrou mas mostrou preferência por quarto mais retirado. Anuindo, ela levou-o para vários compartimentos, mas ele dizia sempre que receava ser visto.

Então a cortesã disse-lhe que tinha um quarto onde ninguém poderia entrar, contudo se era Deus que ele temia, não havia modo de remediar o caso porque em nenhuma parte do mundo poderia furtar-se a Seus olhares.

- Mas então sabes que Deus existe?

Thaïs respondeu que sabia e não ignorava a vida futura e o castigo dos pecadores.

- Mas se conheces tudo isso, por que tens causado a perda de tantas almas? Terás de dar conta delas a Deus e também da tua e por certo serás condenada!

Ouvindo tais palavras a cortesã lançou-se aos pés do eremita, lavada em lágrimas e exclamou:

- Mas sei igualmente que é possivel o arrependimento e tenho confiança em que as tuas orações poderão alcançar a remissão dos meus pecados. Dá-me só três horas de espera e depois delas irei para onde me mandares e farei o que me ordenares!

Thaïs empregou as três horas em reunir todas as riquezas que amontoara à custa do pecado e lançou-lhes fogo na praça pública ante densa multidão.

Depoisa Pafúncio levou-a para um convento de freiras onde a emparedou numa cela exígua, a fim de a arrastar vida de árdua penitência:

"Não és digna de pronunciar o nome de Deus, nem de levantar as mãos para o Céu porque toda tu és impureza. Limitar-te-ás, voltada para Nascente, a repetir sempre a mesma frase:

"Oh tu que me criaste, tem piedade de mim"!

Ao cabo de três anos Pafúncio, condoído da sorte da infeliz, foi-se em busca de Santo Antão, para saber se Deus não haveria perdoado os pecados da penitente. O Santo congregou os discípulos e ordenou-lhes que permanecessem em oração até que Deus revelasse a um deles o que fora objecto da vinda do monge. E quando todos oravam, Paulo viu no céu uma cama coberta de panejamentos preciosos e guardada por três virgens de rosto resplandecente. As três donzelas eram o temor dos futuros castigos, a vergonha dos pecados cometidos e a paixão pela justiça de Deus.

E como Paulo supusesse que tal cama deveria ser indubitavelmente para Antão, uma voz do Alto exclamou:

"Não! É para Thaïs, a cortesã!"

No dia seguinte Paulo tratou de contar a visão que tivera e Pafúncio entreviu nela a vontade do Altíssimo e, dirigiu-se logo para o mosteiro a fim de desemparedar a penitente, o que fez por estas palavras:

"Sai daí, porque Deus remiu teus pecados, não só por causa da penitência, mas também porque conservaste o seu temor no fundo da tua alma."

Ela ainda viveu quinze dias e adormeceu na paz do Senhor.

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Anatole France, homem de pouca crença, viu nesta história um recurso de amplas possibilidades com a finalidade de provocar a religião, prevertendo-a, segundo os seus princípios.


Lina Cavalieri,
no papel de Thaïs


Assim Pafúncio, agora chamado de Atanael, monge senobita, tinha sido na sua juventude amante de Thaïs. Por obsessão carnal aproxima-se dela, para converte-la segundo a moralidade cristã, e consequentemente faze-la passar pelas mais duras provações. A sua intenção é conseguida, apesar da relutância de Thaïs.


Ária do Espelho

Levando-a para um convento, intensifica no caminho ainda mais os seus sentimentos carnais, enquanto esta vive na razão e consciência impostas. Chegados ao convento, despedem-se. Atanael fica atónito, percebendo que não voltará a vê-la.


Rene Fleming
Aria do espelho

vestida por Cristian Lacroix

Met 2008


Passam três semanas, e o monge é assaltado por sonhos eróticos com Thaïs. Enchendo-se de tal rubor, corre para o mosteiro para possuí-la carnalmente, ante a sua loucura. Chegando, encontra uma Thaïs moribunda. A sua motivação é cega. Esta morre e Atanael fica inconformado.

Assim, a cortesã em santidade atinge a espiritualidade ascendendo aos céus, e Atanael o percurso inverso caindo no materilismo e desejo carnal.


Eva Mei e Michele Pertusi
Morte de Thaïs
La Fenice 2005

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Sampayo Ribeiro, Mário - Thaïs - Colecção Ópera - Editor: Manuel B. Calarrão, Lisboa, Agosto 1951


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