21 de novembro de 2008

PRÓLOGO


PORQUÊ OS SANTOS?


ANTES DE INICIAR AO QUE ME PROPONHO, COM A ABERTURA DESTE BLOGUE, GOSTARIA, COM A VOSSA PERMISSÃO, DE CONTAR UMA PEQUENA HISTÓRIA. CERTAMENTE ASSAZ INSIGNIFICANTE, PORÉM SENDO ELA PESSOAL, MARCA O PERFIL QUE ACOMPANHA O SEU VIVENTE PERSONAGEM, QUE AQUI, DESTA FORMA, A DEPOSITA:


Era uma vez...

um pequeno rapaz que queria ser Santo!
Mas como ser Santo?
Pensava ele...





Achava-se com sorte: Desde muito menino que ia à missa, pela mão da sua avó. Para ele, na sua tenra imaginação, esta era muito amiga da Nossa Senhora da Graça – achando mesmo ser daquelas amigas do "tu cá, tu lá". Só podiam, e era um dogma, pois era a avó a dona da Santa Senhora (havendo inclusive, uma clara distinção entre todos os Santos, que eram de Deus, e aquela, que era da avó). Era a avó, e mais ninguém, aquela que cuidava da Senhora. Era a avó que tomava conta das suas vestes, perucas, coroas, ornamentos e jóias - guardadas num baú da sua casa da costura. Era a avó que a tirava do altar. Era a avó que a despia, vestia e punha no andor. Era a avó que lhe trocava, secretamente a cabeleira, para que ninguém lhe visse a careca – todos estes gestos nos maiores e seculares preparos e cumplicidades, outrora ensinados pela mãe da avó (mas isso é outra história). Assim, o pequeno rapaz, achava-se já encaminhado de ser Santo, por osmose a esta tão grande amizade, corroborada pela tradição de família. Mais! Estava mesmo tão convencido disso, por na Igreja a avó ter uma cadeira só sua e um genuflexório só seu – quantas vezes não a viu “por a correr”, despudoradamente, outras senhoras que tinham a ideia de se lá irem sentar. Era irredutível, e tudo corrido a "Bardamerda". Pois tudo era dado e abençoado pela Senhora da Graça, que lá do seu altar, mesmo à esquerda do tal lugar, nos sorria, enquanto que no colo da avó o pequeno rapaz bocejava e se espreguiçava, e o Padre A... no altar proclamava o Senhor.



Nª Srª da Graça 
(A Padroeira do Blogue)


Por volta dos seus 5 anos, a questão tornou-se séria! Gostava de Santos, e sentia-se confortável com visitas a Igrejas. Tinha afeição por Imagens e Procissões. No Verão, na companhia do pai, eram inúmeras as que visitavam e percorriam.

A percepção da vida, com a chegada da idade da razão, começou-lhe a trazer as primeiras questões. Coloca-se o primeiro dilema:

“Afinal ser Santo é: Ser estátua e estar num altar, ou é ser homem?"

Enquanto não esclareceu isto, o pequeno rapaz brincava mimetizando as estátuas que via, sacras e profanas. Uma tarde num jardim, imitou todas as estátuas das 4 estações e outras Ninfas Desnudas, enquanto o pai o fotografava, e a mãe o repreendia, por não se estar a deixar fotografar, como normalmente.

Aos Domingos acompanhava a prima D… em visitas de caridade. Uma vez na sala da casa de uma senhora, sozinho, enquanto via na televisão "The Love Boat", brincava com as almofadas do sofá, simulando ser a N. Sr.ª da Graça a ser vestida e despida pela avó. Porém não deixou de reparar, que num canto estava uma peruca... Surpresa das surpresas, era o cabelo da senhora a quem foram visitar, que o usava só quando saía à rua. E sobre isto... mais não se conta!




Porém tudo foi evoluindo.

Eram a primeira Semana-Santa e Pascoa, da idade da razão. Na televisão contava-se a vida de Cristo, pela película do Zeffirelli. Eram os grandes serões familiares. A avó, a única autoridade para isso, afastando toda a concorrência, lia as legendas até se cansar. E se no cansaço, alguém retomasse... lá voltava ela à carga! Aí, estavam os pais, os manos, os tios e os primos, a prima L… e a prima G…. Absorvido, via e assimilava tudo aquilo. Porém, melindrava-o um facto:

“Como é que eles tinham filmado aquilo...
se tinha sido há 2 mil anos?




Então o pequeno rapaz chorou a morte do Senhor, e chorou compulsivamente todos anos sempre que se repetia esta série, percebendo assim que ser Santo era ser Homem. Decidiu-se então ter como modelo o Senhor, sabendo porém que há muito que já não haviam crucificações.

Curioso e ávido de maiores e profundos conhecimentos foi-se questionando e correndo a família toda, foi inquirindo quem, por sabedoria, os soubesse! Foi a casa da sua tia L... e perguntou-lhe:

“ – Ó tia! O que é preciso fazer para ser-se Santo?"


Estupefacta, mas nada surpreendida, com mais uma das insólitas perguntas do seu pequeno sobrinho, tentou explicar-lhe como soube enchendo-o de mil advertências, das quais se lembra do seguinte:

“ – Ser Santo... é ser um homem de virtudes."

Em casa da prima D…, enquanto esta costurava, colocou-lhe a mesma questão. E assim foi - histórias e respostas para tudo era mesmo com a prima D...! Em longas sessões, em múltiplas e longas tardes, acompanhados pelo som ritmado e incansável da sua “Oliva", e pelos "Parodiantes de Lisboa", que saíam da sua pequeníssima telefonia, a prima D... foi fazendo crescer e brilhar os olhos do pequeno rapaz, explicando-lhe tudo quanto ele almejava saber - interrompidos pontualmente pelo célebre anuncio que ambos, rindo, recitavam em coro:

“ – Menina, que Polos conhece?”
“ – Conheço o Polo Norte, o Polo Sul e o Polylon!”
“ – Poly… lon?”
“ – Ai que o Sr. Professor não sabe! Polylon são os fechos de correr que a mamã usa. A mamã e as outras senhoras!”

A partir de então, o pequeno rapaz, convencido de ir a caminho da santidade, começou a brincar ás missas. Com as bonecas velhas da mana, fez Santos. Improvisou num espaço uma capela. Recrutou o mano, os primos, uma vizinha e uns quantos rapazes que lá iam para casa brincar, alinhando todos participar nas Missas e nas Procissões, que seguiam pelas ruas, e que só aconteciam no Verão.

O caso tornou-se público. Na rua, as vizinhas e a prima A..., diziam:


“ – Bartolomeu, tens de ser Padre...”

Ao que respondia, birrento e choroso:
“ – Eu não quero ser Padre, pois quero casar e ter filhos!”

Elas retorquíam, rindo:
“ – Então vais para Padre Protestante…”

Ao que respondia:

“ – Não quero, eu gosto é de ser católico!”


Um dia porém deu-se inesperadamente a Epífania final!

Enquanto assistia na televisão ao São Francisco do Zeffirelli (sempre o Zeffirelli quer naquele tempo quer hoje, grande paixão!) – Fratello Sole, Sorella Luna –, eis que, segundo a veracidade dos acontecimentos, Francesco se despoja totalmente das suas roupas, na praça de Assis e assim, despido, caminha saindo da cidade.





Atónito, o pequeno rapaz dispara a pergunta:

“ – Oh, 'vó! Para se ser Santo é preciso fazer aquilo?

Resposta:

“ – Sim!”

Sem ter percebido, que se tratava de uma resposta metafórica ficou estarrecido e indignado. Sentiu-se mal! Sentiu-se incapaz! Se para se ser Santo, se teria de prestar tal prova, jamais o seria. Jamais seria capaz de fazer o mesmo: A vergonha da nudez era elevada. Jamais se despiria. Jamais atravessaria a sua aldeia despido - mesmo que a sua vizinha S... fizesse de Clara.

Durante uns tempos meditou sobre o assunto, sem achar forma de contorna-lo.

Se ainda fosse uma nudez parcial... Como a do Senhor!

E se o fizesse: Quanto tempo tinha de se mostrar despido? Quantos metros tinha de andar? Por quanto tempo? Quem iria cobri-lo? Como e quando? E a sair de casa, para onde iria?

Chegou a pensar: e se for de noite?... sempre seria menos exposto?

Enfim, era demasiado para aquilo que pensava. Até achava poder ser simples... mas onde estava a coragem para se despir até à nudez, que nem na praia, em idade pueril, era capaz de expor! Não! Vexado, desacreditado e desiludido, para ele, tudo tinha caído por terra!

Nunca encontrou solução! Deixando-se vencer, deixou de pensar no assunto e começou a tentar ser um rapaz normal!.



4 comentários:

Anónimo disse...

confesso que não vai ser facil te reconhecerem.

L.O.L. disse...

Este Blogue é A_B_S_O_L_U_T_A_M_E_N_T_E divino. Não sei com é que tenho andado a perder isto. Mas a Blogosfera é imensa e é pena não haver uma "ferramenta" (se calhar até há) que nos permita dar de caras com blogues de nível como este. Criei uma hiperligação no meu "Cantinho" para este Blogue. Tenho um amigo de longa data que também tem um blogue espectacular
ELEMENTO MUSICAL
Estive ontem na casa dele e ambos demos uma olhada atenta ao SANTOS & SANTINHOS que, como referi, é mesmo de nível...

Bartolomeu disse...

Olá L.O.L,

bem vindo.

Obrigado pelo comment. São muito gentis as palavras que nos escreveste. Fico muito feliz por isso.

Entretanto já os adicionei como vosso seguidor.

Abraço

Salete Cattae disse...

Gostei muito do teu blog!
Achei fantástico o cuidado com que você escolhe as palavras, monta as frases e desenvolve o texto, fica uma delícia de ler...você escreve maravilhosamente bem.
Voltarei mais vezes...

Quanto ao post, adorei a tua história, fiquei tentando me lembrar o que queria ser quando criança, mas não lembrei...tenho certeza apenas que santa eu nunca quis ser.

Beijinhos :)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails